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sábado, 20 de julho de 2013

Crônicas de Salvador - Sábado em Salvador


            Se tudo o mais falhasse, o café da manhã do hotel teria ganho o dia. Mas não foi assim, o dia foi cheio de surpresas, algumas das quais muito boas. E isso sem menosprezar o café. Que café! Depois dele, e de acompanhar sentado o povo que saía em direção da universidade – era a lei dos congressos, encontros e simpósios, quando você apresentava um trabalho, tinha que ir, no resto do tempo podia conhecer as entranhas da cidade – voltei para o quarto, que era só meu e de Luca. O terceiro elemento vinha de avião e só chegaria mais tarde. Luca foi apresentar um trabalho e fiquei com a suíte só para mim. Então, depois do óbvio reinado no “trono”, entreguei-me a um demorado banho quente. Banho quente em meio ao racionamento de energia, que transgressão! E que banho! Dando uma banana para a incompetência que gerou o fato, esqueci o medo do “apagão” e relaxei. Muito. Tanto que despertei apenas alguns muitos minutos depois com a campainha tocando.
            Pensei: “Deve ser alguém conhecido, quem sabe o Luca que esqueceu algo, ou alguma das meninas”. E como estava com pressa, cobri com a toalha o que deu e abri a porta.
-          Oi. Aqui é o 113? – Perguntou um homem visivelmente sem jeito.
-          É.
-          É que... bem... eu....
Nisso saltou a loira Sílvia sorridente do lado do sujeito e esclareceu:
-          Saraiva, este é o colega de quarto de vocês, o Renat. – Ela parecia estar se divertindo com a cena e deu meia volta. Provavelmente para contar logo às comparsa. As mulheres adoram fofocas. E os homens escrevem livros.
Antes que ela o fizesse, porém, retornei ao banheiro, terminei de me secar e vesti uma bermuda. Quando saí, tentei descontrair o ambiente:
-          A tua cama é a do meio. Tem água naquele garrafão. Não tome a do hotel porque é cara. O Luca foi apresentar o trabalho. Renato é o seu nome, né?!
Não era. Era Renat, mesmo, mas ele nem se importou, balançou a cabeça afirmativamente e saiu. Antes porém, balbuciou algo como:
-          Vou ao quarto das meninas.
Quando eu pensava na viagem, imaginava que ia ficar no quarto com Wlademir e Edison, os professores amigos. Havíamos inclusive elaborado um código para ocupação racional do quarto: toalha verde na porta, entre sem medo; toalha amarela, entre com cuidado para não tropeçar em nada ou em ninguém; toalha vermelha, não entre; toalha azul, não entre no quarto sozinho; toalha branca, chame um médico ou um padre; toalha roxa, entre e tire a roupa.
Bom, o fato é que por um motivo ou por outro, nenhum dos dois foi. E fiquei no quarto com dois “estranhos”. O que foi muito bom, pelas pessoas ótimas que pude conhecer mais de perto.
Renat tinha o perfil de advogado bem suscedido: óculos com armação dourada e um bom relógio, aspecto sério e compenetrado. E era metódico, extremamente metódico. O que foi ótimo, porque eu também sou daqueles que coloca os chinelos paralelos antes de dormir. Um pouco tímido, sabia expor suas opiniões e tinha / tem um bom coração.
Já o Luca, seu amigo de longa data, era a imagem da descontração. Sorriso constante e aspecto “blazé”, segundo Alana: à primeira vista “Ninguém dava nada por ele”, mas o fato é que apresentou com sucesso dois trabalhos na SBPC e era concluinte do Curso de Direito da UFRN e, segundo as más línguas, um “Hacker” (Ana Flávia me ajuda com essa palavra pelamordedeus!!!) de computador. Branco, de estatura mediana e discretamente “sarado”, desfilava com a cueca na cabeça pelo quarto. O que só descobri mais tarde. Pensei que fosse um chapéu. Era ele quem atendia aos telefonemas, mesmo que estivesse no banho, e sempre de forma bem-humorada: “Copa”, “Recepção”, “Pizzaria”, “Camarim do Saraiva”, “Trópicos Motel”, e por aí vai.
