Acordei
bem disposto, apesar de ter ficado até quase três da manhã assistindo Fox Kids
e jogando conversa fora com Bodin e Almira, duas figuras inseparáveis, os
últimos a permanecerem acordados no 113. “Bem disposto” significa: capaz de
dizer bom dia antes das nove da manhã e de articular frases curtas, de até duas
palavras. O que era muito, considerando-se o meu lendário mau humor matinal.
Almira
era um consenso. Uma pessoa dócil e equilibrada, apesar de ter personalidade e
opinião. Fazendo parte dos que – como eu – tinham pele translúcida, possuía o
cabelo cacheado e, salvo engano, aparelhos nos dentes. Mas, principalmente, era
da paz, daquelas que dá vontade de deitar a cabeça no colo e de pedir cafuné.
Francisco
Bodin Jr., tão colado com Almira que pensei serem namorados é um espécime raro,
digno de um capítulo só para ele. Ao invés disso, escreverei um livro só à
respeito desse cara sereno e educadíssimo que era capaz dos maiores galanteios,
como comprar um buquê de flores brancas e de distribuí-las entre as meninas do
grupo – sendo chamado de tarado do ônibus, uma menção à sua juventude na linha
53 de nossa cidade - e de colocar uma outra flor ao mar para que esta fosse até
a sua namorada em Natal. Ou de fazer quinze saques de dois reais para escapar
ao imposto sobre as movimentações financeiras. Magro, ensacadinho, cabelo
impecável, óculos e muita mansuetude constituíam a auréola inoscente e
idealista deste estagiário do Banco do Brasil.
Depois
do café e de uma conversa com as alunas para saber se estava tudo bem e pedir
que não alarmassem ainda mais os seus pais em Natal, após a turbulenta noite
anterior, partimos numa caminhada pela praia objetivando mais fotos com
Neliane, Ísis e outros. Retornando, fui apanhado pelo tio da Luana – a minha
amiga de Salvador que estava buchuda e me separei do restante do grupo, durante
todo o dia. Os que não apresentaram trabalhos foram a praia.
Nesta
manhã pude conhecer a periferia da cidade e convivendo com uma hospitaleira
população nativa, quebrar parte das más impressões iniciais acerca do povo de
Salvador. Além disso, matei a saudade da buchudinha em questão, que não via
fazia alguns anos. Após comer uma bela feijoada, fomos: eu, Luana e alguns
parentes a um catimbó que eles freqüentavam e que – na época em que
namorávamos, em Natal – eu fazia planos de conhecer.
Há
muito tempo eu não “batia tambor” e não pretendia voltar a fazê-lo, apesar do
óbvio respeito por toda e qualquer religião, como legítima forma de se buscar a
Deus. Mas pelos motivos já mencionados e uma certa curiosidade histórica,
subimos uma ladeira demarcada por casas muito humildes e finalmente, pude
conhecer uma mãe de santo baiana que eu já admirava pelas histórias que a
família contava a seu respeito. E sem julgar os meios, e sim a intenção,
decerto aquela sacerdotisa de cabelos brancos e “negra da cor da noite”,
parafraseando Castro Alves, iria para o céu. Como qualquer fiel ou sacerdote de
outra religião que fizesse o bem gratuitamente. Quando chegarmos lá em “cima”,
não vão nos perguntar: qual o nosso credo, mas qual a nossa carga de atos
verdadeiramente caritativos. Foi ótima a curta visita.
Na
descida da ladeira, me ofereci para que Luana se apoiasse em mim. Mas a
“larga”, ou deveria dizer “comprida”, na horizontal, ex-bailarina recusou,
talvez se lembrando da época em que éramos namorados, ela fazia dança e eu
teatro. Eu ficava intrigado como os magros dançarinos, pouco másculos, do seu
grupo a seguravam e rodopiavam com ela pelo ar. Ela que, apesar de baixinha já
não tinha uma silhueta propriamente de bailarina. Um dia, eu – namorado vaidoso
– quis provar a minha agilidade, força e equilíbrio e propus que ela viesse
correndo, de frente para mim, e se atirasse em meus braços, o que ela – sem
opção – o fez. É claro que caímos os dois e eu machuquei o joelho esquerdo. Fisicamente
isto pode ser explicado pela minha anatomia, cujos pés divergem, ao invés de
caminhar paralelamente, me deixando vulnerável a uma queda frontal. Motivo pelo
qual recebia ao longo de minha história, apelidos simpáticos como: “patinho”,
“dez para as duas” ou “pé de rodo”.
Descemos
a ladeira e já no asfalto plano passamos por um largo canal de esgotos e ela me
apontou aquilo, dizendo:
-
Olha a praia de Salvador.
