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quinta-feira, 25 de julho de 2013

Crônicas de Salvador - Domingo no Parque


            Acordei bem disposto, apesar de ter ficado até quase três da manhã assistindo Fox Kids e jogando conversa fora com Bodin e Almira, duas figuras inseparáveis, os últimos a permanecerem acordados no 113. “Bem disposto” significa: capaz de dizer bom dia antes das nove da manhã e de articular frases curtas, de até duas palavras. O que era muito, considerando-se o meu lendário mau humor matinal.
            Almira era um consenso. Uma pessoa dócil e equilibrada, apesar de ter personalidade e opinião. Fazendo parte dos que – como eu – tinham pele translúcida, possuía o cabelo cacheado e, salvo engano, aparelhos nos dentes. Mas, principalmente, era da paz, daquelas que dá vontade de deitar a cabeça no colo e de pedir cafuné.
            Francisco Bodin Jr., tão colado com Almira que pensei serem namorados é um espécime raro, digno de um capítulo só para ele. Ao invés disso, escreverei um livro só à respeito desse cara sereno e educadíssimo que era capaz dos maiores galanteios, como comprar um buquê de flores brancas e de distribuí-las entre as meninas do grupo – sendo chamado de tarado do ônibus, uma menção à sua juventude na linha 53 de nossa cidade - e de colocar uma outra flor ao mar para que esta fosse até a sua namorada em Natal. Ou de fazer quinze saques de dois reais para escapar ao imposto sobre as movimentações financeiras. Magro, ensacadinho, cabelo impecável, óculos e muita mansuetude constituíam a auréola inoscente e idealista deste estagiário do Banco do Brasil.
            Depois do café e de uma conversa com as alunas para saber se estava tudo bem e pedir que não alarmassem ainda mais os seus pais em Natal, após a turbulenta noite anterior, partimos numa caminhada pela praia objetivando mais fotos com Neliane, Ísis e outros. Retornando, fui apanhado pelo tio da Luana – a minha amiga de Salvador que estava buchuda e me separei do restante do grupo, durante todo o dia. Os que não apresentaram trabalhos foram a praia.
            Nesta manhã pude conhecer a periferia da cidade e convivendo com uma hospitaleira população nativa, quebrar parte das más impressões iniciais acerca do povo de Salvador. Além disso, matei a saudade da buchudinha em questão, que não via fazia alguns anos. Após comer uma bela feijoada, fomos: eu, Luana e alguns parentes a um catimbó que eles freqüentavam e que – na época em que namorávamos, em Natal – eu fazia planos de conhecer.
            Há muito tempo eu não “batia tambor” e não pretendia voltar a fazê-lo, apesar do óbvio respeito por toda e qualquer religião, como legítima forma de se buscar a Deus. Mas pelos motivos já mencionados e uma certa curiosidade histórica, subimos uma ladeira demarcada por casas muito humildes e finalmente, pude conhecer uma mãe de santo baiana que eu já admirava pelas histórias que a família contava a seu respeito. E sem julgar os meios, e sim a intenção, decerto aquela sacerdotisa de cabelos brancos e “negra da cor da noite”, parafraseando Castro Alves, iria para o céu. Como qualquer fiel ou sacerdote de outra religião que fizesse o bem gratuitamente. Quando chegarmos lá em “cima”, não vão nos perguntar: qual o nosso credo, mas qual a nossa carga de atos verdadeiramente caritativos. Foi ótima a curta visita.
            Na descida da ladeira, me ofereci para que Luana se apoiasse em mim. Mas a “larga”, ou deveria dizer “comprida”, na horizontal, ex-bailarina recusou, talvez se lembrando da época em que éramos namorados, ela fazia dança e eu teatro. Eu ficava intrigado como os magros dançarinos, pouco másculos, do seu grupo a seguravam e rodopiavam com ela pelo ar. Ela que, apesar de baixinha já não tinha uma silhueta propriamente de bailarina. Um dia, eu – namorado vaidoso – quis provar a minha agilidade, força e equilíbrio e propus que ela viesse correndo, de frente para mim, e se atirasse em meus braços, o que ela – sem opção – o fez. É claro que caímos os dois e eu machuquei o joelho esquerdo. Fisicamente isto pode ser explicado pela minha anatomia, cujos pés divergem, ao invés de caminhar paralelamente, me deixando vulnerável a uma queda frontal. Motivo pelo qual recebia ao longo de minha história, apelidos simpáticos como: “patinho”, “dez para as duas” ou “pé de rodo”.
