Se
tudo o mais falhasse, o café da manhã do hotel teria ganho o dia. Mas não foi
assim, o dia foi cheio de surpresas, algumas das quais muito boas. E isso sem
menosprezar o café. Que café! Depois dele, e de acompanhar sentado o povo que
saía em direção da universidade – era a lei dos congressos, encontros e
simpósios, quando você apresentava um trabalho, tinha que ir, no resto do tempo
podia conhecer as entranhas da cidade – voltei para o quarto, que era só meu e
de Luca. O terceiro elemento vinha de avião e só chegaria mais tarde. Luca foi
apresentar um trabalho e fiquei com a suíte só para mim. Então, depois do óbvio
reinado no “trono”, entreguei-me a um demorado banho quente. Banho quente em
meio ao racionamento de energia, que transgressão! E que banho! Dando uma
banana para a incompetência que gerou o fato, esqueci o medo do “apagão” e
relaxei. Muito. Tanto que despertei apenas alguns muitos minutos depois com a
campainha tocando.
Pensei:
“Deve ser alguém conhecido, quem sabe o Luca que esqueceu algo, ou alguma das
meninas”. E como estava com pressa, cobri com a toalha o que deu e abri a
porta.
-
Oi. Aqui é o 113? – Perguntou um homem visivelmente sem
jeito.
-
É.
-
É que... bem... eu....
Nisso saltou a
loira Sílvia sorridente do lado do sujeito e esclareceu:
-
Saraiva, este é o colega de quarto de vocês, o Renat. –
Ela parecia estar se divertindo com a cena e deu meia volta. Provavelmente para
contar logo às comparsa. As mulheres adoram fofocas. E os homens escrevem
livros.
Antes que ela
o fizesse, porém, retornei ao banheiro, terminei de me secar e vesti uma
bermuda. Quando saí, tentei descontrair o ambiente:
-
A tua cama é a do meio. Tem água naquele garrafão. Não
tome a do hotel porque é cara. O Luca foi apresentar o trabalho. Renato é o seu
nome, né?!
Não era. Era
Renat, mesmo, mas ele nem se importou, balançou a cabeça afirmativamente e
saiu. Antes porém, balbuciou algo como:
-
Vou ao quarto das meninas.
Quando eu
pensava na viagem, imaginava que ia ficar no quarto com Wlademir e Edison, os
professores amigos. Havíamos inclusive elaborado um código para ocupação
racional do quarto: toalha verde na porta, entre sem medo; toalha amarela,
entre com cuidado para não tropeçar em nada ou em ninguém; toalha vermelha, não
entre; toalha azul, não entre no quarto sozinho; toalha branca, chame um médico
ou um padre; toalha roxa, entre e tire a roupa.
Bom, o fato é
que por um motivo ou por outro, nenhum dos dois foi. E fiquei no quarto com
dois “estranhos”. O que foi muito bom, pelas pessoas ótimas que pude conhecer
mais de perto.
Renat tinha o
perfil de advogado bem suscedido: óculos com armação dourada e um bom relógio,
aspecto sério e compenetrado. E era metódico, extremamente metódico. O que foi
ótimo, porque eu também sou daqueles que coloca os chinelos paralelos antes de
dormir. Um pouco tímido, sabia expor suas opiniões e tinha / tem um bom
coração.
Já o Luca, seu
amigo de longa data, era a imagem da descontração. Sorriso constante e aspecto
“blazé”, segundo Alana: à primeira vista “Ninguém dava nada por ele”, mas o
fato é que apresentou com sucesso dois trabalhos na SBPC e era concluinte do
Curso de Direito da UFRN e, segundo as más línguas, um “Hacker” (Ana Flávia me
ajuda com essa palavra pelamordedeus!!!) de computador. Branco, de estatura
mediana e discretamente “sarado”, desfilava com a cueca na cabeça pelo quarto.
