Páginas

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O Homem de Nazaré

Nazaré é uma pequeníssima cidade do interior do Estado de Sergipe. Essa cidadela é cortada pelo franzino Rio Santa Cruz.  E nada mais propício para albergar a trama crística, do que os desertos do nordeste brasileiro.
O fato de muitos autores, ao longo de seis mil anos, terem escrito e reescrito a vinda do Messias à terra, não invalida esta minha tentativa. Que espero não seja ímpar só pelo conceito filosófico (se houver), mas pela sua despretensão. Não pela verve literária, mas pela idéia. Até porque eu sou um  imortal   “ mortal ” ...
O texto bíblico nos assegura que haveria “muitos Cristos e falsos profetas”. Talvez eu seja um “falso profeta” ou um “profeta falso”, e mesmo não tendo a originalidade de um João Ubaldo, quero contar esta estória sobre o Homem de Nazaré.
Nesta cidadezinha, isolada em tempo e espaço, nasceu uma criança singular, filha de um carpinteiro alcoólatra e de uma jovem e raquítica lavadeira, que ao passar tanta fome, nos fez considerar um milagre ter sobrevivido ao parto. A criança, desde a mais tênue idade, falava aos sacerdotes e fiéis de todas as religiões. Apontava desvios e propunha caminhos, com uma propriedade absolutamente incomum à sua idade. Poucos eram os que tinham a humildade de ouvi-lo e calar-se ante as verdades. Chamavam-no louco, obsidiado, possuído, endemoniado, ao que retrucava: “a verdade cega”, “têm medo da verdade”, “quem tem olhos para ver, que veja”...
Em sua infância e juventude, sofreu diversas privações e provações. recebeu castigos físicos sob o pretexto de curá-lo, em verdade viu o Pai ser morto para demovê-lo.
Quando dançava na casa dos trinta anos, sua Via Crucis teve desfecho. Não que fosse bonito, mas em meio àquela miséria, era um príncipe. Era magro, com a pele estranhamente clara, quase etérea, possuía estatura mediana e o rosto desprovido - quase que totalmente - de pêlos. Olheiras profundas insistiam em lhe tirar o brilho dos olhos acastanhados. Seus cabelos eram loiros e longos, de uma cor impossível de ser fabricada, porque não eram nada claros. Algo entre fogo e luz. Se alguém tem alguma dúvida de como o vejo, é exatamente como Dalí o vê na sua “Última Ceia”.
Para acompanhá-lo, concebeu um apostolado ecumênico, sob o nosso ponto de vista. Dois pastores evangélicos, um padre, por nome Simão, duas freiras, duas donas-de-casa evangélicas, um soldado chamado Bordalo, três irmãos freqüentadores de cultos afro, e uma antiga meretriz - por nome Madalena.
Esse apostolado poli-religioso enfrentou diversos problemas, mas entenderam que a passagem do Messias era breve, e que depois da sua ida, eles deveriam tornar às suas instituições religiosas para promoverem as modificações salutares. Ele, em verdade, não criava uma nova seita ou religião e não propunha que seus discípulos abandonassem suas crenças.
- Não podemos viver sem religião? - perguntou o negro Bordalo, referindo-se às nossas tradicionais formas religiosas. Ao que ele retrucou:
- Não, por enquanto.
- Qual a religião completa, ou mais completa? - interviu o padre Simão.
- As religiões, nenhuma delas, conseguem explicar tudo. Há elementos que transcendem... sendo, no entanto, absolutamente válidas e compatíveis com o vosso estado evolutivo. Trabalhemos - todavia - por modificar-lhes as estruturas e , dia chegará, em que não mais serão necessárias.
Apesar desse desejo sincero de aprender com o Mestre e de manterem-se vinculados às suas instituições, os apóstolos sentiam enormes dificuldades. O padre foi ameaçado de excomunhão, os pastores de serem afastados, e também os demais, pois queriam seguir a Deus tão de perto!
Fato é que, após tanta pressão, o Homem de Nazaré foi preso por charlatanismo e falsidade ideológica, o que foi apoiado por populares. Exceto Bordalo, um dos meninos africanistas e Madalena - que ensaiaram uma resistência - os demais fugiram, deixando-o ser agarrado.
Anos depois, sua passagem por aquele mísero povoado passava quase incólume. fora mandado para o presídio da capital e mantido incomunicável durante o período de reclusão. Quando foi solto, recebeu a visita daquela que tinha ido mais ao fundo do abismo, dentre todos os apóstolos, a única que beijara a lona por inúmeras vezes...
Casou-se, o Nazareno, com Madalena, e não podendo ter filhos, visto que dada a sua missão ele era estéril, adotaram umas tantas crianças.
Hoje, o Homem de Nazaré ainda pode ser encontrado anônimo em Nova Jerusalém (Pernambuco). Ele faz o papel de um dos soldados no espetáculo “Paixão de Cristo” e é muito conhecido dos centros, templos e núcleos religiosos daquela localidade, e vizinhas, aonde vai, sempre que pode, sem, contudo, ser notado.

4 comentários:

  1. Esta é, particularmente, uma das crônicas que eu acho mais bacaninhas, de fevereiro de 1997.

    ResponderExcluir
  2. Oi, sandro!! Muito feliz em reencontrá-lo, mesmo que virtualmente, e satisfeitíssima em saber que temos agora mais um meio onde podemos apreender mais e mais sobre os temas aqui mencionados. Continue assim com essas belas iniciativas, afinal de que vale o conhecimento se não for compartilhado. Aproveito para deixar o link do meu blog: http//www.nadiahrodrigues.blogspot.com; assim que puder dê uma olhadinha. Um abraço!!!!

    ResponderExcluir
  3. Valeu, Nádia. em breve lhe farei uma visitinha virtual.

    ResponderExcluir
  4. Caramba, que mundo pequeno. Nádia foi minha professora no Ensino Fundamental inteiro.

    ResponderExcluir