            Descemos a ladeira e já no asfalto plano passamos por um largo canal de esgotos e ela me apontou aquilo, dizendo:
-          Olha a praia de Salvador.
Eu me virei para a esquerda com a parte superior do corpo, apenas, olhando para ela e a paisagem e retruquei:
-          Que legal. Devia ter trazido a máquina para fotografar a bela paisagem de Salvador.
Nisso, o meu pé direito que estava paralelo ao outro – misteriosamente – entrou em uma canaleta para escorrer a água da chuva e eu caí apoiado sobre o joelho esquerdo. O mesmo joelho esquerdo de seis anos antes. Realmente, a viagem para a Bahia foi marcante para mim!
 Passei a tarde conversando. Conversando e comendo. Torradas, pipocas e outras comidas de nome e gosto estranho e que faziam parte da culinária nativa. A família dela foi muito agradável, até mesmo o pai dela que outrora me amedrontava e me fazia greve de silêncio por dias a fio. O próprio “pai do seu filho” (definição da mesma) me tratou muito bem. Despedi-me de todos, já com saudades e retornei com outro tio ao hotel. Antes, porém, rodamos uma hora e meia de carro e pude conhecer um pouco da noite soteropolitana.
No hotel, o ônibus já estava com o motor ligado e esperava apenas alguns retardatários para partir para o que seria o nosso “debu” nas propaladas noites locais. Só tive tempo de falar com Alice e de dar-lhe dinheiro para que comprasse a minha senha para o Rock in Rio, situado no Aeroclube. Fui até o quarto, tomei um rápido banho e fui de táxi até o local.
O Aeroclube era como um shopping só que ao invés de muitas lojas, tinha muitíssimas praças de alimentação e casas de show, como o Rock in Rio, cujo símbolo na fachada, além do próprio nome, denotava ser uma franquia do megaevento ocorrido no Rio de Janeiro, a “cidade maravilhosa”.
Sou carioca.
Apesar de não estarmos em uma típica noite salvadorenha, aparentemente, todos se divertiram. O lugar era seguro. O ambiente da boite, amplo e bem transado. Gente bonita, nem que fosse só para ver. Música animada, apesar de uma das bandas ser uma banda de salsa.
Eu passei 26 anos para um dia acordar e resolver querer aprender a dançar forró. Desde o finalzinho do mês de junho havia dado umas treinadas e conseguira sair do nada para alguma coizinha. Agora já dançava mal, antes nem isso. Ainda tímido e inseguro neste aspecto só dançava se me convidassem, e Neliane me convidou.
Depois de uns dois ou três passos diferentes, ela constatou:
-          Você está dançando forró.
-          Sim. – sorrindo.
-          Mas está tocando salsa!
Fiquei no chão. Ela ainda tentou consertar, dizendo para eu dançar do jeito que quisesse, mas já era tarde. 
Porém, o que me deixou feliz naquela noite foi que as alunas realmente curtiram. Laura com seus seguranças, Samara, que finalmente desfizera a cara emburrada do dia inteiro, pelo dia anterior, Clarissa, que descolou com três e até as tímidas Denize e Marina que foram chamadas para dançar. Marina foi. No entanto, recuou quando o carinha quis “avançar o sinal”. Alana finalmente relaxou. E o cansaço era temperado por discretos sorrisos de satisfação.
Porém, nesta viagem, as surpresas nunca demoravam. “Cadê o ônibus?”, era a pergunta que todos se faziam. Alice já havia ido até o estacionamento com alguns excursionistas, mas não havia encontrado o veículo. Estaria ele no hotel? Foi o que eu questionei. Ela ligou e o veículo não estava por lá. Acorda, então, o motorista (o outro), para tentar localizar o bicho. Contudo, o telefone do quarto estava fora do gancho. Me ofereci para ir com ela, novamente, a área destinada ao estacionamento dos veículos de grande porte.
Novamente, não o encontramos. Porém, nessa caminhada pude conversar um pouco com Alice e descobrir a ótima pessoa que ela era. Sempre tentando agradar a todos, o que obviamente não era possível, mas que não era propriamente um defeito. A solução era pegar um táxi e tornar ao hotel para ir ao quarto do piloto de número dois. Ao invés disso, ela - já no táxi – “descobriu” o carro. E fomos até ele. Mas, como?
O carango (Como é difícil ficar encontrando sinônimos para não repetir a palavra ônibus) estava no meio do estacionamento, só que por trás de um outro veículo, e por isso não foi visto. Ela me contou isso em particular no caminho do dito cujo e eu aconselhei-a a dizer a verdade ao pessoal.
Todos estavam aparentemente realizados e com sono, e ninguém ligou, como diz a música:
“... Agora tanto faz / Estamos indo de volta pra casa .”