O que só descobri mais tarde. Pensei que fosse um chapéu. Era ele quem atendia
aos telefonemas, mesmo que estivesse no banho, e sempre de forma bem-humorada:
“Copa”, “Recepção”, “Pizzaria”, “Camarim do Saraiva”, “Trópicos Motel”, e por
aí vai.
Encontrei
as meninas um pouco mais tarde no quarto delas (Eneida e Sílvia), onde tiramos
algumas fotos e depois descemos para tomar café. Eu nada comi, só fiz
companhia. Menos por educação e mais por estar realmente impazinado. Depois
atravessamos a larga avenida e fomos caminhar no calçadão do Jardim de Alá,
onde pudemos vislumbrar uma maravilha da tecnologia soteropolitana, o W.C. de
última geração. Totalmente informatizado e a sua disposição por apenas
cinqüenta centavos. Para os mais afoitos, um aviso: “Só funciona com uma pessoa
de cada vez”. E eu me divertia imaginando o que aconteceria se dois ou mais
entrassem na diminuta caixa metálica. Um alarme ou sirene, cães, helicópteros,
a tropa de choque, cadeia nacional...
Após
o almoço, fomos para o mercado modelo e já no trajeto, pude conversar um pouco
com as simpaticíssimas concluintes, que haviam chegado de avião com Renat, a
dançante Iliana e a sofisticada Ísis. Iliana era muito alegre e serena, com
saltitantes cachinhos castanhos, tinha uma silhueta esguia. Branca como Ísis,
tinha um gosto musical muito parecido com o meu e comemoramos quando soubemos
que haveria show de Zeca Baleiro. Acabamos não indo e então dissemos: “Vamos em
Natal”. Também não fomos porque o show da terrinha ocorreu enquanto estávamos
em Salvador. “Salvador: propaganda enganosa” era esse o nome original deste
livro (?). Só não me decepcionei com as pessoas maravilhosas, como Ísis, a –
momentaneamente – ruiva com um jeitão de advogada mesmo. Educada e sensível,
foi a minha agradável companheira nas galerias do mercado modelo. Naquela tarde
em que, novamente falei em Fátima, que era a “falecida”, só que eu prometi a
Eneida que não vou mais me referir a ela assim. Ísis falou um pouco sobre o seu
atual namoro e compras que tinha feito, quando nos preparávamos para subir a pé
até o largo do pelourinho (cidade alta).
Enquanto
esperávamos o povo retornar – e sempre esperávamos demais! – éramos visitados,
ao lado do ônibus, por vendedores ambulantes e esmolés. Um em especial era
insistente e, principalmente porque era um homem adulto e saudável, eu me
acercava das meninas para oferecer-lhes alguma proteção. Se é que era possível.
Este sujeito era insistente e conseguiu algumas moedas com os meninos do grupo
e me fitou por alguns instantes, olhos nos olhos, de forma ameaçadora. Eu fui
firme, mas educado.
A
maneira como as pessoas te olham, em Salvador, é um caso à parte. As pessoas
mais humildes, constiuídas predominantemente por negros e mulatos, devido ao
processo histórico de ocupação, tem uma consciência tão grande do quanto os
negros e pobres sofreram e foram explorados que, ao invés de adotar a
equivocada postura subserviente de outras regiões, possuem – os negros pobres –
um ar de superioridade e arrogância peculiar. É como se ao olhar para um branco
amareláceo como eu, ele quizesse descarregar todo o seu ódio, como se quizesse
me culpar pelo que os meus possíveis antepassados fizeram aos seu prováveis
parentes.
Porém,
quando nos pusemos a subir, este mesmo esmolé mal encarado passou por nós em
sua bicicleta e profetizou, dirigindo-se a mim, em meio
à turistada:
à turistada:
-
Hei, você. Ô miserável! Você não quis me ajudar, mas eu
vou te dar um aviso. Não suba aí sem proteção não que tá muito perigoso. Lá em
cima o “bicho tá pegando”. – e saiu.
