Vinte e uma horas e quarenta minutos: horário em que quase pontualmente estávamos chegando a pizzaria para começar nossa tradicional pizza das quintas-feiras. Saíamos do Centro e nos dirigíamos os seis para lá.
Geralmente eu e o Marcos – em meu fusca, o “sapo albino”, por nome Joe II – chegávamos primeiro. Os outros ficavam ainda conversando.
Naquela 5ª feira não foi diferente. Estacionamos o carro e esperamos alguns minutos por Marins, que pilotava o “Batmóvel” – carro que desafiava as leis da Física, pois ainda andava. Em seguida, chegou Leônidas em sua moto; se atrasou porque houvera esquecido de colocar gasolina, tendo que fazer uma parada de emergência. O casal Clarke e Bella chegava, como de costume, por último, porque o argentino era tão metódico que fazia o mesmo caminho (mais longo) há oito anos, não ousando nem uma mudança de marcha fora da programação.
Acomodamo-nos todos – ou quase todos – enquanto Leônidas tirava as suas luvas e empilhava coisas sobre a mesa, como o capacete, a pochete e seus frascos de remédio. O “quase todos” é porque eu ia direto para o lavabro e só depois de examiná-lo minunciosamente, tornava ao convívio do grupo, já que era diabético psicológico e urinava com freqüência incomum.
O nosso era um grupo bem sui generis, visto que saía do árduo e gratificante trabalho da Casa Espírita para comer pizza, tomar refrigerante e conversar longamente. A conversa, como é de se supor, nem sempre era “edificante”. Rolava em torno de Espiritismo, a difícil missão de ter irmãos e a teoria da jurubeba (“lambedor”), desenvolvida por Clarke. E era um grupo bem eclético:
Marins, margeava os quarenta anos, tinha cara de índio, olhos pequenos e um sorriso esfíngico. E, sobretudo, era despenteado, convictamente despenteado. Tanto assim que, quando a sua esposa Maria (pequena e culinária) o viu chegar em casa penteado, esbravejou: “Vou pra casa da mamãe, assim não dá!”. Ela não foi, pois já era tarde, mas ele teve que dormir no sofá da sala. E Marins voltou a manter os cabelos naturalmente despenteados ou “marinizados” (vocábulo mais atual).
Seu filho mais velho era Leônidas, singular figura. Estudante do curso de Psicologia, dera vazão à sua curiosidade científica. Viciado em Afrim, Sorine, Aturgil e outros descongestionantes, era o obsessor encarnado de Marcos. Contestador, solucionara o problema da dominação autoritária de Bella em relação ao marido, ao chamar o mesmo de “Bichão”, despertando-o para a liberdade.
Marcos, trazia sempre Carla para a mesa, mesmo quando não fisicamente. Ele e sua namorada eram suavemente criticados pelo seu comportamento excessivamente apaixonado. Sempre pronto a dar palpites, Marcos – quase sempre – aceitava as induções obsessivas glúteas, empetradas por Leônidas. Nada comparado às vinte e uma fatias de pizza da sua puberdade.
O grisalho Clarke era extremamente tímido, porém divertido. Espirituoso e bonachão, ostentava um nariz nos moldes latinos, modelo francês ou italiano, portanto grande. O “grisajo” Dom Clarke era argentino, casado e dominado pela pintosa Bella. Sua sovinice era inconteste. E sua meticulosidade cirúrgica o fazia um raro exemplo de pontualidade e disciplina, com o charme do sotaque “paraibano”.
A pintosa Bella tinha uma hispânica pinta no rosto e um porte atlético, apesar de já ter vinte anos no centro espírita, quando chegamos. Buscava obsessivamente manter-se em forma, temendo tornar-se protuberante. Viciou-se desde cedo em gelo, obrigando o seu esposo “arrentino” a ficar com os limões das duplas cocas com limão e gelo. É claro que o mesmo aperfeiçoou o vício, passando, com o tempo, a engolir as rodelas, sorrindo e sem mastigá-las.
Eu era conhecido pela minha radicalidade. Aos vinte e poucos anos era bonito, inteligente e já muito mentiroso, como todo bom professor. Bastante observador e irônico, escrevia crônicas, músicas, poesias, imitava, resmungava e sacaneava. Possuía idéias meio polêmicas – chamavam-me “infiltrado” – e tinha uma tendência quase irresistível a ser do contra. Era amareláceo como Clarke e Leônidas e às vezes (quando não usava gel) aparecia com o cabelo ligeiramente marinizado. Coisa de amador, “muito fraquinho”, segundo o julgamento do mestre maior do despenteio.
Mas, retornando àquela 5ª feira, iniciou-se o estranho ritual, que daria o pontapé inicial à nossa grande noite: a indecisão sobre qual o sabor de pizza iríamos pedir.
- Pede de banana – disse.
- Mas, banana é horrível – retrucou Marcos, enquanto Bella achava graça.
- É que aquela banana (da semana passada) estava verde e sem canela.
- Será que hoje tem banana? – perguntou Marins, apaziguador, já que quase nunca tinha.
Eu desisti da idéia de pedir este sabor, porque a maioria dos lugares não sabia fazer uma boa pizza de banana. Por isso, anos de revolta depois, eu abriria uma pizzaria chamada Ban Ana, freqüentada por um grupo de apreciadores da especiaria, bastante seleto: um cunhado, dois amigos gays e três ex-mulheres a quem eu houvera viciado na pizza de banana.
