“Eu, Juarez José da Silva, brasileiro, divorciado, em pleno juízo de minhas faculdades mentais, venho por meio deste dispor de meus bens, porque para onde vou não mais precisarei destas coisas.
Deixo o meu rim esquerdo para o tio Bené, que tem várias pedras no mesmo e não agüenta mais as dores. E por este, se livrará das hemodiálises. O rim direito deixo pro seu Teobaldo, dono da padaria que nunca cobrou o “prego”, pregado por meses a fio e que já está há meses na fila de espera para transplante.
O meu estômago doou para o Instituto Estadual de Gastroendocrinologia, porque a gastrite já destruiu muito e só serve mesmo é pra estudo.
Os meus testículos em conjunto com o escrotal, reverto à minha ex-esposa, que em nossos dezesseis anos de casados, contribuiu muito para o seu crescimento. Enchendo-me de sobremaneira, o saco.
O meu “birgulinho” deixo para aquele rapaz cearense que teve o dele cortado pela namorada. Espero que ele não me decepcione, ou melhor, eles. O rapaz, no uso do instrumento e o instrumento, honrando a sua origem.
O meu fígado é, talvez, o órgão mais disputado. Se bem que eu ache que não vale muita coisa. Na dúvida, deixo para dois amigos muito necessitados: o compadre Lourenço, amante insaciável das branquinhas. E meu tio João, que nunca fez distinção de cor, gosto ou teor etílico.
As minhas córneas (olhos) deixo para o Instituto de Cegos, para que beneficie algum dos inscritos, desde que seja do sexo feminino. Afinal, imaginem os lugares em que entrarei e o que verei... Só espero que as amigas das receptoras não se ofendam ou façam mal juízo das moças.
O meu coração deixo para as minhas duas filhas, para os meus dois anjinhos com que a megera me presenteou. Como sei que, graças a Deus, elas não têm problemas cardíacos, sugiro que o mesmo seja vendido e que o dinheiro se reparta entre as duas. Sei que o coração de um fumante não vale muita coisa, mas tenho fé que dê, pelo menos, para pagar a terapia das meninas, afinal, minha partida deve tê-las abatido muito. Não chorem queridas, o papai está aqui!
Gota gota gota (São as lágrimas do falecido).
O meu sistema muscular, braços e pernas, reservo para o meu primo Manuel, estudante do 3º ano de Medicina. Pedindo apenas que ele trate com carinho os seus novos brinquedinhos, ou “peças”, e evite as piadinhas no Anatômico.
O restante das coisas (os miúdos, baço, intestinos) eu desejo que sejam vendidos até pro seu Camilo (do açougue), se for o caso, para ver se garante a feira para minha senhora, dona Zeferina, pelo menos até a pensão sair. Isso, se o primo Orlando não foi até o Instituto Médico Legal reconhecer o meu corpo. Se foi o caso, eu estava certo e eles eram amantes, neste caso, peço que o dinheiro apurado com os “miúdos” sejam remetidos ao meu dileto vizinho o “Duzentos e dezesseis anos” (É o tempo de cana que ele pegou), para que o mesmo me faça um favorzinho, que lhe pedi.
Faço este testamento e o registro em cartório antes que seja aprovada a Lei de Doação Compulsória de Órgãos e eu perca a única coisa que ainda me pertence (o corpo). Porque até as calças o governo já tirou e é por isso que não doou o cérebro pra ninguém, afinal, com uma bala na cabeça, de que ele me serve...”
No dia seguinte, a esposa o encontrou desmaiado no sofá. O seu sobrinho Alcirzinho havia tirado as balas do revólver para mostrar aos coleguinhas na escola. Ela juntou um monte de papéis velhos que estavam sobre a mesa, debaixo da cabeça de Juarez e foi joga-los no lixo, depois de acordar o marido e avisar que o café estava esfriando.
Abril de 1997...
ResponderExcluirQue fique claro: não sou contra a doação de órgãos.
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