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sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Nossa Esposa

Há seis meses que eu e meus companheiros estávamos integrados à “Casa Espírita dos Trabalhadores de Pulso Firme”. Após percorrer vários centros, templos, casas e igrejas, foi lá que nos encontramos.
Leônidas, o mais jovem do grupo, margeava os vinte anos, era estudante de psicologia. Leitor espírita desde tenra idade, havia desenvolvido um senso crítico bastante aguçado.
Marco, quase da mesma idade, era o mais jovem na doutrina, possuindo ainda o ar de empolgação e de contestação iniciais. Este estudava fisioterapia e era de uma serenidade quase iogue.
Marins, com o dobro da idade, era funcionário de uma estatal e antigo leitor da literatura espírita. Todavia, só há alguns anos, decidira levá-la a sério. Sua inteligência privilegiada, também lhe conferia um quinhão de criticidade.
E eu, que era estudante do curso de história, mantinha-me na casa dos vinte anos. Antigo freqüentador da umbanda, há pouquíssimo tempo me “convertera”, e tinha, portanto, um senso crítico considerável.
Fato é, que dentre os vários oradores que falavam à casa espírita, um se tornou um exemplo a seguir. Relativamente jovem, possuía uma linguagem coloquial, objetiva e direta. Era de estatura baixa e possuía alguns distoantes cabelos brancos.
Ênio era uma figura ímpar nas lides espíritas. Possuía um “jogo de cena” todo especial. Seus trejeitos quase caricatos faziam dele uma mistura de Roberto Carlos e Sílvio Santos. Por vezes, segurava o microfone colado ao ombro esquerdo e girava o rosto para o mesmo lado. Quando sorria, parecia que vestia uma fôrma e consolidava um facies cibernético e contagiante, convidativa às gargalhadas que aliviavam as tensões.
É claro que apenas nós - pelas peculiaridades de nossa biografia - conseguíamos entrever toda essa genialidade de Ênio, ou “Sílvio Santos”, ou “Emoções”.
Apesar das derrapadas doutrinárias, justificadas pela acessibilidade do colóquio, o nosso amigo conseguia divertir o mais carrancudo e problemático visitante. Expressões em pseudo-inglês como “meu love”, viabilizavam a transferência da teoria mais complexa.
Ao inquirir a algum assistente sobre o assunto exposto e constatar o equívoco da resposta, o expositor se solidarizava com o companheiro: “- É, meu irmão, segundo Kardec, estávamos errados.”
Se não autor, pelo menos, transmissor de expressões do tipo “J.K.”, que significava “Jesus e Kardec”, ele era esperado com ansiedade. Sobretudo, por mim, que quase sempre era escalado, na mesa, com ele.
Mas, o ponto é que, ao seguir as orientações doutrinárias, ditadas pelos espíritos superiores, Ênio nunca usava a primeira pessoa do singular: eu. Em alguns casos, o “nós” é fundamental, mas ele o fazia definitivo a ponto de dizer “nossa cunhada”, “nossa sogra” e “nossa esposa”. Só não pegava mal porque estávamos no centro espírita...
Certa feita, chegou atrasado e se justificou:
“- Chegamos atrasados porque o nosso carro ainda não é turbinado...” , pior seria se dissesse que o nosso carro havia sido roubado. Contudo, o que causaria pânico aos “motorizados”  da reunião, ficava engraçado.
Às vezes nos encontrávamos conosco, ou seja, com ele, fora da casa espírita e conversávamos sobre espiritismo, é claro.
- Quando é que vamos conhecer a sua casa espírita? inquiriu uma companheira. E eu corrigi:
- Quando vamos à nossa casa?
- Ah, agora entendi...
Mas a vida às vezes é irônica, e num certo dia eu tomei um grande susto. Caminhava pela avenida Rio Branco e  me deparei com o nosso “Sílvio Santos”  na parada de ônibus ( se fosse Manoel Philomeno de Miranda, escreveria: “no local onde tomava condução, imerso em devaneios salutares, estava o confrade Ênio, à espera do coletivo”) e encontrando espaço em meio à multidão que se acotovelava, cheguei ao  seu lado e inquiri: - Como é que vai a “nossa esposa”? – com a maior inocência concebível. Entretanto, ele se virou de súbito, olhar carregado, pulsos cerrados, respiração acelerada, dentes reluzindo e olhos flamejantes. Segurou-me pela camisa, para evitar que eu fugisse a ouvir umas verdades, mas - segundos depois - me reconheceu. Abriu um gostoso sorriso e me convidou ao café. Eu, que há três anos não tomava café, tomei-o com voracidade. E quente! Quente como os de rodoviária...

3 comentários:

  1. Esse texto é de janeiro de 1997 e, também do livro inedito "Contos, crônicas e outros bichos".

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  2. Querido Sandro, parabéns pelo blog! Ler novamente “Nossa Esposa” me fez lembrar dos felizes dias que compartilhamos em “nossa casa”, dos amigos do centro, a organização dos chás, o ENCENA... boas lembranças prá se guardar no coração! Um grande abraço. Paz e luz!

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  3. Valeu, Valdinha! Também tenho saudade daqueles anos 90, mas cada fase nos dá novas oportunidades e temos que aproveitá-las. Lembro que foi você que começou a digitar o "Contos, crônicas e outros bichos". Se não fosse por você, estes textos talvez nem existissem mais.
    Bjo.

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