O almoço
foi uma verdadeira operação de guerra. Sob olhares desconfiados, o ônibus parou
e fomos em fila indiana. Para quem não sabe o que é isso, “fila indiana” é um
atrás do outro, sem sacanagem. E assim fomos, “encangados” e nos movendo a
passos rápidos até o respeitável estabelecimento gastronômico. Os dois
motoristas, que se revezaram na viagem, ficaram postados cada um num extremo do
lado de fora do ônibus. O detalhe é que – na ausência de um guia – eu, muito
prestativo para não dizer, dado, fiquei à porta, ajudando as mulheres do
veículo a descer. Esse era um dos hábitos paternais de quem viajava todos os
anos com manadas de adolescentes, cujos pais faziam zilhões de recomendações.
Depois
que entramos, um homem de terno, boa pinta e educado (exceção na cidade) passou
a chave na porta do restaurante. A comida foi cara e boa, apesar de minha
gastrite ter se manifestado após uma mínima dose de um – aparentemente
inofensivo – licor de cacau. E tornamos ao hotel, onde após uma longa espera
conseguimos a liberação dos quartos e enfim nossas carcaças puderam ver água.
Só as do banho, bojo e pia, porque para beber teríamos que passar pelos
escandalizantes preços do frigo-bar do hotel. Não dormimos porque a guia,
chamada “desguia”, posteriormente, programou um cithy tour para as 14 horas,
depois 14 e 30 e, por fim 16 horas, saindo pontualmente às 16 e 40 e deixando,
ainda, desavizados três membros do grupo
que foram de táxi.
O
cithy tour fora cancelado por orientação do guia local e nos dirigimos à
universidade federal para o credenciamento dos congressistas. A esta altura eu
me distanciava um pouco de Alana e Andréia e até mesmo de Eneida e Sílvia e ia
fazendo novos amigos. Principalmente, amigas. O campus parecia o estacionamento
de Woodstock, onde ônibus, barracas, pouca roupa, álcool e fumaça coabitavam
harmonicamente. Após algumas orientações equivocadas, nos dirigimos para o que
seria um centro de convivência. Como passamos por um descampado e a noite caía,
em meio a um clima generalizado de insegurança, aceleramos o passo. Esta tarefa
não era a das mais fáceis para a maioria das meninas do grupo, que estavam de
salto alto. Altíssimo em alguns casos. Uma delas, Neliane, despencou do alto
dos seus saltos trinta. Quinze de cada um. E torceu o pezinho. Alguém tentou
achar um posto médico e não o encontrando, sugeriu:
-
Precisamos de gelo.
-
Eu vou pegar. Fiquem aqui. Eu volto já. – Disse eu.
Queria marcar pontos. Me enturmar e segui em busca de gelo. Deparei-me com um
homem e uma credencial.
-
Você sabe onde tem um posto médico?
-
Ãh???
-
P-o-s-t-o
m-é-d-i-c-o?
-
Ãh???
Fui até outro
sujeito com uma credencial.
-
Onde é que eu posso encontrar um posto médico?
-
Aqui? – e fez cara de espanto.
-
Um bar, então? Eu preciso de gelo para uma compressa.
-
Por ali. – E me apontou uma trilhazinha escura. Fato é
que cheguei num bar. E me dirigi à indivídua do lado de dentro do balcão:
-
Você tem gelo?
-
Não. A máquina ligou agora e ainda não fez. – A máquina
deveria ter a mesma velocidade do seu sotaque baiano, que construía frases
intermináveis. Mas ela não só terminou, como prosseguiu:
-
Mas, ali tem. Eles ligaram desde cedo, ali tem. – E
apontou para outro bar improvisado. Agradeci e saí.
E me dirigi ao
menino do bar:
-
Preciso de gelo. Gelo e um saco. – Achei melhor frisar
que não levaria os cubos na mão devido a aparente lerdeza do sujeito. Estava
certo. O gelo foi fácil, mas o plástico... Até que eu sugeri que ele roubasse o
saco dos guardanapos. Mas, ele ainda não se deu por vencido e continuou a
procurar. Sob o olhar desconfiado de um grisalho que deveria ser o dono do
lugar. Até que, por fim, me deu o gelo no saco dos guardanapos mesmo. Este que o grisalho carrancudo lhe apontara.
Eu que olhava o sisudo apenas com o rabo de olho, agradeci ao menorzinho e
voltei para junto do grupo.
Cheguei com um
ar triunfante, mas ninguém entendeu e Neliane colocou a compressa no peito do
pé direito. Depois de um tempo, eu disse:
-
Mexa os dedos. Devagar. Pode confiar. Eu sou irmão de
fisioterapeuta. – Foi um argumento estúpido, mas o fato é que ela confiou.
Neliane era
assim, confiava. Era uma menina quase loira, de pele clara e sorriso farto.
Apesar de aparentemente desprotegida, sabia bem o que fazia. Apenas denotava
não ter se contagiado pelo dissimulado e competitivo mundo adulto, permanecendo
angelical.
No ônibus
soubemos que o show do Cidade Negra havia sido cancelado por motivos de
segurança. Ou da falta dela. O nosso destino, portanto, era voltar ao hotel. O
que gerou uma das primeiras polêmicas no grupo. Havia aqueles que achavam essas
preocupações excessivas, diziam que se estava fazendo tempestade em copo
d’água. É claro que essa era a ala menos sóbria do grupo. Fato é que passamos
no supermercado e tornamos ao Bahiamar Hotel.
Era
aniversário de Laura e eu, Alana, Andréia e as alunas nos reunimos no quarto de
uma delas para comer um bolo. Além de nós oito, convidamos Eneida e Sílvia e o
meu colega de quarto, o Luca. Depois dos parabéns, descemos para encontrar o
restante do grupo na piscina. Contudo, ninguém mais apareceu e seguimos o
impulso da Eneida que já havia ido dormir. Soubemos no dia seguinte que o
pessoal desceu mais tarde e ficou na beira da piscina até as duas e meia da
manhã. Para mim, no entanto, terminava primeira noite em Salvador e a única
música que ouvira fora um desafinado “parabéns pra você”, seguido de um
entusiástico “com quem será”.
Acho que é o
Peixe Côco, uma banda lá de Natal que canta: “As noites nem sempre são boas”. É
verdade. Mas, pelo menos, dormi na horizontal.
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