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quinta-feira, 11 de agosto de 2011

8008

Quando acordei, estava chovendo, mas agora o sol se firma. Consulto o relógio e vejo que ainda faltam trinta minutos para o horário combinado e, pelo menos, uma hora para o pessoal chegar.
Passo em frente ao shopping e as lembranças que me borbulham à mente tornam a se fazer sentir.
Já faz dez anos desde a última vez que nos vimos. Éramos em treze. Hoje, só tenho contato com o meu irmão. Mesmo assim, por carta. Telefone só no natal.
Sei que alguns deles nem vão aparecer. Alguns até morreram. Só um, que eu saiba. Tanta juventude !!!
Lembro-me como se fosse hoje, do brilho do meu olhar ao mostrar-lhes a minha peça e dissertar sobre o meu projeto. Meu objetivo era nos aproximar mais, mas falhou.
Consulto o porta-luvas e coloco uma fita aleatoriamente no rádio. Será que vou agüentar esse reencontro? Será que haverá? Não há o que temer, “ninguém morre de ataque cardíaco aos 35 anos”, disse-me o cardiologista. Bom para ele, assim fatura mais. Continuo chato e resmungão! Será que nunca mudarei?
Vejo aquela placa e entro no conjunto. Lê-se: “Cidade Satélite”. Ué, de onde saíram estes edifícios? Acho que conheço aquela menina... não, não.
Ironicamente, o rádio toca “Mapas do Acaso”, a música que ficou como uma espécie de hino para mim. “Estamos no mesmo barco”, diz o Humberto. Eu abro um sorriso.
Não acredito que passei da rua! Como será que eles estão? O último que eu vi foi o “negão”. Ele tava com o filhinho dele... porra, tem uns três anos. A última vez que eu vi o João tem... uns... cinco? Não acredito, cinco anos!
Tomo um susto ao ver uma quitanda no lugar onde deveria estar a casa do Alexander. Ah, fizeram o segundo andar. Pergunto ao fruteiro e ele indica a entrada. São três e quinze. faltam quinze, ainda.
A mulher do “morto-vivo” me manda sentar em uma das três mesas postas no terraço. Por que me lembrei desse apelido agora?
A mulher sai prá buscar uma jarra de suco. Depois que se converteu o Alexander parou de beber. Ouço barulho de carro, mas de onde estou, nada posso ver.
Finalmente chega o Alexander com o Caliaari. O abraço é apertado e as lágrimas contidas à força. Ficamos uns quarenta segundos abraçados.
Alexander está com uma rala barba castanha, cabelo muito bem aparado e roupas caras. Engordou um pouco.
Caliaari está com o cabelo grande, mais bem cuidado que da última vez que o vi. Está velho. deve estar trabalhando demais, contudo, conserva o sorriso.
Chegam mais dois: a Milena e a Elisabete. Com as meninas por perto, o choro é impossível de ser contido.
Milena está mais magra, demais até. Usa um penteado exótico. Elisabete, com o mesmo jeito de menina, foi, talvez, a única que não envelheceu.
Vozes são ouvidas. Milena me mostra umas fotos dos sobrinhos. Mas eu não as vejo, porque novos personagens chegam ao palco. desta vez são o meu irmão e o Marcelo “negão”.
O “negão” também não mudou nada, exceto pelo bigode e pela aliança. João traz um medalhão ao peito e um penteado de vanguarda. “Que barbicha ridícula!”, eu digo.
Tantas lembranças! Alguém puxa um maço de fotos. tantas alegrias...
Mais três chegam e eu sinto uma pontada no peito. Wendell e Virgínia se separaram há uns dois anos, entretanto vêm como bons amigos.
Depois que Wendell foi expor no exterior, nunca mais o vi. A última vez foi há dez anos. Exatamente quando fizemos a última reunião.
Alguém pede um som, mas Alexander explica que a música destrói a sanidade mental. Coisas da seita dele. João ri e Caliaari lhe dá uns tapas nas costas.
Geórgia está loira e uns quilos mais magra. Não tanto quanto a Milena, embora Geórgia tenha tirado um pouco do busto, que pena!!
Quase todos têm filhos. Quase todos estão separados.
Virgínia saca de uma máquina, porém, antes da foto, alguém começa a contar uma história sobre morte. Meus olhos tornam a encher-se de lágrimas e procuro esconder o rosto. Braços me abraçam e o calor me faz ficar mais calmo. Nós a amávamos...
Olho para baixo e percebo que - apesar da reforma da casa - o velho quarto da “Cia. teatral Expulsos do Paraíso” ainda está de pé. Dou um grito, como que para fazer parar o tempo e tudo escurece.
Quando acordo, vejo todos aflitos ao meu redor. Por alguns instantes volto no tempo e os vejo quase vinte anos mais novos. E é nessa fração de segundo que lhes digo: "Aproveitem"!
      

3 comentários:

  1. Gostei da crônica, mas me aperta o coração saber que um dia vou chegar aí. Perder o contato com os amigos, e tudo se reduzir a fotos, lembranças e coisas velhas.

    Mas como dizem, recordar é viver...

    A crônica é sua?

    Você parece empolgadíssimo com a idéia do blog! Particularmente, eu tenho um desde 2005 até hoje. É muito legal, você descobrirá coisas novas e conhecerá muita gente boa (ou não).

    Se precisar de ajuda com algo, estou aqui.

    Sucesso!

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  2. Essa crônica é minha e pretendo ir colocando várias coisas que eu escrevia quando tinha mais tempo e menos auto-crítica.
    De qualquer modo, não lamente o futuro. Toda idade tem seu prazer e sua dor.
    E os amigos verdadeiros não se afastam. É só a gente não deixar escapar, que eles serão forever!

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