Viagem tranquila de carro até João Pessoa, capital da Paraíba. O casal está em busca de um momento de paz, longe das rotinas, longe dos problemas. Luís Cláudio estava estressado com o escritório de advocacia que herdara do pai. Muitas dívidas e poucos clientes e por isso estava de mal com Deus. Havia muitos meses que não falava com o “Advogado do Universo” como ele gostava de dizer entre os amigos que não eram advogados. Entre os advogados também, só que com os não advogados, ele se divertia mais. Afinal, na cabeça de Luís Cláudio o mundo se dividia entre os advogados e os otários.
A esposa de Luís Cláudio se chamava Vânia e era dois anos mais velha do que ele. Mas aparentava 10 anos menos. Afinal ela cuidava da pele, “de pêssego”, segundo ela, “de euros”, de acordo com ele. Vânia fazia Moai Tai e drenagem linfática, mas nada de plástica pois detestava agulhas e morria de medo de cirurgias.
O casal chegou faminto após duas horas e meia de estrada e pretendia encontrar com um casal de amigos que segundo eles souberam, estariam no mesma praia de Cabo Branco ou na vizinha. Era na vizinha, como Cláudio saberia e se lamentaria depois.
Na entrada do hotel, a primeira briga do casal. Ele queria emburacar logo no estacionamento e ela disse que era necessário passar na recepção antes. Ela estava certa, ele estava estressado. Aliás como sempre. Depois de passar pela recepção e parar em frente ao estacionamento, ele deu uma ré para “alegria” dos motoristas que vinham atrás e para aumentar a lista de “elogios” à finada mãe do motorista. E já na recepção:
- Pois não senhor.
- Temos uma reserva.
O atendente procurou entre vários papéis. Ele comentou de canto de boca para a esposa:
- Desorganização.
- Psiu.
- Com a tecnologia...
- Tá bom, Cláudiooo!
Quando ela brigava com ele, enfatizava a última sílaba, como num eco seco, estridente e ameaçador. Ele só levantou a sombrancelha esquerda e começou a mascar um chiclete. O atendente ainda não achou a reserva e ousou perguntar:
- Tem certeza que...
- Tenho! Veja no site Broking...
- Hein?
- Broking...
- Booking. – Corrigiu a esposa.
- Ah, tá aqui.
- Podemos subir?
- Ainda não. É que o quarto ainda não está pronto... O pessoal que saiu, atrasou... E a camareira está arrumando... Mas vocês podem sair três horas, na segunda-feira.
O recepcionista tinha a ilusão de que algum dos seus argumentos convenceria o advogado. Em vão. O trabalhador não sabia que o outro, como bom magistrado, só ouvia e aceitava o que lhe era conveniente.
Luís Cláudio remoía mentalmente “Três horas, na segunda-feira... São três horas e eu tô com fome”. Quando ele se preparava para sacar a carteira da OAB e iniciar um escândalo, regado a “Cê sabe com quem tá falando?!”, a esposa interveio:
- Vamos almoçar, o restaurante do hotel parece ótimo.
Eles entraram, mas o restaurante não era ótimo. Era horrível como o aspecto dos seus frequentadores e as tosses e espirros que vinham da cozinha. A comida estava fria, remexida e ruim mesmo.
Resolveu ligar para o Medeiros, seu amigo. Ele estava num quiosque em frente ao hotel dele Medeiros.
- Como é que eu chego aí?
- Pega a direita e anda um quilômetro, no máximo.
Ele foi, enquanto a esposa ficaria esperando o quarto desocupar. Estava sem o GPS, mas andou pelo menos três quilômetros. Ligou para o amigo. Este informou que estava em frente ao Banco do Brasil. Andou mais um quilômetro, aí fez uma coisa que detestava, perguntar. E descobriu que o Banco do Brasil ficava quase ao lado do seu hotel, um pouco a esquerda. A esquerda e não a direita. Pegou um táxi! E voltou para o hotel.
Mais tarde, após um banho e três litros de fanta laranja, portanto bem mais calmo, foi ao encontro de Medeiros e Lucinha sua esposa, e do casal de amigos que tinha vindo com eles, conforme soubera pouco antes por Vânia que ligou para Lucinha.