- Pede qualquer coisa, mas pede logo! – tornei.
- É, escolhe logo – disse o Marcos.
- Presunto – sugeri.
- Não, presunto é carne de porco.
Marins optou:
- Pede meia de Quatro Queijos.
A outra metade acabou sobrando para Leônidas escolher, como sempre, e isto – é claro – levou tempo. O argentino indignou-se e mordiscando um belo limão, pronunciou-se, dando seguimento ao nosso ritual. Antes, porém, desenrolou o cordão dos óculos, como sempre fazia nos momentos solenes.
- É sempre a mesma coisa. Pedem Quatro Queijos, ou Cinco Queijos, e outra. Aí comem a de queijo e a outra sobra!
- E o pobre do Marins – fez a Bella imitando o nosso sotaque carioca – que pede a Quatro Queijos, acaba não comendo. – Terminou a frase rindo, como de costume.
Porém desta vez tudo acabou bem. As fatias de pizza foram comidas sem distinção, sem titubeio. Teria a Espiritualidade interferido? Teríamos nos curado de nossos ímpetos psicóticos? O Fluminense teria, enfim, contratado um jogador apenas ruim?
Nada disso. Havíamos pedido uma pizza inteirinha de Quatro Queijos. Graças a perspicácia de Mr. Clarke e sua análise clarkeana, havíamos nos livrado desse ímpar dilema.
“Fantástico!”
Crônica de março de 1997 ainda do livro inédito "Crônicas, contos e outros bichos".
ResponderExcluirE-MAIL DO PRÓPRIO CLARKE, O QUE MUITO ME HONRA...
ResponderExcluir"Sandro não consegui mandar para o blog, como já está escrito vai agora.
Comentarius para o Blogus de Plubius Sandranius ou Saramagus Opostus ou Sotaquis Teimosus (como diriam aqui, EiiTA! Sotaque feito de 98% de cola Super Bond, o cara ou a cara, nasce no Rio, aos 11 anos chega ao nordeste, idade em que poderia trocar (de acordo com o pais de destino) e sem perceber, o idioma português pelo russo, tailandês ou até o chinês (este mais na moda), assim chegar aos 17 anos e até ter esquecido o alfabeto latino, mas, os incluídos no grupo Teimosus (todos menos 2%) mantêm ainda atravessada na garganta uma pedra da calçada da lindíssima Copacabana), ou também conhecido como Criticius Maldosus, ou Provocadoris Pentelhus.
Primeiro vamos esclarecer a quem possa estar lendo que não foi uma ‘teoria’ e sim interpretação, análise e a tentativa de explicar um ‘fato’, e parar com uma teatralidade repetida todas as quintas.
Se fosse uma tese para um doutorado em Sociologia, Biologia etc estudando o “Comportamentus Humanus” a hipótese seria mais ou menos assim: “Para os que são doutrinados pela mídia manipuladora de mentes frágeis; em estando à frente do grupo (buscando status) pede o que foi assimilado subliminarmente, mas... quando às escondidas (na mistura de mãos pegando com infinita velocidade os pedaços de pizza, e mastigando, ou não? mas, engolindo com voracidade de carnívoro) pega o que o ‘condicionamento pavloviano’ lhe fez despertar nas células gustativas”.
Apostando no ‘fato’, diria que alguns deles fazem parte do grupo que hoje comem com palitos; muito mais “cômodo”, “ágil” e “prático” que comer com garfo, bom ... talvez não seja verdade, mas que dá status, dá pra caramba. O interessante já começa enquanto vai tirando os palitos do envoltório e ajeitando o prato, perceber como de soslaio está observando todos ao seu redor para ver se o observam e admiram. Quem come com palitos (tem outro nome mas, sinceramente não me lembro, ou nunca soube), enquanto pega a comida e leva até a boca nem se meche, inclina o pescoço para frente, respira fundo, junta bastante saliva - acho que sabe quão saborosa é a iguaria – e olhando concentrado para o braço e mão coloca a comida dentro da boca, ainda empurra um pouquinho – tem medo que a folha verde que geralmente envolve a porção grude no palato – os mais hábeis e corajosos, molham em um molho e grudam alguma semente, tipo gergelim ou similar, neste caso, a quantidade de saliva necessária é muito maior porque uma dessas sementinhas poderia grudar na garganta, o que não seria muito cômodo, e menos ante o público que está admirando.
Além disso, a comida está crua, neste calor, certeza que não há possibilidade alguma de atentar contra a saúde, muito saborosa, saborosa mesmo, se percebe pela cara de satisfação, os gestos espontâneos, nada forçados, mastigação tranqüila e ritmada, por momentos se percebe algum gesto como se estirasse as bochechas e tentasse colocar a mandíbula a um lado, esquerdo ou direito dependendo onde grudou ou ficou travada entre dentes, gengivas e parte interna das bochechas a porção, mas isso provem de um ritual dos samurais, está detalhado no BUSHIDO (uma espécie de bíblia onde estão entre outras coisas códigos dos samurais), para quem nunca viu veja que é quase igual a quando se come um brigadeiro, e tão saboroso quanto.
Agora esperamos ver se o Fofoquerus Perseverantis vai mostrar (foto) alguém do antigo grupo saboreando a comentada iguaria.
Muita Paz"