Fora um final de semana agradabilíssimo. Fomos os seis inseparáveis companheiros do centro espírita ao fórum de debates que trazia o tema “amor” e nos contagiou à todos. Não fosse por ele (o amor) talvez nem estivesse contando esta nossa epopéia, onde limites foram transpostos, o amor agiu, mas onde – vez por outra – nos mostramos os mesmos de sempre...
Os protagonistas desta estória são: Clarke e Bella (o casal), Marins e Leônidas (pai e filho) e Marcos e Sandro, ou seja, eu. No decorrer desta estória, entretanto, mais lhes será revelado.
O primeiro contratempo ocorreu já vinte minutos antes do início do evento (o Fórum). O meu, entre aspas, carro houvera visitado a oficina mais de cinco vezes nas últimas duas semanas e trazia ainda um problema no disco de embreagem. Como a oficina era próxima do ginásio, onde o congresso se daria, resolvi deixar o carro na oficina e pegá-lo à saída (quatro horas depois). Chegando lá, convidei o mecânico para uma voltinha, objetivando mostrar-lhe o defeito do automóvel. Como o mesmo se encontrava embriagado e quiçá dementado, disse que o problema era em mim e não no carro. Ensandecido, saí da oficina blasfemando, mas alguns minutos após adentrar o auditório do Fórum, recobrei o equilíbrio (ou o desequilíbrio) habitual.
Na hora do jantar voltei à oficina onde constatei que o “problema imaginário” era tão “simples” que para resolvê-lo, o mecânico teve que retirar o motor do carro. Fui até em casa de ônibus e voltei correndo para a segunda parte do evento. Não deu nem para esquentar a cadeira porque Marcos, meu amigo, passou mal e tivemos que bater no pronto-socorro do hospital público, que reflete bem o respeito que a nossa sociedade tem pela dor alheia...
No segundo dia do evento, na parte da manhã, chegamos só quinze minutos atrasados porque fomos com os Marins – quase um Record. O Marins pai era amante da computação e de pizza com borda de catupiri. Beirava os quarenta anos e mantinha os cabelos absolutamente despenteados. Quanto à pontualidade, digamos que ele era o único ser na face da terra menos pontual do que seu filho, Leônidas.
Leônidas era especialista em mangar, malhar, sacanear e gargalhar. Para tanto, a natureza lhe concedera uma bocarra considerável e dentes perfeitos. Seu hobby era colecionar palitos de dentes (todos usados).
E Marcos, antes que eu me esqueça de novo (visto que já esqueci no parágrafo anterior ao anterior) era grandalhão e canhestro (desajeitado). Além disso, era manso. Afinal, se não o fosse, quem descreveria assim um homem de quase 1,90m e aluno de karatê por três semanas e ½, quando fazia a 6ª série?
Quando as palestras da manhã do sábado acabaram fui até a oficina e peguei o pseudo-carro de volta. Marcos resolveu ir de carona com Marins para não ter que andar até a oficina, o que talvez não tenha sido boa idéia, afinal, o Bat-móvel, veículo da família que causara risadas a dezesseis donos de ferro-velhos, lhes apunhalou logo na saída do estacionamento. O problema? Algo simples: a roda dianteira esquerda resolveu dar uma voltinha, talvez para fugir aos maus tratos.
No sábado à tarde, eu, Bella e a risonha Eva fomos juntos fazer um curso sobre Diálogo Fraterno, ou seja sobre a recepção e a orientação de visitantes ao Centro. Um dos quesitos para ser um bom orientador pôs toda a minha radicalidade à prova: ter mais de 25 anos. Eu não tinha! Foi o suficiente para as “meninas” pegarem no meu pé. Na saída, fomos tomar uma água de côco:
- Hei Sandro, você não vai pagar?
- Não, paguem vocês, eu tenho menos de vinte e cinco – rebati, ensaiando uma vingança. Me despedi e fui em casa.
Quando retornei do jantar, para as atividades da noite, encontrei o grisalho Clarke mastigando freneticamente um chiclete. O que só fazia nos momentos de tédio mortal ou profunda irritação, visto que mordia pertinazmente a língua e os cantos da boca. Desta vez o motivo não era tédio. Nem tinham roubado nenhuma de suas tampas de caneta, visto que não as emprestava. Afirmava que ninguém rouba uma caneta sem tampa, se não, mancha a camisa ou a calça. Na dúvida, como homem “prevenido” que era, só usava canetas populares, para minimizar possíveis perdas e assegurar a solidez da economia. Mas o motivo da irritação de Clarke, naquela noite, era ter sido grosseiro. Cansado de esperar o seu sanduíche, rompera cozinha à dentro e só saíra com o alimento na mão. Todavia, como era espírito em evolução, chateara-se com sua atitude. Resolveu, então, dar um ponto final naquela situação. Levantou-se, deu uma gorjeta ao garçon e partiu, novamente, para a cozinha. Lá se explicou nestes termos:
- Pero que sin, pero que nom, invadi a tua praia... – O cozinheiro sem entender muita coisa, lembrou-se do irmão que vivia em Goiás e que não via há sete anos, e beijou-lhe a mão. Recebeu em troca um cafuné.
O dia de domingo transcorreu tranqüilo, exceto pelo meu telefonema, na hora do almoço, para a minha namorada:
- Alô.
- Alô.
- A palestra só acaba às oito.
- Oito? Tão tarde.
- É.
- É! Você vem aqui?
- Não vai dar.
- Tudo bem.
- Tudo bem mesmo?
- Tudo.
- Como “tudo bem”?! Você não sente a minha falta?
- O que você quer que eu faça, te obrigue a vir aqui?! Então tá, venha aqui em casa!!!
- Não.
- Por favor.
- Assim não vale. Só porque eu falei!
- Deixe de besteira, venha!
- Se quiser me ver, você sabe onde me encontrar.
- Ôu!!!
- Tchau.
- Se quiser aparecer...
- Não vou aparecer.
- Mas, se quiser, apreça. Um beijo.
- Beijo.
Horas depois, novamente imerso no ambiente do Fórum, ligaria para ela e faria as pazes.
O fato é que fora um final de semana conturbado, cheio de problemas que – criados ou não – nos testaram, testaram o nosso “amor”.
Na 2ª feira, após terminar o Evangelho no lar, percebi que crescera muito. Mas não o suficiente para desperdiçar uma oportunidade de vingança contra um inimigo atroz do fim de semana: um pernilongo. Esmaguei-o com minhas próprias mãos, punindo-o pelas noites de tortura. Aí, a paz tornou a reinar, e o amor suspirou aliviado...
Crônica de abril de 1997...
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