            Encontrei as meninas um pouco mais tarde no quarto delas (Eneida e Sílvia), onde tiramos algumas fotos e depois descemos para tomar café. Eu nada comi, só fiz companhia. Menos por educação e mais por estar realmente impazinado. Depois atravessamos a larga avenida e fomos caminhar no calçadão do Jardim de Alá, onde pudemos vislumbrar uma maravilha da tecnologia soteropolitana, o W.C. de última geração. Totalmente informatizado e a sua disposição por apenas cinqüenta centavos. Para os mais afoitos, um aviso: “Só funciona com uma pessoa de cada vez”. E eu me divertia imaginando o que aconteceria se dois ou mais entrassem na diminuta caixa metálica. Um alarme ou sirene, cães, helicópteros, a tropa de choque, cadeia nacional...
            Após o almoço, fomos para o mercado modelo e já no trajeto, pude conversar um pouco com as simpaticíssimas concluintes, que haviam chegado de avião com Renat, a dançante Iliana e a sofisticada Ísis. Iliana era muito alegre e serena, com saltitantes cachinhos castanhos, tinha uma silhueta esguia. Branca como Ísis, tinha um gosto musical muito parecido com o meu e comemoramos quando soubemos que haveria show de Zeca Baleiro. Acabamos não indo e então dissemos: “Vamos em Natal”. Também não fomos porque o show da terrinha ocorreu enquanto estávamos em Salvador. “Salvador: propaganda enganosa” era esse o nome original deste livro (?). Só não me decepcionei com as pessoas maravilhosas, como Ísis, a – momentaneamente – ruiva com um jeitão de advogada mesmo. Educada e sensível, foi a minha agradável companheira nas galerias do mercado modelo. Naquela tarde em que, novamente falei em Fátima, que era a “falecida”, só que eu prometi a Eneida que não vou mais me referir a ela assim. Ísis falou um pouco sobre o seu atual namoro e compras que tinha feito, quando nos preparávamos para subir a pé até o largo do pelourinho (cidade alta).
            Enquanto esperávamos o povo retornar – e sempre esperávamos demais! – éramos visitados, ao lado do ônibus, por vendedores ambulantes e esmolés. Um em especial era insistente e, principalmente porque era um homem adulto e saudável, eu me acercava das meninas para oferecer-lhes alguma proteção. Se é que era possível. Este sujeito era insistente e conseguiu algumas moedas com os meninos do grupo e me fitou por alguns instantes, olhos nos olhos, de forma ameaçadora. Eu fui firme, mas educado.
            A maneira como as pessoas te olham, em Salvador, é um caso à parte. As pessoas mais humildes, constiuídas predominantemente por negros e mulatos, devido ao processo histórico de ocupação, tem uma consciência tão grande do quanto os negros e pobres sofreram e foram explorados que, ao invés de adotar a equivocada postura subserviente de outras regiões, possuem – os negros pobres – um ar de superioridade e arrogância peculiar. É como se ao olhar para um branco amareláceo como eu, ele quizesse descarregar todo o seu ódio, como se quizesse me culpar pelo que os meus possíveis antepassados fizeram aos seu prováveis parentes.
            Porém, quando nos pusemos a subir, este mesmo esmolé mal encarado passou por nós em sua bicicleta e profetizou, dirigindo-se a mim, em meio
à turistada:
-          Hei, você. Ô miserável! Você não quis me ajudar, mas eu vou te dar um aviso. Não suba aí sem proteção não que tá muito perigoso. Lá em cima o “bicho tá pegando”. – e saiu.
