Após a brilhante palestra de Divaldo P. Franco em nossa cidade, nos despedimos do grande grupo e fomos em direção ao carro, ou melhor, ao fusca. Você pode ter mercedes, chevettes ou fiats, que os chamarão de carro. “Pode deixar que eu dou uma olhadinha no carro” ou “Podemos ir no seu carro?”. Mas, fusca, é “fusca”.
Bom, o fato é que o tráfego de carros era intenso demais para uma saída. Como teríamos que esperar ainda uns quinze minutos, tornamos ao saguão para propormos a tradicional pizza. Porém, constatamos que o casal Edu e Bella já havia ido embora, então resolvemos cancelar. Mas, eis que na segunda saída, vislumbrei o casal em marcha lenta no meio da multidão de carros. Foi o primeiro “sinal” da noite. Corri até eles e gritei: “pizza!”, e estes me responderam com o nome da pizzaria.
Lá estávamos: Bella, Leônidas e Carla - de um lado, Marcos, na cabeceira, depois eu, Marins e Edu. Mas, a pretexto de estar muito isolado, Marcos pediu para sentar em meu lugar e me jogou para a outra cabeceira, entre Bella e Edu. Este - saberia mais tarde - seria o segundo “sinal” da noite.
Marcos, alto e sereno era estudante de Medicina, tal como sua namorada, Carla. Esta, morena e sorridente, engatinhava na doutrina dos espíritos. Leônidas, dotado de uma intelectualidade transbordante, contrabalançava-a com um humor bem juvenil. Conversavam os três animadamente. “O que foi ótimo”, pensei eu horas depois. Afinal eles, por certo se colocariam, ideologicamente, em contraposição aos meus argumentos.
Nós saíamos todas as semanas para discutir o espiritismo, nossa casa espírita, eventos, problemas particulares e coisas afins. Só que desde que eu me convertera ao Kardecismo (era umbandista), nossos pontos-de-vista eram semelhantes acima do razoável, ou pareciam ser. E as discussões giravam em torno de se ser mais ou menos crítico, mais ou menos tolerante. Longe de conseguir transcrever todo o nosso diálogo daquela noite, esforço-me por rememorar as idéias principais, sem me furtar a uma certa parcialidade.
A contraposição de idéias com pessoas mais experientes, mais lidas e intelectualmente tão desenvolvidas era quase um suicídio, mas aconteceu:
- Eu não acho que a nossa religião seja a melhor, disse-lhes.
- Não, melhor não é, mas é a mais completa - Retrucou Edu, com seu sotaque argentino.
- Eu discordo.
- Mas, como?! Qual é a mais completa então? - insistiu o simpático grisalho cinqüentão. E Marins, sempre manso em seus comentários, completou:
- Que religião tem uma visão tão ampla da vida, das coisas?
- Prá mim, prá você. prá nós: o Espiritismo. Mas, e para os outros? Eu não conheço bem as religiões orientais...
- Por tudo que eu já estudei das religiões e seitas orientais, não há nada tão abrangente quanto a doutrina dos espíritos - afiançou Bella, com o tradicional ar maternal. Sua aura hispânica, por certo, fizera o cobiçado argentino sucumbir.
- Que outra religião tem uma literatura tão vasta, tão ampla, que trata de todos estes assuntos? - tornou Edu.
- Nenhuma. Que eu conheça, nenhuma.
- Isto, é falsa humildade! - insistiu
- Não, eu realmente acredito nisso. È assim que eu vejo as coisas.
- Então, você não é espírita, não acredita em reencarnação, em...
- O que é para mim, não tem que ser pro universo, não tem que ser a verdade. Não sei se estou ou não obsediado, mas eu sempre pensei assim.
- Que você foi padre, você já sabe. Mas, foi pastor, também. - confidenciou-nos Bella, a partir de uma visão espiritual.
- “Infiltrado”. É um “infiltrado”, asseverou o convicto argentino.
Aí eu respirei fundo e tentei fugir do clima acalorado da discussão, mas tornei:
- Existem alguns aspectos em que outras religiões são mais completas.
Ao que Marins, sempre tranqüilo e racional nos comentários, questionou:
- Quais aspectos? Nós estamos tentando te convencer. Agora vamos fazer ao contrário: argumente!
- Existem pontos. Mas eu não sei quais aspectos. talvez, por falta de leitura.
- Não é falta de leitura não, e nem falta de capacidade de argumentar. É que você não é espírita. Ainda não se convenceu - disse Edu.
- Eu sou espírita, se não fosse, não precisava dizer que era. Acho que só quando escrever o livro, vou poder me explicar - tentei descontrair.
- “Infiltrado!”, é um “Infiltrado!”.
Após mais de uma hora de discussão eu me sentia cansado. Sabia que era impossível convencê-los ou ser convencido naquele instante. Marins, que aparentava a metade da idade, mantinha um sorriso Mona Lisesco e procurava em sua imprevisível pasta algum colóquio da internet capaz de afiançar a sua tese. Edu continuava com o mesmo aspecto carrancudo de quando o conhecemos, e não tínhamos intimidade, entrecortado de espasmos de sorrisos. Repetia para si mesmo: “Infiltrado”, enquanto comia um tareco. Bella queria acalmar os ânimos, mas há alguns minutos havia estabelecido contato com nossos amigos espirituais e apresentava um olhar vago. Foi nessa brecha que eu - com a cara, provavelmente péssima, sugeri:
- Vamos pedir a conta? - e pedi.
Essa palavra fez tornar a atenção de Marcos, Leônidas e Carla para nós outros.
Bella tentou explicar o que acontecera e fez uma apologia ao espiritismo. Posteriormente, Leônidas fez uma ode à causa e eu agradeci a Deus por tê-lo mantido longe da celeuma. Eu, Marcos e Carla fomos embora. e os demais ficaram à porta da pizzaria em conversação moderada.
Ao chegar em casa estava feliz e sem nenhum rancor. Feliz porque não havia perdido a capacidade de contestar. É claro que naquela mesa, perdera para a lógica. Mas mantinha e mantenho a minha convicção (hoje, dez dias depois do acontecido).
Sou espírita, porque esta doutrina me completa. Mas, me recuso a admitir que ela seja a mais completa. No máximo, tão completa quanto, porque há muito que desconhecemos. Há muito que desconheço e sei que muito tem por nos ser revelado, no momento em que estivermos prontos. Os que nos ensinam fazem como Moisés, ou Cristo, simplificam as coisas. E se sou “infiltrado” ou não, pouco importa. Decerto, eles continuam me amando, e eu a eles - meus verdadeiros “companheiros de jornada”...
Esse texto é de fevereiro de 1997. Não reflete necessariamente as minhas opiniões, hoje, 15 anos depois, mas achei interessante colocar. Até porque neste Blog pretendo lançar o meu livro que está engavetado desde que os bichos ainda falavam... latim.
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