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segunda-feira, 1 de julho de 2013

CRÔNICAS DE SALVADOR

Introdução

            São pouco mais de nove horas da manhã de uma sexta-feira. Se fosse há uma semana atrás, eu estaria em um ônibus com destino a capital de ACM, a propalada cidade de Salvador. De certa forma, este nome e esta aura messiânica da localidade e de todo o estado da Bahia modificou profundamente a minha vida. Muito mais do que as minhas profecias de samba-canção da sexta poderiam supor.
            Tanto que o que deveriam ser crônicas estritamente coloquiais e bem-humoradas saem de meus dedos como um lamento, uma confissão, um relato místico, embora com algum senso de humor eu espero. Digo: espero, por que não freio nenhum pensamento, ou quase nenhum. Deixo isso fluir, isto que transborda em mim, e em todos nós mais ou menos, no sol ou chuva e, aparentemente, sempre e fácil – nem sempre sem dor – em iluminados nomes como: Caravaggio, Veríssimo (o filho), Janis Jopplin, Elis, Kurt Cobain, Robin Willians ou Renato Russo*.
            Ensimesmado numa encruzilhada de opções e aurindo forças para ratificar umas opções e retificar outras, idealizei durante mais de um mês esta viagem que, pensava eu, seria inesquecível. E, sem dúvidas o foi, muito embora por motivos insuspeitados. Eu não sei bem quando ou de onde sugiu a idéia de pegar a estrada para Salvador, contudo, foi em meados de Junho que tudo se deu. Acho que foi – como quase todas as grandes idéias – em uma mesa de bar...
            Há mais de dois meses terminei um relacionamento com Fátima**, a quem me refiro sempre como a “falecida”, como que para sepultá-la em meu coração. Esta, porém, ainda não faleceu. Aliás, desde que tudo acabou definitivamente penso em escrever para desabafar. Todavia, só agora tenho coragem. E como a idéia do livro surgiu em Salvador, eis a primeira grande mudança que a viagem me propiciou.
            Ao fim do referido enlace, me uni mais fortemente ao lendário Wladimir, amigo de longa data, com o qual suportei longos revezes e que também estava às voltas com a ex-namorada, a Elenice. E com novos amigos da escola: Alana, professora de Biologia, Andréa, amiga desta, Carolina, a carioca de Inglês, Anália, coordenadora, e Edison, também, professor de língua inglesa. Com este grupo, realizei inúmeras incursões pelas noites potiguares. Dançamos, cantamos, comemos e, principalmente, conversamos. E foi numa dessas conversas que, Alana mencionou***:
-          Eu vou para SBPC, em Salvador. O trabalho das meninas foi aprovado e um só meu, também. Vamos! Vamos!
Ela sempre repetia o final das frases para reforçar suas idéias. Em seguida esboçava um sorriso. Discreto, porém sincero. Era uma mulher madura de pele convidativamente morena e de óculos de aros grossos, o que reforçava a sua imagem de pesquisadora.
Não me lembro se naquele dia este pensamento me ocorreu, mas lembro que no ano passado, eu e Wladimir e outros amigos fomos de carro à Fortaleza e no retorno pensamos: “No próximo ano, vamos para a Bahia”. Temos que ter cuidado com o que pensamos. Obviamente se não forem bons, os pensamentos devem ser excluídos.
Fato é que a idéia de irmos a Salvador foi amadurecendo. Pensamos em uma pousada e em irmos de carro, mas isto foi descartado. Acabamos indo numa excursão. E em meio aos nossos planos, me lembrei que tinha uma amiga na cidade, aliás uma ex-namorada, e liguei pra ela. Em meio à conversa, em que eu contava que iríamos a Salvador ela me disse que não estava saindo. Eu estranhei pois, embora fizessem muitos anos que não nos falávamos, tinha certeza que ela gostava dum “agito”, ao que ela me esclareceu:
-          É por causa do bebê.
-          Você teve um filho?
-          Não. Estou grávida de sete meses.
Bom, certamente não era o que eu queria ouvir. No mínimo porque perdemos a nossa guia nativa.
Com o correr do tempo, Anália, a coordenadora simpática que nos recebera tão bem em sua casa e cuja companhia era ímpar, pelo alto astral confessou que não poderia ir conosco pois a filha viajara para ver o pai, em Minas Gerais, e não tinha recursos para a empreitada. Diante do que foi compreensivelmente chamada de “traíra”. Essa foi a primeira baixa, que não abalou significativamente o ímpeto do grupo em prosseguir. Ao fim das contas, ficou acertado que Carolina e Edison, respectivamente, “traíras” 2 e 3, não iriam na excursão hospedando-se na casa de uma amiga de Carolina, talvez. Foi pior, nem foram. Até hoje não sei porque, mas certamente foram perdas consideráveis. Até porque eram sem dúvida pertencentes à facção animada do nosso grupo e, também, a ala mais dançante.
Outra perda lamentável para esta viagem foi o fato de uma das seis orientandas de Alana não ter ido por motivos maiores. Isso após as alunas terem se dedicado tanto ao trabalho, terem conquistado uma ajuda de custos da escola e terem organizado eventos para tornar possível a realização deste sonho. Todas estas ausências sem dúvidas mudaram o perfil do nosso grupo que, somando-se a outros amigos de outros núcleos poderiam totalizar um terço do ônibus. Para mim, pelo menos, ser um ilustre desconhecido da maioria foi até providencial.
Contudo a perda mais lamentável foi a ausência do meu companheiro de longas datas, Wladimir, que era talvez o único que, como eu, iria não para o Congresso, mas exclusivamente para o lazer – cultural ou não. Era uma manhã de quinta feira quando tudo começou...




* Parece-me que eles não têm opção. Não fazem arte, ela os faz.
** Todos os nomes foram substituídos por motivos literários.
*** As transcrições dos diálogos não serão literais. 

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