sábado, 20 de julho de 2013

Crônicas de Salvador - Sábado em Salvador


            Se tudo o mais falhasse, o café da manhã do hotel teria ganho o dia. Mas não foi assim, o dia foi cheio de surpresas, algumas das quais muito boas. E isso sem menosprezar o café. Que café! Depois dele, e de acompanhar sentado o povo que saía em direção da universidade – era a lei dos congressos, encontros e simpósios, quando você apresentava um trabalho, tinha que ir, no resto do tempo podia conhecer as entranhas da cidade – voltei para o quarto, que era só meu e de Luca. O terceiro elemento vinha de avião e só chegaria mais tarde. Luca foi apresentar um trabalho e fiquei com a suíte só para mim. Então, depois do óbvio reinado no “trono”, entreguei-me a um demorado banho quente. Banho quente em meio ao racionamento de energia, que transgressão! E que banho! Dando uma banana para a incompetência que gerou o fato, esqueci o medo do “apagão” e relaxei. Muito. Tanto que despertei apenas alguns muitos minutos depois com a campainha tocando.
            Pensei: “Deve ser alguém conhecido, quem sabe o Luca que esqueceu algo, ou alguma das meninas”. E como estava com pressa, cobri com a toalha o que deu e abri a porta.
-          Oi. Aqui é o 113? – Perguntou um homem visivelmente sem jeito.
-          É.
-          É que... bem... eu....
Nisso saltou a loira Sílvia sorridente do lado do sujeito e esclareceu:
-          Saraiva, este é o colega de quarto de vocês, o Renat. – Ela parecia estar se divertindo com a cena e deu meia volta. Provavelmente para contar logo às comparsa. As mulheres adoram fofocas. E os homens escrevem livros.
Antes que ela o fizesse, porém, retornei ao banheiro, terminei de me secar e vesti uma bermuda. Quando saí, tentei descontrair o ambiente:
-          A tua cama é a do meio. Tem água naquele garrafão. Não tome a do hotel porque é cara. O Luca foi apresentar o trabalho. Renato é o seu nome, né?!
Não era. Era Renat, mesmo, mas ele nem se importou, balançou a cabeça afirmativamente e saiu. Antes porém, balbuciou algo como:
-          Vou ao quarto das meninas.
Quando eu pensava na viagem, imaginava que ia ficar no quarto com Wlademir e Edison, os professores amigos. Havíamos inclusive elaborado um código para ocupação racional do quarto: toalha verde na porta, entre sem medo; toalha amarela, entre com cuidado para não tropeçar em nada ou em ninguém; toalha vermelha, não entre; toalha azul, não entre no quarto sozinho; toalha branca, chame um médico ou um padre; toalha roxa, entre e tire a roupa.
Bom, o fato é que por um motivo ou por outro, nenhum dos dois foi. E fiquei no quarto com dois “estranhos”. O que foi muito bom, pelas pessoas ótimas que pude conhecer mais de perto.
Renat tinha o perfil de advogado bem suscedido: óculos com armação dourada e um bom relógio, aspecto sério e compenetrado. E era metódico, extremamente metódico. O que foi ótimo, porque eu também sou daqueles que coloca os chinelos paralelos antes de dormir. Um pouco tímido, sabia expor suas opiniões e tinha / tem um bom coração.
Já o Luca, seu amigo de longa data, era a imagem da descontração. Sorriso constante e aspecto “blazé”, segundo Alana: à primeira vista “Ninguém dava nada por ele”, mas o fato é que apresentou com sucesso dois trabalhos na SBPC e era concluinte do Curso de Direito da UFRN e, segundo as más línguas, um “Hacker” (Ana Flávia me ajuda com essa palavra pelamordedeus!!!) de computador. Branco, de estatura mediana e discretamente “sarado”, desfilava com a cueca na cabeça pelo quarto. O que só descobri mais tarde. Pensei que fosse um chapéu. Era ele quem atendia aos telefonemas, mesmo que estivesse no banho, e sempre de forma bem-humorada: “Copa”, “Recepção”, “Pizzaria”, “Camarim do Saraiva”, “Trópicos Motel”, e por aí vai.
            Encontrei as meninas um pouco mais tarde no quarto delas (Eneida e Sílvia), onde tiramos algumas fotos e depois descemos para tomar café. Eu nada comi, só fiz companhia. Menos por educação e mais por estar realmente impazinado. Depois atravessamos a larga avenida e fomos caminhar no calçadão do Jardim de Alá, onde pudemos vislumbrar uma maravilha da tecnologia soteropolitana, o W.C. de última geração. Totalmente informatizado e a sua disposição por apenas cinqüenta centavos. Para os mais afoitos, um aviso: “Só funciona com uma pessoa de cada vez”. E eu me divertia imaginando o que aconteceria se dois ou mais entrassem na diminuta caixa metálica. Um alarme ou sirene, cães, helicópteros, a tropa de choque, cadeia nacional...
            Após o almoço, fomos para o mercado modelo e já no trajeto, pude conversar um pouco com as simpaticíssimas concluintes, que haviam chegado de avião com Renat, a dançante Iliana e a sofisticada Ísis. Iliana era muito alegre e serena, com saltitantes cachinhos castanhos, tinha uma silhueta esguia. Branca como Ísis, tinha um gosto musical muito parecido com o meu e comemoramos quando soubemos que haveria show de Zeca Baleiro. Acabamos não indo e então dissemos: “Vamos em Natal”. Também não fomos porque o show da terrinha ocorreu enquanto estávamos em Salvador. “Salvador: propaganda enganosa” era esse o nome original deste livro (?). Só não me decepcionei com as pessoas maravilhosas, como Ísis, a – momentaneamente – ruiva com um jeitão de advogada mesmo. Educada e sensível, foi a minha agradável companheira nas galerias do mercado modelo. Naquela tarde em que, novamente falei em Fátima, que era a “falecida”, só que eu prometi a Eneida que não vou mais me referir a ela assim. Ísis falou um pouco sobre o seu atual namoro e compras que tinha feito, quando nos preparávamos para subir a pé até o largo do pelourinho (cidade alta).
