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sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Volatização

Brito era um cara legal, mas era muito lento. Fazia tudo com extrema vagareza. A turma achava graça, sacaneava, isso, é claro, quando não tinha marcado hora com ele...
Na escola, sempre a mesma rotina: chegava atrasado para todas as aulas, entregava todas as atividades por último, e só percebia que não entendia determinada matéria lá prá noitinha, assistindo ao Globo Esporte (e estranhando o atraso do programa ao entrar no ar).
Sua lentidão era uma questão polêmica. Dizia-se mesmo que política, mulher, religião e a velocidade do Brito não se discutia. Mas havia sempre aqueles momentos na mesa do bar em que na falta de algo mais útil, se debatia o assunto.
Era uma sexta-feira, trinta e sete chopps e oito pessoas da noite, e o tema veio à tona:
- O Brito é tão devagar que... hic! Nasceu prematuro!...
- Como prematuro? - perguntou um moreno carregado e fã de mortadela.
- Prematuro com onze meses de gestação. Mas como era ele, só tinha um bolo de oito ou dez células - disse um nareba, dando tapinhas nas costas do Brito.
Daqui a pouco, um com bossa de intelectual arrematou:
- Bebe logo, Brito, que teu chopp tá evaporando...
- É o processo de volatização do saccharomyces cerevisiai - detonou um outro que não bebia, era lido em freud e viciado em “afrim” (“não é ‘afrim’, é  ‘sorine’ ou ‘aturgil’”).
Em meio às gargalhadas, o nareba repetiu os tapinhas, que já não eram tapinhas, devido ao efeito etílico. E entoou cânticos:
- Ié, Ié.....IéIéIé.
A chacota continuava, mas o Brito não  esquentava. Só bronqueou quando quiseram gravar um CD  em sua homenagem (?) , com um rap biográfico.
Por outro lado, os amigos também tinham seus problemas e solucionavam marcando, por exemplo, a “pelada” do domingo uma hora antes para o Brito. Que ainda chegava atrasado.
- Foi o ônibus ... (morava três quarteirões da quadra).
Mas, quem mais sofria era a mãe do Brito, Dona Francisca - que por vezes se valia de luta corporal para acordá-lo. Não que o Brito fosse irresponsável, é que ele era capaz de ficar deitado até as quatro da manhã, sem pegar no sono. E de dormir com um copo de vinho na mão e só derramar o conteúdo três horas após ter acordado. Mas isso não vem ao caso.
Passou o tempo e o Brito estava com o casamento marcado, no civil e no religioso, noiva de véu e grinalda e padrinhos tirados dos mais ricos da turma, tudo como manda o figurino.
Finda a despedida de solteiro, seus companheiros ficaram de prontidão à sua casa para evitar que ele se esquecesse do compromisso singular. E com todo esse aparato, Brito chegou só uma hora e meia atrasado. Depois da noiva, claro.
Bouquet, cumprimentos, bolo, champagne, carro, hotel, elevador, quarto, cama...
A noiva vitoriosa estava ansiosíssima, depois de oito anos de namoro e cinco de noivado. Brito desembainhou a espada, mas ... nada.
Três dias depois a vitoriosa liga desconfiada para a mãe e a genitora diz para a recém-casada segurar a onda. E, para se acalmar, rezar um terço para Stª Maria Madalena (com todo o respeito à Santa).
No sexto dia de lua-de-mel, o recém-casado sentiu alguma coisa. Chamou a noiva pelo celular (tinha ido comprar velas). Quando a vitoriosa adentrou o recinto (o quarto) ele pediu um anti-ácido. Era a gastrite.
No décimo-sétimo dia, quando a vitoriosa estava com uma corda e um banco no banheiro, eis que “el britadeira” avançou sobre ela e “lavou a honra com sangue”.
Uma vez iniciado o processo, era óbvio que levaria tempo para terminar. O que era ótimo, pois a vitoriosa já estava subindo pelas paredes, de costas e batendo palmas. O único inconveniente é que Brito não podia dormir de bruços e nem vestir calças justas.
Brito tinha trinta dias de férias, e pontualmente, no  trigésimo-quinto dia após o casamento, ele foi trabalhar. Com um sorriso que durou até o fim do mês e um cigarro atrás da orelha (não fumava).

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