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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O Pão

Teodorico estava atrasado para o trabalho, faltara luz no bairro durante a noite, e o despertador não havia tocado. Ele saiu do banho – ainda molhado – e foi para a cozinha tomar o seu café. Encheu uma xícara com leite, colocou duas colheres generosas de açúcar e repetiu o ritual da “pingada”, deixando deslizar fulgidamente uma ou duas gotas de café, que é pra não aumentar muito a presão.
         Procurou o pão sobre a mesa e não o achou. Foi até o armário se lastimando pelo tempo perdido e abriu todas as portas do móvel sem, contudo, encontrar alguns pães. Olhou no forno, para ver se Alzira lhe tinha feito torradas com o pão dormido e nada.
         Meio irritado, se dirigiu à mulher que lhe sucedera no banho:
-         Pão?!... Pão!?... Pão?! – num misto de dúvida e protesto. Sua senhora retrucou:
-         O que foi?... O que foi “Didico”?
-         Onde está o pão? Não tem pão?
-         Não tem pão.
-         “Não tem pão”!
-         É. “Não tem”, acabou.
-         Acabou o pão?
-         Acabou! Os pães acabaram-se. Foram comidos.
-         “Comidos”? – perguntou ainda mais irritado.
-         Os meninos comeram.
-         “Meninos”?!
-          É, os meninos – tornou a senhora, ainda ensaboada – por que você não vai comprar pão, na padaria?
Essa pergunta resoou como uma ironia gravíssima. Quiçá passível de divórcio. Ou de uma surra. Esta segunda alternativa agradou mais ao dementado Teodorico. Não pela pergunta em si, ou por mais uma ironia em 19 anos de casado, mas porque o carteiro atrasado se lembrou da triste infância em Valadares.
Recordou-se de que era sempre ele, em uma família de doze irmãos, com menos de quinze anos de diferença, que todas as tardes comprava o pão. Ou os pães, no caso 40. Mas, “pão” fica mais verossímel que “pães”.
Lá pelas nove da manhã, quando conseguiu chegar no trabalho, Teodorico verificou que a sua bicicleta, instrumento de trabalho, estava com o pneu ainda empenado, devido ao acidente do dia anterior. Dirigiu-se ao mecânico da empresa, “Parazinho” e bradou:
-         Por que você não consertou o pneu da “Ofélia”? – “Ofélia” era a bicicleta.
-         Esqueci – disse o mecânico.
-         Pois eu acho é que te esqueceram de fazer com cérebro! Seu pau-de-arara desterrado!!! Ajeita essa joça que eu tô atrasado!!! – e o paraibano assim o fez.
Na hora do almoço, “Parazinho” ainda guardava as impressões do nefando diálogo. Ao se encontrar com sua noiva, 35 minutos atrasada, perguntou:
-         Por que o atraso?
-         Foi o ônibus, Ariosto. – este era o nome de “Parazinho”.
-         Por que você não veio trotando, sua mula! Agora, ou a gente almoça ou compra o fogão... – a mulata engoliu em seco.
Ao retornar para a livraria onde trabalhava, a mulata Aparecida foi admoestada pela chefe, dona Célia.
-         Por que o atraso?
“Por que o atraso?”, aquela pergunta soou novamente em sua cabeça e a menina se “arretou”:
-         Quer me descontar, me desconta. Mas, não me enche o saco!
Dona Célia que gostava da menina como a uma filha que nunca pode ter, evitou a discussão. Todavia, guardou em seu íntimo a necessidade de uma vingança. O que ocorreu justamente no ônibus dirigido por Lamartine – poeta e cantor.
Célia, inteira em seus trinta e cinco anos, pegou o coletivo e foi interpelada por um colega:
-         Como vai, Célia? Tá boa? – antes mesmo que ela pudesse responder, Lamartine falou:
-         Claro, tudo em cima! – dando ênfase na segunda frase. Embora ele nem tivesse ouvido a pergunta do outro passageiro e houvesse se dirigido ao guarda Jessé. Dona Célia não contou conversa, desceu o braço em Lamartine e foi expulsa do ônibus, antes que pudesse continuar.
Ao largar do emprego, lá pelas 18h, Lamartine foi até um boteco e tomou duas ou três cervejas para acalmar-se. E cantou uns pagodes. Porém, um outro freqüentador do lugar, que tinha rixa antiga com Lamartine, por causa de um carteado, falou em voz alta para os companheiros de copo:
-         Antigamente a gente podia vir para este estabelecimento e beber em paz! – enfatizou a palavra “paz”.
Como o Lamartine, meio chateado em sua mesa, nem ligou, Lucrécio, já embriagado tornou à carga:
-         Ô Manuel, esse teu galo tá com gôgo!
Não houve tempo para se evitar que Lamartine quebrasse um taco de sinuca na cabeça do ávido crítico. Devido ao efeito etílico e aos braços de remador do motorista, Lucrécio caiu e dormiu até as 2h30 da madrugada, quando o bar fechou e ele teve que ir para casa.
No dia seguinte, encontrou-se com um vizinho na padaria, comprando pão. Era o carteiro Teodorico, a quem conhecia de vista. Seguindo a um impulso bestial, Lucrécio respondeu ao cumprimento de “Bom dia” do outro, com um “Vai pastar!”. Provavelmente algo no inconsciente coletivo o despertara para o fio do novelo.
Teodorico reconhecendo em si o pontapé inicial daquela bola de neve, por um secreto instinto, buscou respirar fundo e distrair-se com os brigadeiros da vitrine.
Acabando de escrever esta crônica, fechei o caderno, guardei a caneta e pus uma camisa. Fui até a padaria e comprei dez pães e um leite. Pela primeira vez, o fiz sem lastimar. Todavia, com medo de algum efeito retardado, não desejei “bom dia” a ninguém, apenas sorri.