            Enquanto esperávamos o povo retornar – e sempre esperávamos demais! – éramos visitados, ao lado do ônibus, por vendedores ambulantes e esmolés. Um em especial era insistente e, principalmente porque era um homem adulto e saudável, eu me acercava das meninas para oferecer-lhes alguma proteção. Se é que era possível. Este sujeito era insistente e conseguiu algumas moedas com os meninos do grupo e me fitou por alguns instantes, olhos nos olhos, de forma ameaçadora. Eu fui firme, mas educado.
            A maneira como as pessoas te olham, em Salvador, é um caso à parte. As pessoas mais humildes, constiuídas predominantemente por negros e mulatos, devido ao processo histórico de ocupação, tem uma consciência tão grande do quanto os negros e pobres sofreram e foram explorados que, ao invés de adotar a equivocada postura subserviente de outras regiões, possuem – os negros pobres – um ar de superioridade e arrogância peculiar. É como se ao olhar para um branco amareláceo como eu, ele quizesse descarregar todo o seu ódio, como se quizesse me culpar pelo que os meus possíveis antepassados fizeram aos seu prováveis parentes.
            Porém, quando nos pusemos a subir, este mesmo esmolé mal encarado passou por nós em sua bicicleta e profetizou, dirigindo-se a mim, em meio
à turistada:
-          Hei, você. Ô miserável! Você não quis me ajudar, mas eu vou te dar um aviso. Não suba aí sem proteção não que tá muito perigoso. Lá em cima o “bicho tá pegando”. – e saiu.
Dirigi-me então a “guia”. Até porque Alana, alguns passos antes havia me dito para não subirmos não, que ela tinha tido um mau pressentimento. Disse que seu coração pedia para não subirmos e além disso, sua mãe havia tido um sonho ruim. Diante do exposto, fui até Alice que, como sempre estava aberta ao diálogo, e resolveu que subiríamos, então, de ônibus. É claro que a ala aventureira do grupo achou exagero de minha parte. Esta facção xiita era constituída em sua maioria pelos alunos dos primeiros períodos do Curso.
Após uma rápida e turbulenta visita ao largo do pelourinho, retornamos ao hotel para os preparativos para a “primeira noite” em Salvador. Alguém me perguntou o que era “pelourinho”, acho que foi o João Carlos, eu fiquei meio na dúvida, mas aqui vai: Segundo o Aurélio, pelourinho é “S. m. Coluna de pedra ou de madeira, em praça pública ou lugar público, junto da qual se expunham e castigavam criminosos”, no caso, os escravos.
A expectativa pelo by night era imensa e até porque havíamos perdido o dia anterior, a discussão no ônibus foi longa. Até porque era uma época atípica. Além disso, dos milhares de ônibus que vimos na Universidade, apenas um outro, exatamente de Natal, rodava em busca de um lugar. Pode parecer ridículo, mas foi ótimo isso ter acontecido, porque meu a oportunidade de ter uma das mais excitantes, agradáveis e fantásticas conversas da minha vida.
Já na saída do hotel puxei assunto com Ana Flávia, a magrela de sorriso fácil e irônico, que havia me intrigado já na ida para Salvador, dentre outras coisas, porque lia um livro de letras miúdas com voracidade ímpar. Relatei-lhe o fato, entrando no ônibus e nos sentamos lado a lado. A intrigante garotinha com porte de modelo me esclareceu:
-          É Dostoievsky. – com um tom coloquial.
Certamente fiquei chocado, porque Dostoiévski é um autor que nunca tive coragem de ler, devido a sua genial complexidade. Um amigo me presenteou com um livro do autor, mas eu nunca o abri. E o guardei tão bem guardado que mesmo agora quando fui a minha impecável estante para ver como é que se escrevia o nome do sujeito, não encontrei o livro. E olha que as minhas quatro prateleiras tem etiquetas.
A conversa foi ótima. Ela falava dos livros que leu e eu dos que ouvira falar, já que meu pai fora vendedor e lá em casa havia muitos livros e catálogos. Falamos sobre filosofia e quando estávamos na Dialética Aristotélica, o ônibus chegou a Estação da Cerveja. Durante a viagem tivemos muitas outras conversas, onde falamos sobre educação , família, o namorado que ela diz amar de paixão e a minha ex, mas nada comparado aquele momento em que ela falou de forma tão apaixonada pela literatura que eu me senti envergonhado de ler tão pouco.
De Aristóteles voltamos ao mundo concreto, dito real e entramos na Estação que me lembrou muito uma casa de reputação duvidosa que existia em Natal. Após cinco ou dez minutos no lugar, de eu ter encontrado uma amiga e começado a balançar o esqueleto, uma garrafa irrompeu pelo ar e aí foram só os gritos.
Uma briga tinha início. Foi tudo muito rápido e eu só tive tem pó de botar as meninas, as alunas atrás de mim. Alana se refugiara no banheiro. Um segurança, o maior negão do mundo, de terno e gravata arrastava dois dos litigantes que não ousavam reagir. Outros seguranças – no máximo dois ou três- sem a mesma classe e o mesmo porte do negão, tentavam conter frenéticos homens sem camisa. Marina, a evangélica com cara de bebê gritava:
-          É o inferno! É o inferno! – e chorava de forma estridente.