Chegando no bar em que os dois casais estavam, descobriu que não havia fanta laranja e que, portanto, ele não poderia ficar ali. Medeiros se ofereceu para ir ao supermercado próximo comprar o refrigerante, e o emburrado bacharel topou, até para que o amigo se redimisse do “endereço errado” daquela tarde.
Passou-se algum tempo. Pouco para Vânia. O suficiente para Cláudio. Já de saída, o advogado já se encontrava na rua, comprando uma lata de refrigerante num ambulante, para ir tomando pelo caminho. Foram embora. E quando Luís Cláudio percebeu que a mulher estava com o olhar fixo numa cafeteria resolveu sugerir uma parada para um café. Sabia que a mulher adorava café, mesmo tendo parado de fumar desde que o avô morreu de câncer.
No Café, Júlia aparece. Era uma menina de 8 anos conforme dissera à Vânia. A menina entra e mostra toda a sua “lábia”.
- O casal conversando e eu atrapalhando. Mas, gostaria de pedir que vocês comprassem essa correntinha colorida. Serve pra colocar no crachá, no celular, no cartão de ônibus, no pen drive... Aproveitem a superpromoção! Hoje, só hoje... Uma dessas custa R$ 4,00, logo as duas custam R$ 8,00. Mas na promoção, hoje, só hoje, as duas saem por R$ 5,00. Trata-se de um desconto de 33,33%.
- Como?
- É uma dízima periódica simples.
O casal ficou boquiaberto. Ele lembrou da filha que hoje já estava crescida. Ela pensou nos netos que ainda ia ter. Vânia perguntou:
- Como é seu nome?
- É Júlia.
- Quantos anos você tem?
- Tenho 8.
- Você estuda né?
- Claro!
- E quantos irmãos você tem?
- Tenho 9.
Luís pegou a carteira e após conferir o inteior, comentou, algo cínico, para a esposa:
- Não tenho trocado, você tem?
Ela não tinha. Mas, Júlia tinha. E sacou de uma bolsinha com dinheiro enrolado e amassado. E Vânia perguntou:
- Faturou muito?
- Faturei, consegui até uma “onça”.
Ela não entendeu a gíria, mas o marido apontou a onça na nota de R$ 50,00. A esposa ainda perguntou:
- Tem correntinhas de outras cores?
- Não, estas são as últimas.
Claro que eram. A menina agradesceu e saiu. E o casal ficou como que banhado numa luz diferente, o café lhes pareceu mais saboroso. Ela pensava na senhora de mais de 90 anos que se chamava “Dona Júlia” e cuja primeira bisneta deveria se chamar Júlia, mas que por teimosia dos pais recebeu outro nome. Ironicamente nasceu no dia do aniversário de Dona Júlia. A segunda bisneta foi batizada com o nome da matriarca. Júlia como a menina paraibana da praia.
Ele pensava no mome de Júlia, derivado de Júlio, um imperador romano. Brilhante segundo o seu professor de História do Pré-Vestibular. O fato é que ao contrário do imperador, a brilhante menina Júlia não teria oportunidades reais de sucesso. Na visão dele, a menina estava fadada à gravidez precoce ou à vidinha simples do interior. Ou ao comércio popular nas praias nordestinas.
No dia seguinte, não houve dúvida. Voltaram ao Café para ver a menina iluminada. Apareceu uma dupla de músicos que entoava velhas canções com sotaque carregado. E Júlia? Apareceu um gringo de cabelos brancos que devorava um sanduíche. E até chuva houve. Mas, e Júlia?
Luís Cláudio não conseguia deixar de pensar que Júlia nunca ia ter chance neste mundo injusto e cruel. Lembrou de um professor, no primeiro dia de aula na Universidade que disse à turma:
- Nós deveríamos estar presos por permitir que coisas como estas aconteçam.
O velho mestre tinha razão. E Júlia? Será que nunca... Nunca... Nunca...
Ela não apareceu. Eles saíram. Encontraram uma velha mendiga, mas como de costume ele não deu bola. Não queria incentivar a mendicância, dar o peixe, era sovina mesmo. A esposa, no entanto, o convenceu com o um argumento irrefutável: E se fosse a vó de Júlia?
No céu, a lua mostrava a parte inferior iluminda. Tem um nome pra isso... Lua sorriso.
Bom, resolvi dar um salto no tempo e publicar uma crônica recente, que escrevi nesta tarde, portanto de outubro de 2011. Espero que gostem...
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