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quinta-feira, 25 de julho de 2013

Crônicas de Salvador - Domingo no Parque


            Acordei bem disposto, apesar de ter ficado até quase três da manhã assistindo Fox Kids e jogando conversa fora com Bodin e Almira, duas figuras inseparáveis, os últimos a permanecerem acordados no 113. “Bem disposto” significa: capaz de dizer bom dia antes das nove da manhã e de articular frases curtas, de até duas palavras. O que era muito, considerando-se o meu lendário mau humor matinal.
            Almira era um consenso. Uma pessoa dócil e equilibrada, apesar de ter personalidade e opinião. Fazendo parte dos que – como eu – tinham pele translúcida, possuía o cabelo cacheado e, salvo engano, aparelhos nos dentes. Mas, principalmente, era da paz, daquelas que dá vontade de deitar a cabeça no colo e de pedir cafuné.
            Francisco Bodin Jr., tão colado com Almira que pensei serem namorados é um espécime raro, digno de um capítulo só para ele. Ao invés disso, escreverei um livro só à respeito desse cara sereno e educadíssimo que era capaz dos maiores galanteios, como comprar um buquê de flores brancas e de distribuí-las entre as meninas do grupo – sendo chamado de tarado do ônibus, uma menção à sua juventude na linha 53 de nossa cidade - e de colocar uma outra flor ao mar para que esta fosse até a sua namorada em Natal. Ou de fazer quinze saques de dois reais para escapar ao imposto sobre as movimentações financeiras. Magro, ensacadinho, cabelo impecável, óculos e muita mansuetude constituíam a auréola inoscente e idealista deste estagiário do Banco do Brasil.
            Depois do café e de uma conversa com as alunas para saber se estava tudo bem e pedir que não alarmassem ainda mais os seus pais em Natal, após a turbulenta noite anterior, partimos numa caminhada pela praia objetivando mais fotos com Neliane, Ísis e outros. Retornando, fui apanhado pelo tio da Luana – a minha amiga de Salvador que estava buchuda e me separei do restante do grupo, durante todo o dia. Os que não apresentaram trabalhos foram a praia.
            Nesta manhã pude conhecer a periferia da cidade e convivendo com uma hospitaleira população nativa, quebrar parte das más impressões iniciais acerca do povo de Salvador. Além disso, matei a saudade da buchudinha em questão, que não via fazia alguns anos. Após comer uma bela feijoada, fomos: eu, Luana e alguns parentes a um catimbó que eles freqüentavam e que – na época em que namorávamos, em Natal – eu fazia planos de conhecer.
            Há muito tempo eu não “batia tambor” e não pretendia voltar a fazê-lo, apesar do óbvio respeito por toda e qualquer religião, como legítima forma de se buscar a Deus. Mas pelos motivos já mencionados e uma certa curiosidade histórica, subimos uma ladeira demarcada por casas muito humildes e finalmente, pude conhecer uma mãe de santo baiana que eu já admirava pelas histórias que a família contava a seu respeito. E sem julgar os meios, e sim a intenção, decerto aquela sacerdotisa de cabelos brancos e “negra da cor da noite”, parafraseando Castro Alves, iria para o céu. Como qualquer fiel ou sacerdote de outra religião que fizesse o bem gratuitamente. Quando chegarmos lá em “cima”, não vão nos perguntar: qual o nosso credo, mas qual a nossa carga de atos verdadeiramente caritativos. Foi ótima a curta visita.
            Na descida da ladeira, me ofereci para que Luana se apoiasse em mim. Mas a “larga”, ou deveria dizer “comprida”, na horizontal, ex-bailarina recusou, talvez se lembrando da época em que éramos namorados, ela fazia dança e eu teatro. Eu ficava intrigado como os magros dançarinos, pouco másculos, do seu grupo a seguravam e rodopiavam com ela pelo ar. Ela que, apesar de baixinha já não tinha uma silhueta propriamente de bailarina. Um dia, eu – namorado vaidoso – quis provar a minha agilidade, força e equilíbrio e propus que ela viesse correndo, de frente para mim, e se atirasse em meus braços, o que ela – sem opção – o fez. É claro que caímos os dois e eu machuquei o joelho esquerdo. Fisicamente isto pode ser explicado pela minha anatomia, cujos pés divergem, ao invés de caminhar paralelamente, me deixando vulnerável a uma queda frontal. Motivo pelo qual recebia ao longo de minha história, apelidos simpáticos como: “patinho”, “dez para as duas” ou “pé de rodo”.
            Descemos a ladeira e já no asfalto plano passamos por um largo canal de esgotos e ela me apontou aquilo, dizendo:
-          Olha a praia de Salvador.
Eu me virei para a esquerda com a parte superior do corpo, apenas, olhando para ela e a paisagem e retruquei:
-          Que legal. Devia ter trazido a máquina para fotografar a bela paisagem de Salvador.
Nisso, o meu pé direito que estava paralelo ao outro – misteriosamente – entrou em uma canaleta para escorrer a água da chuva e eu caí apoiado sobre o joelho esquerdo. O mesmo joelho esquerdo de seis anos antes. Realmente, a viagem para a Bahia foi marcante para mim!
 Passei a tarde conversando. Conversando e comendo. Torradas, pipocas e outras comidas de nome e gosto estranho e que faziam parte da culinária nativa. A família dela foi muito agradável, até mesmo o pai dela que outrora me amedrontava e me fazia greve de silêncio por dias a fio. O próprio “pai do seu filho” (definição da mesma) me tratou muito bem. Despedi-me de todos, já com saudades e retornei com outro tio ao hotel. Antes, porém, rodamos uma hora e meia de carro e pude conhecer um pouco da noite soteropolitana.
No hotel, o ônibus já estava com o motor ligado e esperava apenas alguns retardatários para partir para o que seria o nosso “debu” nas propaladas noites locais. Só tive tempo de falar com Alice e de dar-lhe dinheiro para que comprasse a minha senha para o Rock in Rio, situado no Aeroclube. Fui até o quarto, tomei um rápido banho e fui de táxi até o local.
O Aeroclube era como um shopping só que ao invés de muitas lojas, tinha muitíssimas praças de alimentação e casas de show, como o Rock in Rio, cujo símbolo na fachada, além do próprio nome, denotava ser uma franquia do megaevento ocorrido no Rio de Janeiro, a “cidade maravilhosa”.
Sou carioca.
Apesar de não estarmos em uma típica noite salvadorenha, aparentemente, todos se divertiram. O lugar era seguro. O ambiente da boite, amplo e bem transado. Gente bonita, nem que fosse só para ver. Música animada, apesar de uma das bandas ser uma banda de salsa.
Eu passei 26 anos para um dia acordar e resolver querer aprender a dançar forró. Desde o finalzinho do mês de junho havia dado umas treinadas e conseguira sair do nada para alguma coizinha. Agora já dançava mal, antes nem isso. Ainda tímido e inseguro neste aspecto só dançava se me convidassem, e Neliane me convidou.
Depois de uns dois ou três passos diferentes, ela constatou:
-          Você está dançando forró.
-          Sim. – sorrindo.
-          Mas está tocando salsa!
Fiquei no chão. Ela ainda tentou consertar, dizendo para eu dançar do jeito que quisesse, mas já era tarde. 
Porém, o que me deixou feliz naquela noite foi que as alunas realmente curtiram. Laura com seus seguranças, Samara, que finalmente desfizera a cara emburrada do dia inteiro, pelo dia anterior, Clarissa, que descolou com três e até as tímidas Denize e Marina que foram chamadas para dançar. Marina foi. No entanto, recuou quando o carinha quis “avançar o sinal”. Alana finalmente relaxou. E o cansaço era temperado por discretos sorrisos de satisfação.
Porém, nesta viagem, as surpresas nunca demoravam. “Cadê o ônibus?”, era a pergunta que todos se faziam. Alice já havia ido até o estacionamento com alguns excursionistas, mas não havia encontrado o veículo. Estaria ele no hotel? Foi o que eu questionei. Ela ligou e o veículo não estava por lá. Acorda, então, o motorista (o outro), para tentar localizar o bicho. Contudo, o telefone do quarto estava fora do gancho. Me ofereci para ir com ela, novamente, a área destinada ao estacionamento dos veículos de grande porte.
Novamente, não o encontramos. Porém, nessa caminhada pude conversar um pouco com Alice e descobrir a ótima pessoa que ela era. Sempre tentando agradar a todos, o que obviamente não era possível, mas que não era propriamente um defeito. A solução era pegar um táxi e tornar ao hotel para ir ao quarto do piloto de número dois. Ao invés disso, ela - já no táxi – “descobriu” o carro. E fomos até ele. Mas, como?
O carango (Como é difícil ficar encontrando sinônimos para não repetir a palavra ônibus) estava no meio do estacionamento, só que por trás de um outro veículo, e por isso não foi visto. Ela me contou isso em particular no caminho do dito cujo e eu aconselhei-a a dizer a verdade ao pessoal.
Todos estavam aparentemente realizados e com sono, e ninguém ligou, como diz a música:
“... Agora tanto faz / Estamos indo de volta pra casa .”


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