Voltamos ao hotel onde realizamos uma festinha no 113. Nós, da escola, e uns poucos alunos de Direito. Assim terminava a nossa segunda e inesquecível noite em Salvador.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Crônicas de Salvador - As noites nem sempre são boas


               O almoço foi uma verdadeira operação de guerra. Sob olhares desconfiados, o ônibus parou e fomos em fila indiana. Para quem não sabe o que é isso, “fila indiana” é um atrás do outro, sem sacanagem. E assim fomos, “encangados” e nos movendo a passos rápidos até o respeitável estabelecimento gastronômico. Os dois motoristas, que se revezaram na viagem, ficaram postados cada um num extremo do lado de fora do ônibus. O detalhe é que – na ausência de um guia – eu, muito prestativo para não dizer, dado, fiquei à porta, ajudando as mulheres do veículo a descer. Esse era um dos hábitos paternais de quem viajava todos os anos com manadas de adolescentes, cujos pais faziam zilhões de recomendações.
            Depois que entramos, um homem de terno, boa pinta e educado (exceção na cidade) passou a chave na porta do restaurante. A comida foi cara e boa, apesar de minha gastrite ter se manifestado após uma mínima dose de um – aparentemente inofensivo – licor de cacau. E tornamos ao hotel, onde após uma longa espera conseguimos a liberação dos quartos e enfim nossas carcaças puderam ver água. Só as do banho, bojo e pia, porque para beber teríamos que passar pelos escandalizantes preços do frigo-bar do hotel. Não dormimos porque a guia, chamada “desguia”, posteriormente, programou um cithy tour para as 14 horas, depois 14 e 30 e, por fim 16 horas, saindo pontualmente às 16 e 40 e deixando, ainda, desavizados  três membros do grupo que foram de táxi.
            O cithy tour fora cancelado por orientação do guia local e nos dirigimos à universidade federal para o credenciamento dos congressistas. A esta altura eu me distanciava um pouco de Alana e Andréia e até mesmo de Eneida e Sílvia e ia fazendo novos amigos. Principalmente, amigas. O campus parecia o estacionamento de Woodstock, onde ônibus, barracas, pouca roupa, álcool e fumaça coabitavam harmonicamente. Após algumas orientações equivocadas, nos dirigimos para o que seria um centro de convivência. Como passamos por um descampado e a noite caía, em meio a um clima generalizado de insegurança, aceleramos o passo. Esta tarefa não era a das mais fáceis para a maioria das meninas do grupo, que estavam de salto alto. Altíssimo em alguns casos. Uma delas, Neliane, despencou do alto dos seus saltos trinta. Quinze de cada um. E torceu o pezinho. Alguém tentou achar um posto médico e não o encontrando, sugeriu:
-          Precisamos de gelo.
-          Eu vou pegar. Fiquem aqui. Eu volto já. – Disse eu. Queria marcar pontos. Me enturmar e segui em busca de gelo. Deparei-me com um homem e uma credencial.
-          Você sabe onde tem um posto médico?
-          Ãh???
-          P-o-s-t-o   m-é-d-i-c-o?
-          Ãh???
Fui até outro sujeito com uma credencial.
-          Onde é que eu posso encontrar um posto médico?
-          Aqui? – e fez cara de espanto.
-          Um bar, então? Eu preciso de gelo para uma compressa.
-          Por ali. – E me apontou uma trilhazinha escura. Fato é que cheguei num bar. E me dirigi à indivídua do lado de dentro do balcão:
-          Você tem gelo?
-          Não. A máquina ligou agora e ainda não fez. – A máquina deveria ter a mesma velocidade do seu sotaque baiano, que construía frases intermináveis. Mas ela não só terminou, como prosseguiu:
-          Mas, ali tem. Eles ligaram desde cedo, ali tem. – E apontou para outro bar improvisado. Agradeci e saí.
E me dirigi ao menino do bar:
-          Preciso de gelo. Gelo e um saco. – Achei melhor frisar que não levaria os cubos na mão devido a aparente lerdeza do sujeito. Estava certo. O gelo foi fácil, mas o plástico... Até que eu sugeri que ele roubasse o saco dos guardanapos. Mas, ele ainda não se deu por vencido e continuou a procurar. Sob o olhar desconfiado de um grisalho que deveria ser o dono do lugar. Até que, por fim, me deu o gelo no saco dos guardanapos mesmo.  Este que o grisalho carrancudo lhe apontara. Eu que olhava o sisudo apenas com o rabo de olho, agradeci ao menorzinho e voltei para junto do grupo.
Cheguei com um ar triunfante, mas ninguém entendeu e Neliane colocou a compressa no peito do pé direito. Depois de um tempo, eu disse:
-          Mexa os dedos. Devagar. Pode confiar. Eu sou irmão de fisioterapeuta. – Foi um argumento estúpido, mas o fato é que ela confiou.
Neliane era assim, confiava. Era uma menina quase loira, de pele clara e sorriso farto. Apesar de aparentemente desprotegida, sabia bem o que fazia. Apenas denotava não ter se contagiado pelo dissimulado e competitivo mundo adulto, permanecendo angelical.
No ônibus soubemos que o show do Cidade Negra havia sido cancelado por motivos de segurança. Ou da falta dela. O nosso destino, portanto, era voltar ao hotel. O que gerou uma das primeiras polêmicas no grupo. Havia aqueles que achavam essas preocupações excessivas, diziam que se estava fazendo tempestade em copo d’água. É claro que essa era a ala menos sóbria do grupo. Fato é que passamos no supermercado e tornamos ao Bahiamar Hotel.
Era aniversário de Laura e eu, Alana, Andréia e as alunas nos reunimos no quarto de uma delas para comer um bolo. Além de nós oito, convidamos Eneida e Sílvia e o meu colega de quarto, o Luca. Depois dos parabéns, descemos para encontrar o restante do grupo na piscina. Contudo, ninguém mais apareceu e seguimos o impulso da Eneida que já havia ido dormir. Soubemos no dia seguinte que o pessoal desceu mais tarde e ficou na beira da piscina até as duas e meia da manhã. Para mim, no entanto, terminava primeira noite em Salvador e a única música que ouvira fora um desafinado “parabéns pra você”, seguido de um entusiástico “com quem será”.
Acho que é o Peixe Côco, uma banda lá de Natal que canta: “As noites nem sempre são boas”. É verdade. Mas, pelo menos, dormi na horizontal.