domingo, 20 de novembro de 2011

Advertência Inesperada

A reunião mediúnica seguia o seu curso. O grupo constava de nove pessoas, das quais oito estavam à mesa. A nona, encarregada da aplicação de passes e sustentação fluídica, encontrava-se em uma cadeira à parte. Eventualmente, aproximava-se do grande círculo para executar a sua função com mais eficiência. O clima era harmônico e pude intermediar uma das mais belas comunicações de que me recordo. Naquela noite, era um dos cinco médiuns de psicofonia presentes e sob os auspícios da equipe espiritual, permiti a aproximação do espírito comunicante. Ele foi interpelado pelo doutrinador:
-         Seja bem vindo, meu irmão! Em que podemos ajudar? – ao que retrucou:
-         Pelo que me conste, eu não vim aqui por necessitar de ajuda.
-         Pois então, a que veio?
-         Vocês quebraram o acordo! Não cumpriram a sua parte no acordo!
-         De que se trata, meu irmão? A que acordo se refere?
-         Vocês se meteram em nossos negócios! – e continuou visivelmente (ou invisivelmente) irritado – Nós lhes concedemos salvo conduto, permitimos que resgatassem os que já estavam prontos. Mas vocês quebraram o acordo! Interfiriram em negócios que não lhes diziam respeito. – bradou.
-         Meu irmão, nossa missão é ajudar a tantos quantos pudermos. Não nos cabe julgar, devemos amparar.
O irmão desencarnado continuou, em tom colérico:
-         A trégua está desfeita! Vocês não mantiveram a palavra, agora agüentem as conseqüências. A justiça será feita!
-         Sim, meu irmão, será feita. Mas, será feita por Deus. A justiça a ser feita é a do amor. – enquanto falava, o doutrinador emitia ondas que amenizavam o descontrole do espírito comunicante. Companheiros desencarnados buscavam dissolver a compacta camada escura que encobria o espírito enraivecido. Mas, quanto mais resíduos deletérios eram retirados, mais o ódio produzia.
Fazia-se necessária à intervenção do passista encarnado, com seus fluidos animalizados, mais compatíveis com o socorrido. Este cooperador foi intuído a locomover-se em direção ao médium, posicionando-se à sua retaguarda. Os recursos fluídicos do magnetizador foram somados aos agentes desencarnados, obtendo-se um resultado favorável.
Sob um clima mais propenso, atingido em poucos segundos, o doutrinador recomeçou o colóquio:
-         Companheiro, perceba que a nossa irmã merece outra chance.
-         Aquela víbora já não desperdiçou tantas oportunidades! Por que deveria crer agora, que está modificada? Não creio!
-         Ela poderá lhe dar aquilo que mais deseja...
-         Um reencarne?! Ela me terá como filho?
-         Sim, o irmão terá outra oportunidade, assim como a irmã a tem, agora.
-         Ela me rejeitou antes.
-         Pensemos que agora será diferente. Oremos a Deus por isso!
-         Espere, eu vou fazer o que me pede, deixa-la em paz e submeter-me ao processo de preparação para o reencarne. Mas, se ela falhar de novo, meus seguidores vão fazer justiça!
-         O irmão deverá ficar alguns dias aqui, conosco, para que a preparação saia a contento e a justiça de Deus se faça.
-         Tudo bem, mas preciso orientar a meus comandados. – fez-se uma pausa e o espírito outrora insensível às emoções humanas, colocou-se aturdido:
-         Mas, espere... Eles estão aqui?! Descumpriram minhas ordens e entraram!!!
-         Todos devem ter oportunidades de ouvir a verdade. Todos merecem a liberdade, meu irmão. – com mais estes acontecimentos e após a argumentação lógica, aliada a um carinho fraternal, o espírito anteriormente enlouquecido, se desarmou por completo.
A nuvem negra que o cobria, cedera lugar a uma tênue luminosidade, e sua inteligência insubmissa e implacável fora anestesiada pelo amor e pela lógica da humildade. Reconhecendo-se como alguém incapaz de julgar, falou com humildade. Uma humildade que jazia por anos a fio nas profundezas de sua alma:
-         Gostaria de pedir-te uma coisa.
-         Diga, meu irmão.
-         Gostaria de pedir que me fosse retirado este aparelho que me colocaram. Uma espécie de capacete perispirítico, para evitar uma ofensiva magnética de minha parte, uma possível hipnose.
-         Vamos pedir a Deus, amigo. Que se faça a sua vontade!
-         Agora, agora eu posso vê-lo. Posso vê-lo em toda a sua luminosidade... Como brilha!
-         É Jesus, que se reflete em nós, meu amigo. O brilho que vês é uma ínfima fração do amor de Deus.
E demonstrando toda a lucidez que sua intelectualidade alcançou sob a égide da humildade, desferiu:
-         Mas, não te envaideças. Se não, da próxima vez, estaremos sentados nos lugares trocados, meu irmão.
-         Obrigado, irmão. Espero que nos encontremos novamente e que possamos nos reconhecer. – disse o doutrinador ao novo amigo, ao que este, envolto em emanações de sublime harmonia e beleza, reluziu:
-         Com certeza. Com toda a certeza, nos veremos, meu irmão.
-         Graças a Deus! – suspirou o orientador encarnado, visivelmente emocionado, como nós outros que recobrávamos a lucidez, deixando o transe mediúnico.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