Dirigi-me
então a “guia”. Até porque Alana, alguns passos antes havia me dito para não
subirmos não, que ela tinha tido um mau pressentimento. Disse que seu coração
pedia para não subirmos e além disso, sua mãe havia tido um sonho ruim. Diante
do exposto, fui até Alice que, como sempre estava aberta ao diálogo, e resolveu
que subiríamos, então, de ônibus. É claro que a ala aventureira do grupo achou
exagero de minha parte. Esta facção xiita era constituída em sua maioria pelos
alunos dos primeiros períodos do Curso.
Após uma
rápida e turbulenta visita ao largo do pelourinho, retornamos ao hotel para os
preparativos para a “primeira noite” em Salvador. Alguém me perguntou o que era
“pelourinho”, acho que foi o João Carlos, eu fiquei meio na dúvida, mas aqui
vai: Segundo o Aurélio, pelourinho é “S. m. Coluna de pedra ou de madeira,
em praça pública ou lugar público, junto da qual se expunham e castigavam
criminosos”, no caso, os escravos.
A expectativa
pelo by night era imensa e até porque havíamos perdido o dia anterior, a
discussão no ônibus foi longa. Até porque era uma época atípica. Além disso,
dos milhares de ônibus que vimos na Universidade, apenas um outro, exatamente
de Natal, rodava em busca de um lugar. Pode parecer ridículo, mas foi ótimo
isso ter acontecido, porque meu a oportunidade de ter uma das mais excitantes,
agradáveis e fantásticas conversas da minha vida.
Já na saída do
hotel puxei assunto com Ana Flávia, a magrela de sorriso fácil e irônico, que
havia me intrigado já na ida para Salvador, dentre outras coisas, porque lia um
livro de letras miúdas com voracidade ímpar. Relatei-lhe o fato, entrando no
ônibus e nos sentamos lado a lado. A intrigante garotinha com porte de modelo
me esclareceu:
-
É Dostoievsky. – com um tom coloquial.
Certamente
fiquei chocado, porque Dostoiévski é um autor que nunca tive coragem de ler,
devido a sua genial complexidade. Um amigo me presenteou com um livro do autor,
mas eu nunca o abri. E o guardei tão bem guardado que mesmo agora quando fui a
minha impecável estante para ver como é que se escrevia o nome do sujeito, não
encontrei o livro. E olha que as minhas quatro prateleiras tem etiquetas.
A conversa foi
ótima. Ela falava dos livros que leu e eu dos que ouvira falar, já que meu pai
fora vendedor e lá em casa havia muitos livros e catálogos. Falamos sobre
filosofia e quando estávamos na Dialética Aristotélica, o ônibus chegou a
Estação da Cerveja. Durante a viagem tivemos muitas outras conversas, onde falamos
sobre educação , família, o namorado que ela diz amar de paixão e a minha ex,
mas nada comparado aquele momento em que ela falou de forma tão apaixonada pela
literatura que eu me senti envergonhado de ler tão pouco.
De Aristóteles
voltamos ao mundo concreto, dito real e entramos na Estação que me lembrou
muito uma casa de reputação duvidosa que existia em Natal. Após cinco ou dez
minutos no lugar, de eu ter encontrado uma amiga e começado a balançar o
esqueleto, uma garrafa irrompeu pelo ar e aí foram só os gritos.
Uma briga
tinha início. Foi tudo muito rápido e eu só tive tem pó de botar as meninas, as
alunas atrás de mim. Alana se refugiara no banheiro. Um segurança, o maior
negão do mundo, de terno e gravata arrastava dois dos litigantes que não ousavam
reagir. Outros seguranças – no máximo dois ou três- sem a mesma classe e o
mesmo porte do negão, tentavam conter frenéticos homens sem camisa. Marina, a
evangélica com cara de bebê gritava:
-
É o inferno! É o inferno! – e chorava de forma
estridente.
Voltamos ao
hotel onde realizamos uma festinha no 113. Nós, da escola, e uns poucos alunos
de Direito. Assim terminava a nossa segunda e inesquecível noite em Salvador.
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