quinta-feira, 4 de julho de 2013

Crônicas de Salvador - Sinais de Fumaça


             Os índios talvez por se encontrarem longe dos micro-ondas e das churrasqueiras elétricas dedicaram-se a observar os sinais de fumaça, mais das grandes fogueiras (de uma entidade equivalente a São João) do que dos cachimbos que recheiam com as mais variadas ervas e que por isso são chamados “da paz”. O “amor” só veio na década de 1960, oficialmente. Fato é que eu, nada a ver com índio, comecei a decifrar os sinais de fumaça e a perceber que a excursão para Salvador seria, no mínimo, atípica, incomum, bizarra e até bizonha. O primeiro sinal da manhã de quinta-feira, 12 de Julho de 2001, foi uma ligação de Izabel, irmã de Wlademir, pedindo-me para cancelar o dentista do mesmo, pois o caçula de 26 anos havia sido levado às pressas naquela madrugada para o hospital com mais uma crise renal.
A primeira coisa que me passou pela cabeça e, provavelmente pela dele, também, foi que a viagem estava marcada para as quinze horas, mais conhecidas como: as 3 da tarde. Fica até difícil descrever a importância por nós atribuída a esta viagem, no entanto, basta dizer que seria uma grande oportunidade de avaliarmos e re-avaliarmos nossas vidas pessoais e profissionais.
O meu primeiro impulso foi o de ir ao hospital, mas uma ligação da outra irmã de Wlademir, que estava com ele no local me tranqüilizou. Ele estava medicado e seria encaminhado a um nefrologista só para viajar sossegado. Respirei aliviado, ainda mais que tinha outros afazeres, os últimos preparativos para a viagem. Esta que era uma viagem muito mais interna do que propriamente material. Pois só assim, longe do “meu mundo”, da concretude, do cotidiano, dos lugares-comuns, pairando acima das coisas, eu poderia ver a minha vida e ver-me com isenção. Tentar retomar o irretomável namoro? Iniciar a sacrificiosa pós-graduação? Retomar o trabalho com teatro? Prosseguir nas pinturas? Trocar o carro? O que fazer para o segundo semestre letivo de 2001? Eis um pouco do que me assaltava a mente.
Certamente todos os mais de quarenta inscritos para a excursão tinham os seus objetivos e expectativas, embora muitos nem os tenham teorizado. Porém, ao menos um dentre estes não os realizaria: Wlademir, qual um atleta vetado pelo departamento médico, quem sabe para uma copa do mundo. Era assim que meu pai mensurava coisas importantes, como uma “copa do mundo”.
Assim, após uma despedida emocionada ao telefone cheguei, antecipadamente frustrado a Agência, onde encontrei a professora Andréia, querida amiga cuja figura se impunha, seja pelos olhos serenos e o sorriso constante, porém discreto, seja pelo porte de jogadora de vôlei. Contei-lhe o acontecido, ao que externou tristeza, mas as surpresas estavam apenas começando.
Então éramos oito: Alana e Andréia, nas antepenúltimas cadeiras do lado direito, seguidas pelas alunas concluintes: Samara, mais conhecida como “bombinha” devido aos anabolizados braços de Popeye e Laura, o terror dos homens fardados. Ao lado de Alana, eu, na janela, e Denize, a boa menina, no corredor. Atrás de nós, Marina – a bochechuda, com cara de bebê – e Clarissa, jocosamente chamada de “Miss Mamanguape”, já que era paraibana. Éramos ilha, em meio a um oceano de estudantes de Direito.
