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sábado, 15 de outubro de 2011

O Brado Retumbante

Quando eu conheci Clarke, alguns cabelos brancos já lhe coloriam (ou descoloriam) a cabeça. Tivera uma vida difícil, mas vitoriosa. Era casado com a simpaticíssima Bellabella, que recebera esse nome devido a uma falha de comunicação entre o declarante – o pai – e o escrivão do cartório. Clarke e Bella trabalhavam no ramo da telefonia – provavelmente para assegurar que as comunicações fossem mais eficientes e menos danosas...
Sua empresa, a “Fonefone” lhes garantia um padrão de vida razoável e equilibrado. Equilibrado porque ela gastava e ele guardava. Mas, se davam bem e eram o atípico casal feliz. Contudo, o velho Clarke já estava se cansando da opressão da mulher. Ele que em sua infância fora reprimido e cercado de cuidados pela mãe, continuava sofrendo com o autoritarismo das mulheres. Algo como uma sina.
Certa vez, estávamos em uma lanchonete conversando: eu, Clarke, Bella e uns poucos amigos e o narigudo ser começou a cantarolar uma canção, assoviando. Eu e os rapazes ficamos empolgados com a potência, a afinação e a melodicidade do bem servido nasalmente. Todavia, sua sempre simpática esposa lhe fez um sinal inteligível para nós outros solteiros. Ele insistiu. Ela também. Ele emburrou-se. Ela, a quase sempre tão simpática, vencera novamente. Se bem que dizem não haver perdedores entre os amantes. Ou seriam vencedores?
Doutra ocasião, estávamos no Shopping os três e o velho Clarke fez menção de levantar. Ela o deteve com um olhar felino. Eu certamente acompanhava à cena atônito. Ele rosnou e a mulher de sua vida disparou-lhe um dardo letal com um poderoso olhar, levantando levemente o dedo indicador, assinalando proibição. Ele foi se acalmando até dizer que ia ao banheiro. Ela com um sorriso e um leve deslocar da cabeça sinalizou positivamente para o seu amado.
O fato é que ela controlava a vida do meu grande amigo grisalho. Lhe escolhia as roupas, lhe indicava o cabelereiro e o corte de cabelo (exceto channel), selecionava os livros que o outro ia ler, as dietas (visto que temia engordar e o arrastava às privações alimentares), os amigos, os carros e até os biscoitos – algo tão subjetivo. Comia biscoitinhos achocolatados, amanteigados, salgados, vitaminados, quando na verdade tudo o que queria era comer os seus tarecos em paz.
Também não era assim! Ele reagia e a obrigava a tomar mel todas as manhãs, porque era saudável e um imunizante pertinaz. Então, os dois acordavam e, antes mesmo do bom dia, ele lhe enfiava uma colher de sopa de mel e outra de “lambedor” – que chamava de “jurubeba”, pois achava o nome “lambedor” nojento. Além disso... bom, além disso, ele... ele... melhor continuar a história.
Na realidade, aquela situação o incomodava, mas ele ia levando a sua vidinha, trabalhando, lendo e indo ao cinema (ela gostava de cinema). Ele estava disposto a dar umas tapas na dedicada esposa para solucionar o problema, mas ela o chamou para ir ao cinema e mesmo se acalmou.
Foram em uma matinê e as crianças não paravam de gritar, pular e assoviar. Sentaram-se bem atrás: ela com uma coca diet em uma das mãos e um algodão doce na outra. Ele com um pacote de pipocas – que não comia – e uma caixa de 5Kg de tareco venezuelano.
Bellabella ficou indignada com o tumulto e olhava ao redor procurando os criminosos que não paravam de fazer barulho, mesmo com o filme começado. Eram uns fazendo barulho, outros reclamando destes, outros sacaneando estes outros e assim, indefinidamente.
Na magia daquele momento, algo dentro dele se agitou, num misto de raiva e êxtase, algo em seu interior ganiu, rosnou, tossiu e assoviou. E o brado do guerreiro retumbou, qual um tacape na cabeça do inimigo. Ela virou –se para o marido sem entender nada. Achou que estava ouvindo coisas e continuou a procurar os culpados. Afinal, quem iria desconfiar de um distinto senhor grisalho, cabelo muito bem cortado, barba bem feitíssima, camisa de seda e canetas bic (mais baratas)?
À saída do cinema, conservava um discreto sorriso no olhar, mas ao ser interrogado, disfarçou com destreza. Ao se deitarem, pegou no sono antes da companheira amada e ainda envolto na aura de quem houvera vislumbrado a liberdade, externou um sorriso estrelado. A esposa ao perceber o sucedido tratou de acorda-lo aos berros, beliscando-lhe furiosa. Afinal, aquele sorriso era de quem tinha culpa no cartório, alvez até uma amante!
Mas, ele nem ligou, houvera realizado um velho sonho e se tornara o “bichão” conquistador da juventude, apanhando e sorrindo, suplicou à mulher estarrecida:
-         Me chama de “bichão”?!
Ela desmaiou.

3 comentários:

  1. Mais uma crônica de abril de 1997, do livro inédito "Crônicas, contos e outros bichos". E ai, o que achou???

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  2. Hahaha, demais! Esse casal existe de verdade, Sandro?

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  3. Sim, são grandes amigos. Claro que eu exagero um "pouquinho", só um "pouquinho"... =D

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