A Vitória do Amor

     Ainda distantes da Codificação Kardequiana, eu e meus amigos nos reuníamos a outros espiritualistas como nós, para a prática mediúnica. O grupo era bastante eclético: eram católicos, umbandistas, orientalistas, rosa cruzianos, esotéricos e representantes de outras facções místico-religiosas que anelavam a feição de um culto ecumênico. Os laços de amizade uniam, mas complexa era a junção de visões tão distintas, até porque os particularismos não deixavam de chegar às reuniões. Eram gnomos, duendes, incensos, livros de anjo, copos de água, sal grosso e cordões coloridos, dividindo o espaço com o “Evangelho Segundo o Espiritismo”.
         Apesar das dificuldades, achávamos possível estar juntos, e inspirados no amor fraternal, encontrar um “caminho do meio”.
         A reunião se constituía da leitura do Evangelho, seguida das comunicações mediúnicas e da aplicação de passes. Por fim, a água fluidificada.
         Hoje, com nossa visão espírita, devidamente embasada por Allan Kardec, vemos o quanto “errávamos” e nos expúnhamos, com as práticas exteriores e os atavismos. Porém, graças a esse um ano – aproximadamente – aprendemos muito sobre a fé, o espiritualismo e a vida.
         Em uma dada noite, após as comunicações psicofônicas, em que o “maravilhoso” era proposto e as vaidades exaltadas, passamos a aplicação de passes, eu e meus companheiros.
         Os passes eram aplicados na própria cozinha, onde se realizavam as reuniões. Isto mesmo, era a cozinha de uma casa, onde ao redor da mesa de jantar e da fileira de médiuns, os espectadores esperavam pela aplicação dos passes, durante a qual, naquela noite, uma jovem – cuja mediunidade se alargava e descontrolava – começou a sentir-se mal, devido à presença de uma multidão de espíritos obsessores.
         Eu, que era um dos médiuns da “Casa”, parti em socorro do companheiro que ministrava o passe. Como umbandista de então, recorri a presença do meu orixá (espírito guia) protetor. Ele, em comunicação, transferiu à jovem médium uma das “guias” (cordão) que estava em meu pescoço. Não adiantou.
         A jovem suava frio e companheiros outros de ambos os planos da vida se acercavam de nós. Os interesses eram diversos, mas – decerto – haviam espíritos amigos, movidos pelo intuito de nos auxiliar.
         A transmissão fluídica foi constante e a jovem oscilava em seu estado físico. Alguns assistentes olhavam com desdém, como se fosse uma encenação. Eu, como médium, mesmo que desequilibrado naquele instante, bem o sei que não era. E a maior parte dos espectadores observava a tudo com assombro. O desespero chegava a tomar conta de alguns. Inclusive da médium em questão, que por culpa de nossa ignorância e nossos descuidos (inclusive dela) estava naquele impasse.
         A solução me pareceu arriscada. Mas era a única escolha que possuíamos, pois eu era – naquele instante – o único “veículo” capaz de solucionar, mesmo que temporariamente, o problema...