É preciso esclarecer que, pelo menos para mim, ser estudante de Direito não era propriamente um elogio. Ao contrário: significava ser riquinho, mauricinho, patricinho, inelectualzinho e pombão. Vale salientar que os adjetivos se aplicavam também ao gênero feminino e que eu odeio diminutivos e isso reforça ainda mais os meus preconceitos para com alguém que a norma culta julgaria: endinheirado, vestido de forma ostentatória, ligado em futilidades, pseudo-sábio e arrogante. Felizmente, alguns dos meus muitos preconceitos se perderam nessa jornada.
Porém até a noite me limitei a oferecer e agradecer ao oferecimento de biscoitos e a brincar com as meninas, as minhas sete “filhas” iniciais. Lá pelas tantas, quando o videokê rolava, embalsamei-me no lendário “manto sagrado” e permaneci sepultado até o amanhecer. Antes disso porém, li algumas páginas de um livro e fiz considerações de gosto duvidoso sobre a homossexualidade de duas estudantes de Direito do último período, que na última fila se amontoavam para fofocar, e fugi das goteiras que tomavam o ônibus. Escoradas por sacos plásticos, as goteiras formavam verdadeiros aquários, onde cadáveres de moscas jaziam.
Eneida e Sílvia eram muito amigas, de longo tempo e até por uma questão geográfica, foram as primeiras pessoas com as quais fizemos contato. Eneida era um belo exemplar de morena, um pouco mais reservada do que Sílvia, porém muito simpática, à primeira, segunda e terceira vista. Soubemos depois que fora colega de colégio da filha de um dos donos da escola em que trabalhávamos e era sua vizinha. A loira Sílvia, eu acho que não foi muito com a minha cara, pelo menos a princípio – coincidentemente, o mesmo período das brincadeirinhas sobre a relação das duas – porém mostrou uma alegria contagiante e muita camaradagem, sendo fundamental no processo de integração das alunas ao grupo. Ao menos à banda sociável do comboio.
Nos últimos onze anos havia feito pelo menos quinze viagens com o famoso “manto sagrado”, uma colcha velha, rota e esburacada que era o meu amuleto e me protegia de pastas de dente e do frio, mas não das goteiras como posteriormente ficaria comprovado. Acostumado a longas viagens de ônibus, dormi sossegado.
O amanhecer do dia nos trouxe surpresas, porque todas as notícias sobre a greve dos policiais civis e militares e dos seguranças particulares de Salvador não nos preparou para aquele quadro dantesco. “Quadro dantesco!”, que lugar comum!!! Deve se arrepiar Ana Flávia, outra personagem dessa jornada que ainda não apareceu e que na hipótese delirante de isso ser publicado escreveria o prefácio.
Mas, voltemos ao quadro mórbido e inquietante: bancos, shoppings e hospitais fechados com medo dos saques, ruas desertas, olhares assustados, ônibus que não circulam e nenhum sinal dos batuques e da alegria peculiar aos “bahianos”. No ônibus, os comentários. Nos semáforos, os avisos de prestimosos motoristas. Eu procurava comentar baixo com Alana e Andréia para não alarmar as alunas. Mas, Alana, sob o peso de enorme responsabilidade olhava como um bichinho assustado.
Chegamos no hotel para descarregar as malas e já as empilhávamos sobre a calçada, quando fomos informados que o hotel só estaria liberado daí a algumas horas. Pusemo-nos, então a recolocar as malas para o ônibus, sob protestos e caras emburradas. Essa foi uma das primeiras manifestações da falta de cacoete da “guia”, que apesar de flexível (Até demais.) e tranqüila, falhava no critério organização. Dando o desconto do “estado de sítio”, é claro. Pudemos, depois, perceber que Alice, apesar das falhas era uma ótima pessoa. Afinal, manter-se educada e serena em meio ao apocalipse era tarefa dificílima, sobre tudo em meio a pessoas evidentemente cientes dos seus direitos. E de alguns chatos e reclamões de marca maior como eu.