Eu me virei
para a esquerda com a parte superior do corpo, apenas, olhando para ela e a paisagem
e retruquei:
-
Que legal. Devia ter trazido a máquina para fotografar
a bela paisagem de Salvador.
Nisso, o meu
pé direito que estava paralelo ao outro – misteriosamente – entrou em uma
canaleta para escorrer a água da chuva e eu caí apoiado sobre o joelho
esquerdo. O mesmo joelho esquerdo de seis anos antes. Realmente, a viagem para
a Bahia foi marcante para mim!
Passei a tarde conversando. Conversando e
comendo. Torradas, pipocas e outras comidas de nome e gosto estranho e que
faziam parte da culinária nativa. A família dela foi muito agradável, até mesmo
o pai dela que outrora me amedrontava e me fazia greve de silêncio por dias a
fio. O próprio “pai do seu filho” (definição da mesma) me tratou muito bem.
Despedi-me de todos, já com saudades e retornei com outro tio ao hotel. Antes,
porém, rodamos uma hora e meia de carro e pude conhecer um pouco da noite
soteropolitana.
No hotel, o
ônibus já estava com o motor ligado e esperava apenas alguns retardatários para
partir para o que seria o nosso “debu” nas propaladas noites locais. Só tive
tempo de falar com Alice e de dar-lhe dinheiro para que comprasse a minha senha
para o Rock in Rio, situado no Aeroclube. Fui até o quarto, tomei um rápido
banho e fui de táxi até o local.
O Aeroclube
era como um shopping só que ao invés de muitas lojas, tinha muitíssimas praças
de alimentação e casas de show, como o Rock in Rio, cujo símbolo na fachada,
além do próprio nome, denotava ser uma franquia do megaevento ocorrido no Rio
de Janeiro, a “cidade maravilhosa”.
Sou carioca.
Apesar de não
estarmos em uma típica noite salvadorenha, aparentemente, todos se divertiram.
O lugar era seguro. O ambiente da boite, amplo e bem transado. Gente bonita,
nem que fosse só para ver. Música animada, apesar de uma das bandas ser uma
banda de salsa.
Eu passei 26
anos para um dia acordar e resolver querer aprender a dançar forró. Desde o
finalzinho do mês de junho havia dado umas treinadas e conseguira sair do nada
para alguma coizinha. Agora já dançava mal, antes nem isso. Ainda tímido e
inseguro neste aspecto só dançava se me convidassem, e Neliane me convidou.
Depois de uns
dois ou três passos diferentes, ela constatou:
-
Você está dançando forró.
-
Sim. – sorrindo.
-
Mas está tocando salsa!
Fiquei no
chão. Ela ainda tentou consertar, dizendo para eu dançar do jeito que quisesse,
mas já era tarde.
Porém, o que
me deixou feliz naquela noite foi que as alunas realmente curtiram. Laura com
seus seguranças, Samara, que finalmente desfizera a cara emburrada do dia
inteiro, pelo dia anterior, Clarissa, que descolou com três e até as tímidas
Denize e Marina que foram chamadas para dançar. Marina foi. No entanto, recuou
quando o carinha quis “avançar o sinal”. Alana finalmente relaxou. E o cansaço
era temperado por discretos sorrisos de satisfação.
Porém, nesta
viagem, as surpresas nunca demoravam. “Cadê o ônibus?”, era a pergunta que
todos se faziam. Alice já havia ido até o estacionamento com alguns
excursionistas, mas não havia encontrado o veículo. Estaria ele no hotel? Foi o
que eu questionei. Ela ligou e o veículo não estava por lá. Acorda, então, o
motorista (o outro), para tentar localizar o bicho. Contudo, o telefone do
quarto estava fora do gancho. Me ofereci para ir com ela, novamente, a área
destinada ao estacionamento dos veículos de grande porte.
Novamente, não
o encontramos. Porém, nessa caminhada pude conversar um pouco com Alice e
descobrir a ótima pessoa que ela era. Sempre tentando agradar a todos, o que
obviamente não era possível, mas que não era propriamente um defeito. A solução
era pegar um táxi e tornar ao hotel para ir ao quarto do piloto de número dois.
Ao invés disso, ela - já no táxi – “descobriu” o carro. E fomos até ele. Mas,
como?
O carango
(Como é difícil ficar encontrando sinônimos para não repetir a palavra ônibus)
estava no meio do estacionamento, só que por trás de um outro veículo, e por
isso não foi visto. Ela me contou isso em particular no caminho do dito cujo e
eu aconselhei-a a dizer a verdade ao pessoal.
Todos estavam
aparentemente realizados e com sono, e ninguém ligou, como diz a música:
“... Agora
tanto faz / Estamos indo de volta pra casa .”