Os índios talvez por se encontrarem longe dos
micro-ondas e das churrasqueiras elétricas dedicaram-se a observar os sinais de
fumaça, mais das grandes fogueiras (de uma entidade equivalente a São João) do
que dos cachimbos que recheiam com as mais variadas ervas e que por isso são
chamados “da paz”. O “amor” só veio na década de 1960, oficialmente. Fato é que
eu, nada a ver com índio, comecei a decifrar os sinais de fumaça e a perceber
que a excursão para Salvador seria, no mínimo, atípica, incomum, bizarra e até
bizonha. O primeiro sinal da manhã de quinta-feira, 12 de Julho de 2001, foi
uma ligação de Izabel, irmã de Wlademir, pedindo-me para cancelar o dentista do
mesmo, pois o caçula de 26 anos havia sido levado às pressas naquela madrugada
para o hospital com mais uma crise renal.
A primeira
coisa que me passou pela cabeça e, provavelmente pela dele, também, foi que a
viagem estava marcada para as quinze horas, mais conhecidas como: as 3 da
tarde. Fica até difícil descrever a importância por nós atribuída a esta
viagem, no entanto, basta dizer que seria uma grande oportunidade de avaliarmos
e re-avaliarmos nossas vidas pessoais e profissionais.
O meu primeiro
impulso foi o de ir ao hospital, mas uma ligação da outra irmã de Wlademir, que
estava com ele no local me tranqüilizou. Ele estava medicado e seria
encaminhado a um nefrologista só para viajar sossegado. Respirei aliviado,
ainda mais que tinha outros afazeres, os últimos preparativos para a viagem.
Esta que era uma viagem muito mais interna do que propriamente material. Pois
só assim, longe do “meu mundo”, da concretude, do cotidiano, dos
lugares-comuns, pairando acima das coisas, eu poderia ver a minha vida e ver-me
com isenção. Tentar retomar o irretomável namoro? Iniciar a sacrificiosa
pós-graduação? Retomar o trabalho com teatro? Prosseguir nas pinturas? Trocar o
carro? O que fazer para o segundo semestre letivo de 2001? Eis um pouco do que
me assaltava a mente.
Certamente
todos os mais de quarenta inscritos para a excursão tinham os seus objetivos e
expectativas, embora muitos nem os tenham teorizado. Porém, ao menos um dentre
estes não os realizaria: Wlademir, qual um atleta vetado pelo departamento
médico, quem sabe para uma copa do mundo. Era assim que meu pai mensurava
coisas importantes, como uma “copa do mundo”.
Assim, após
uma despedida emocionada ao telefone cheguei, antecipadamente frustrado a
Agência, onde encontrei a professora Andréia, querida amiga cuja figura se
impunha, seja pelos olhos serenos e o sorriso constante, porém discreto, seja
pelo porte de jogadora de vôlei. Contei-lhe o acontecido, ao que externou
tristeza, mas as surpresas estavam apenas começando.
Então éramos
oito: Alana e Andréia, nas antepenúltimas cadeiras do lado direito, seguidas
pelas alunas concluintes: Samara, mais conhecida como “bombinha” devido aos
anabolizados braços de Popeye e Laura, o terror dos homens fardados. Ao lado de
Alana, eu, na janela, e Denize, a boa menina, no corredor. Atrás de nós, Marina
– a bochechuda, com cara de bebê – e Clarissa, jocosamente chamada de “Miss
Mamanguape”, já que era paraibana. Éramos ilha, em meio a um oceano de
estudantes de Direito.
É preciso
esclarecer que, pelo menos para mim, ser estudante de Direito não era
propriamente um elogio. Ao contrário: significava ser riquinho, mauricinho,
patricinho, inelectualzinho e pombão. Vale salientar que os adjetivos se
aplicavam também ao gênero feminino e que eu odeio diminutivos e isso reforça
ainda mais os meus preconceitos para com alguém que a norma culta julgaria:
endinheirado, vestido de forma ostentatória, ligado em futilidades,
pseudo-sábio e arrogante. Felizmente, alguns dos meus muitos preconceitos se
perderam nessa jornada.
Porém até a
noite me limitei a oferecer e agradecer ao oferecimento de biscoitos e a
brincar com as meninas, as minhas sete “filhas” iniciais. Lá pelas tantas,
quando o videokê rolava, embalsamei-me no lendário “manto sagrado” e permaneci
sepultado até o amanhecer. Antes disso porém, li algumas páginas de um livro e
fiz considerações de gosto duvidoso sobre a homossexualidade de duas estudantes
de Direito do último período, que na última fila se amontoavam para fofocar, e
fugi das goteiras que tomavam o ônibus. Escoradas por sacos plásticos, as
goteiras formavam verdadeiros aquários, onde cadáveres de moscas jaziam.
Eneida e
Sílvia eram muito amigas, de longo tempo e até por uma questão geográfica,
foram as primeiras pessoas com as quais fizemos contato. Eneida era um belo
exemplar de morena, um pouco mais reservada do que Sílvia, porém muito
simpática, à primeira, segunda e terceira vista. Soubemos depois que fora
colega de colégio da filha de um dos donos da escola em que trabalhávamos e era
sua vizinha. A loira Sílvia, eu acho que não foi muito com a minha cara, pelo
menos a princípio – coincidentemente, o mesmo período das brincadeirinhas sobre
a relação das duas – porém mostrou uma alegria contagiante e muita camaradagem,
sendo fundamental no processo de integração das alunas ao grupo. Ao menos à
banda sociável do comboio.
Nos últimos
onze anos havia feito pelo menos quinze viagens com o famoso “manto sagrado”,
uma colcha velha, rota e esburacada que era o meu amuleto e me protegia de
pastas de dente e do frio, mas não das goteiras como posteriormente ficaria
comprovado. Acostumado a longas viagens de ônibus, dormi sossegado.
O amanhecer do
dia nos trouxe surpresas, porque todas as notícias sobre a greve dos policiais
civis e militares e dos seguranças particulares de Salvador não nos preparou
para aquele quadro dantesco. “Quadro dantesco!”, que lugar comum!!! Deve se
arrepiar Ana Flávia, outra personagem dessa jornada que ainda não apareceu e
que na hipótese delirante de isso ser publicado escreveria o prefácio.
Mas, voltemos
ao quadro mórbido e inquietante: bancos, shoppings e hospitais fechados com
medo dos saques, ruas desertas, olhares assustados, ônibus que não circulam e
nenhum sinal dos batuques e da alegria peculiar aos “bahianos”. No ônibus, os
comentários. Nos semáforos, os avisos de prestimosos motoristas. Eu procurava
comentar baixo com Alana e Andréia para não alarmar as alunas. Mas, Alana, sob
o peso de enorme responsabilidade olhava como um bichinho assustado.
Chegamos no
hotel para descarregar as malas e já as empilhávamos sobre a calçada, quando
fomos informados que o hotel só estaria liberado daí a algumas horas.
Pusemo-nos, então a recolocar as malas para o ônibus, sob protestos e caras
emburradas. Essa foi uma das primeiras manifestações da falta de cacoete da
“guia”, que apesar de flexível (Até demais.) e tranqüila, falhava no critério
organização. Dando o desconto do “estado de sítio”, é claro. Pudemos, depois,
perceber que Alice, apesar das falhas era uma ótima pessoa. Afinal, manter-se
educada e serena em meio ao apocalipse era tarefa dificílima, sobre tudo em
meio a pessoas evidentemente cientes dos seus direitos. E de alguns chatos e
reclamões de marca maior como eu.
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