Dirigi-me então a “guia”. Até porque Alana, alguns passos antes havia me dito para não subirmos não, que ela tinha tido um mau pressentimento. Disse que seu coração pedia para não subirmos e além disso, sua mãe havia tido um sonho ruim. Diante do exposto, fui até Alice que, como sempre estava aberta ao diálogo, e resolveu que subiríamos, então, de ônibus. É claro que a ala aventureira do grupo achou exagero de minha parte. Esta facção xiita era constituída em sua maioria pelos alunos dos primeiros períodos do Curso.
Após uma rápida e turbulenta visita ao largo do pelourinho, retornamos ao hotel para os preparativos para a “primeira noite” em Salvador. Alguém me perguntou o que era “pelourinho”, acho que foi o João Carlos, eu fiquei meio na dúvida, mas aqui vai: Segundo o Aurélio, pelourinho é “S. m. Coluna de pedra ou de madeira, em praça pública ou lugar público, junto da qual se expunham e castigavam criminosos”, no caso, os escravos.
A expectativa pelo by night era imensa e até porque havíamos perdido o dia anterior, a discussão no ônibus foi longa. Até porque era uma época atípica. Além disso, dos milhares de ônibus que vimos na Universidade, apenas um outro, exatamente de Natal, rodava em busca de um lugar. Pode parecer ridículo, mas foi ótimo isso ter acontecido, porque meu a oportunidade de ter uma das mais excitantes, agradáveis e fantásticas conversas da minha vida.
Já na saída do hotel puxei assunto com Ana Flávia, a magrela de sorriso fácil e irônico, que havia me intrigado já na ida para Salvador, dentre outras coisas, porque lia um livro de letras miúdas com voracidade ímpar. Relatei-lhe o fato, entrando no ônibus e nos sentamos lado a lado. A intrigante garotinha com porte de modelo me esclareceu:
-          É Dostoievsky. – com um tom coloquial.
Certamente fiquei chocado, porque Dostoiévski é um autor que nunca tive coragem de ler, devido a sua genial complexidade. Um amigo me presenteou com um livro do autor, mas eu nunca o abri. E o guardei tão bem guardado que mesmo agora quando fui a minha impecável estante para ver como é que se escrevia o nome do sujeito, não encontrei o livro. E olha que as minhas quatro prateleiras tem etiquetas.
A conversa foi ótima. Ela falava dos livros que leu e eu dos que ouvira falar, já que meu pai fora vendedor e lá em casa havia muitos livros e catálogos. Falamos sobre filosofia e quando estávamos na Dialética Aristotélica, o ônibus chegou a Estação da Cerveja. Durante a viagem tivemos muitas outras conversas, onde falamos sobre educação , família, o namorado que ela diz amar de paixão e a minha ex, mas nada comparado aquele momento em que ela falou de forma tão apaixonada pela literatura que eu me senti envergonhado de ler tão pouco.
De Aristóteles voltamos ao mundo concreto, dito real e entramos na Estação que me lembrou muito uma casa de reputação duvidosa que existia em Natal. Após cinco ou dez minutos no lugar, de eu ter encontrado uma amiga e começado a balançar o esqueleto, uma garrafa irrompeu pelo ar e aí foram só os gritos.
Uma briga tinha início. Foi tudo muito rápido e eu só tive tem pó de botar as meninas, as alunas atrás de mim. Alana se refugiara no banheiro. Um segurança, o maior negão do mundo, de terno e gravata arrastava dois dos litigantes que não ousavam reagir. Outros seguranças – no máximo dois ou três- sem a mesma classe e o mesmo porte do negão, tentavam conter frenéticos homens sem camisa. Marina, a evangélica com cara de bebê gritava:
-          É o inferno! É o inferno! – e chorava de forma estridente.

Voltamos ao hotel onde realizamos uma festinha no 113. Nós, da escola, e uns poucos alunos de Direito. Assim terminava a nossa segunda e inesquecível noite em Salvador.

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