segunda-feira, 1 de julho de 2013

CRÔNICAS DE SALVADOR

Introdução

            São pouco mais de nove horas da manhã de uma sexta-feira. Se fosse há uma semana atrás, eu estaria em um ônibus com destino a capital de ACM, a propalada cidade de Salvador. De certa forma, este nome e esta aura messiânica da localidade e de todo o estado da Bahia modificou profundamente a minha vida. Muito mais do que as minhas profecias de samba-canção da sexta poderiam supor.
            Tanto que o que deveriam ser crônicas estritamente coloquiais e bem-humoradas saem de meus dedos como um lamento, uma confissão, um relato místico, embora com algum senso de humor eu espero. Digo: espero, por que não freio nenhum pensamento, ou quase nenhum. Deixo isso fluir, isto que transborda em mim, e em todos nós mais ou menos, no sol ou chuva e, aparentemente, sempre e fácil – nem sempre sem dor – em iluminados nomes como: Caravaggio, Veríssimo (o filho), Janis Jopplin, Elis, Kurt Cobain, Robin Willians ou Renato Russo*.
            Ensimesmado numa encruzilhada de opções e aurindo forças para ratificar umas opções e retificar outras, idealizei durante mais de um mês esta viagem que, pensava eu, seria inesquecível. E, sem dúvidas o foi, muito embora por motivos insuspeitados. Eu não sei bem quando ou de onde sugiu a idéia de pegar a estrada para Salvador, contudo, foi em meados de Junho que tudo se deu. Acho que foi – como quase todas as grandes idéias – em uma mesa de bar...
            Há mais de dois meses terminei um relacionamento com Fátima**, a quem me refiro sempre como a “falecida”, como que para sepultá-la em meu coração. Esta, porém, ainda não faleceu. Aliás, desde que tudo acabou definitivamente penso em escrever para desabafar. Todavia, só agora tenho coragem. E como a idéia do livro surgiu em Salvador, eis a primeira grande mudança que a viagem me propiciou.
            Ao fim do referido enlace, me uni mais fortemente ao lendário Wladimir, amigo de longa data, com o qual suportei longos revezes e que também estava às voltas com a ex-namorada, a Elenice. E com novos amigos da escola: Alana, professora de Biologia, Andréa, amiga desta, Carolina, a carioca de Inglês, Anália, coordenadora, e Edison, também, professor de língua inglesa. Com este grupo, realizei inúmeras incursões pelas noites potiguares. Dançamos, cantamos, comemos e, principalmente, conversamos. E foi numa dessas conversas que, Alana mencionou***:
-          Eu vou para SBPC, em Salvador. O trabalho das meninas foi aprovado e um só meu, também. Vamos! Vamos!
Ela sempre repetia o final das frases para reforçar suas idéias. Em seguida esboçava um sorriso. Discreto, porém sincero. Era uma mulher madura de pele convidativamente morena e de óculos de aros grossos, o que reforçava a sua imagem de pesquisadora.
Não me lembro se naquele dia este pensamento me ocorreu, mas lembro que no ano passado, eu e Wladimir e outros amigos fomos de carro à Fortaleza e no retorno pensamos: “No próximo ano, vamos para a Bahia”. Temos que ter cuidado com o que pensamos. Obviamente se não forem bons, os pensamentos devem ser excluídos.
Fato é que a idéia de irmos a Salvador foi amadurecendo. Pensamos em uma pousada e em irmos de carro, mas isto foi descartado. Acabamos indo numa excursão. E em meio aos nossos planos, me lembrei que tinha uma amiga na cidade, aliás uma ex-namorada, e liguei pra ela. Em meio à conversa, em que eu contava que iríamos a Salvador ela me disse que não estava saindo. Eu estranhei pois, embora fizessem muitos anos que não nos falávamos, tinha certeza que ela gostava dum “agito”, ao que ela me esclareceu:
-          É por causa do bebê.
-          Você teve um filho?
-          Não. Estou grávida de sete meses.
Bom, certamente não era o que eu queria ouvir. No mínimo porque perdemos a nossa guia nativa.
Com o correr do tempo, Anália, a coordenadora simpática que nos recebera tão bem em sua casa e cuja companhia era ímpar, pelo alto astral confessou que não poderia ir conosco pois a filha viajara para ver o pai, em Minas Gerais, e não tinha recursos para a empreitada. Diante do que foi compreensivelmente chamada de “traíra”. Essa foi a primeira baixa, que não abalou significativamente o ímpeto do grupo em prosseguir. Ao fim das contas, ficou acertado que Carolina e Edison, respectivamente, “traíras” 2 e 3, não iriam na excursão hospedando-se na casa de uma amiga de Carolina, talvez. Foi pior, nem foram. Até hoje não sei porque, mas certamente foram perdas consideráveis. Até porque eram sem dúvida pertencentes à facção animada do nosso grupo e, também, a ala mais dançante.
Outra perda lamentável para esta viagem foi o fato de uma das seis orientandas de Alana não ter ido por motivos maiores. Isso após as alunas terem se dedicado tanto ao trabalho, terem conquistado uma ajuda de custos da escola e terem organizado eventos para tornar possível a realização deste sonho. Todas estas ausências sem dúvidas mudaram o perfil do nosso grupo que, somando-se a outros amigos de outros núcleos poderiam totalizar um terço do ônibus. Para mim, pelo menos, ser um ilustre desconhecido da maioria foi até providencial.
Contudo a perda mais lamentável foi a ausência do meu companheiro de longas datas, Wladimir, que era talvez o único que, como eu, iria não para o Congresso, mas exclusivamente para o lazer – cultural ou não. Era uma manhã de quinta feira quando tudo começou...




* Parece-me que eles não têm opção. Não fazem arte, ela os faz.
** Todos os nomes foram substituídos por motivos literários.
*** As transcrições dos diálogos não serão literais.