Peixoto não tinha o pé chato, mas era tido como chato. Motivo? Era coordenador do Colégio Pedro II, no Rio. Temido e detestado por grande parte dos alunos, era amado por uma parte ainda maior de ex-alunos. Possuía o perfil ideal para o cargo: estatura mediana - o que lhe dava agilidade e desenvoltura - cabelos grisalhos, desde os vinte e cinco anos , que impunham respeito, habilidade com a pelota, sendo capaz de interromper um jogo fora-de-hora fazendo embaixadinhas até a coordenação, e um nariz monumental, que com o correr dos anos perdeu a companhia do “bigodinho anos trinta” (já totalmente branco) e complementou-se de um óculos considerável.
Com sua larga experiência educacional, havia desenvolvido uma teoria: a dos nomes. Acreditava que estes influenciavam no comportamento dos alunos. Sobretudo, no dos adolescentes.
A primeira vez que vislumbrou tal conexão, foi quando investigara uma quebra de carteiras em uma turma de sétima série, e asseverou: “quem fez isso foi um bicho!”, e mais: “toda bagunça tem um cabeça”. Não deu outra, os alunos “bicho” e “cabeça” foram indiciados. Daquele momento em diante, os alunos passaram a evitar tais apelidos. Estes, que são por vezes, nomes da maioridade. Todavia, os nomes, estes não podiam ser mudados.
No penúltimo ano antes da sua almejada aposentadoria, Seu Peixoto analisava as listas com os nomes dos alunos, e encontrou nomes interessantes. Um deles chamava-se “Bruno Souto”. “Souto”, pensou ele, “se estava preso boa coisa não era”. Não deu outra: logo Bruno Souto ficou preso em casa por uma longa temporada.
Havia um aluno cujo nome indicava a sua indecisão: “João Maria”. Já no final do ano letivo, Seu Peixoto, sempre vigilante, pode comprovar mais uma vez seu teorema. O referido aluno entrou em um dos sanitários e deparando-se com dois mictórios mostrou-se indeciso, e verteu água no meio dos mesmos. Nosso educador a tudo assistira de uma das cabines e concluiu que o aluno “derrubava água fora da bacia”.
Outro caso foi resolvido - naquele que parecia ser um ano brilhante - o do sumiço de uma carteira, contendo uma nota de um dólar, cinco figurinhas da copa, uma ficha, um telefone e uma foto da “mamãe”. A vitima: Inocêncio, que obviamente não era “de Oliveira”. Seu Peixoto passou os olhos na lista e identificou um suspeito, mas para não acusá-lo sem provas, baseado em apenas uma teoria (brilhante, mas uma teoria), procurou alguém capaz de apontar o gatuno. E, este delator, foi exatamente a aluna Aldry Fidelis - que, como o nome indica, era fiel ao educador. E assim o aluno Rodrigo Furtado foi investigado e pego em flagrante quando chantageava “mamãe” para devolver a foto.
Mas, eis que o velho ancião teve a maior decepção da sua carreira naquele ano. Havia roubo e tráfico constante de figurinhas, empregadas nos jogos de “bafo” e usadas como moeda no colégio. Vários alunos foram investigados como possíveis líderes do bando, mas nenhum deles era “dono do tráfico” das preciosas figurinhas. Assim, os alunos “Plínio Raposo”, “Aline Falcão”, “Astolfo Maluf”, “Leonardo Figueiredo” (ele gostava de cavalgar nas carteiras, somente as brancas, e não tirava o seu “ray-ban”) e o “Lucrécio Lobo” foram todos inocentados. Maria Aparecida quis ser investigada também, pois gostava de se exibir, mas não era ela a culpada.
Já no dia do resultado final, quando os alunos passavam a amá-lo porque ficariam um bom tempo sem vê-lo, Peixoto percebeu que um aluno, ao abraçá-lo, “bateu” sua carteira. Como estava rodeado por muitos, não pode identificar o larápio.
Entretanto, a aluna “Maria Auxiliadora” lhe aparece com a sua carteira. Ela a havia encontrado próximo à cantina. Para surpresa do Seu Peixoto, nada havia sido tirado, exceto as figurinhas que comprara para seus quatro filhos. E, dentro do pacote, encontrou um bilhete de um aluno concluinte: “Oi narigudo otário, Zé Mané, fui eu.” E assinava “Amâncio Carneiro”. E o homem senil vociferou: mais um lobo na pele de cordeiro!!!
Esta crônica é de fevereiro de 1997. Espero que vocês gostem...
ResponderExcluirHahaha, adorei!
ResponderExcluirImagina só se Mário Sérgio adota essa tática (in)falível.
KKK Acho melhor não!
ResponderExcluirHum... saudade do velho pátio empoeirado e das carteiras-mesa de madeira...
ResponderExcluirAss: O Dedo Duro!