         Fiz o que tinha que ser feito: com o auxílio magnético dos irmãos, atraí o espírito (ou espíritos) constritores para o meu campo de ação. Imantei-os ao meu perispírito. Acompanhado por dois valorosos amigos – que me acompanhariam ao Espiritismo, arrastei-me até o quarto da dona da casa, longe dos incautos espectadores, no 2º andar, seguido da mesma (que era a outra médium).
         Graças ao concurso de espíritos benfeitores, a entidade mais agressiva foi “adormecida”. Fomos avisados que após a retirada dos “assistentes”, deveríamos “os que sentavam à mesa” partir para a doutrinação.
         Assim foi feito. Alguns companheiros da mesa, mais iludidos, não deram crédito ao recado e partiram com os demais.
         Minutos depois, um grupo relativamente mais coeso reiniciou os trabalhos de intercâmbio. A muito custo, vários irmãos daquela falange dedicada ao mal foram esclarecidos e puderam ser encaminhados pelos mentores que vieram em nosso auxílio. Apesar das velas, nossa fé e propósito de serviço eram interiormente sinceros e por isso, a generosidade da Espiritualidade Maior se manifestou e o amor venceu.
         Meses depois, e graças ao susto, eu e três companheiros deixávamos de freqüentar aquelas reuniões e, depois de alguns meses, passamos ao tratamento em um centro espírita de fato. Daquele grupo, outros nos sucederam na mudança salutar, sem esquecer que a luz brilha para todos que a buscam com sinceridade, e sem distinção de credo. Hoje, temos plena consciência da vitória do amor e buscamos, através do trabalho criterioso, vislumbrar o amor de Deus.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O romance do universitário otário

Eu não conheço ninguém que não goste de chegar cansado em casa e se jogar na sua cama. Ou que prefira dormir na casa dos outros, até nas questionáveis acomodações das casas de praia a usufruir da sua caminha. Ninguém, além de mim! É que o meu colchão é muito fino e adquiriu forma de “V” – torturante.
         No domingo, passara o dia sentado e senti a coluna estalar quando já me preparava para dormir, pensei: “Umas boas horas na horizontal me farão como novo”. Se fosse, seria, mas não foi...
         E eu acordei na segunda feira meio alquebrado, com o que procurei não me irritar, domando o meu temido mau humor matinal. Abri a  porta do quarto e vislumbrei o banheiro em toda a sua plenitude. Saltei ao seu encontro, entretanto, meu irmão que tinha o quarto colado ao banheiro, foi mais ligeiro. Pensei: “Tudo bem”. “Tudo bem é o cacete”!
         Tomei o ônibus já mais sereno. Até esbocei um sorriso para um vizinho, no que fui recompensado pelo destino, que me reservou um lugar sentado no veículo. Todavia, uma senhora gorda e seus pacotes me fizeram implorar para que os mesmos ocupassem meu assento. Posicionei-me de frente à larga escada do coletivo que era dividida por um corrimão (Para anão, é verdade. Mas não me ocorre outro nome.). Tomei posição no lado esquerdo e um outro rapaz, no direito. Uma colega universitária me acotovelou, postando-se à minha frente, já com o nariz embaçando o vidro da porta.
         Quando o ônibus ia partir, vimos os três que o circular do campus (ônibus interno) tomava fôlego para sair. Olhamo-nos os Três com apreensão e uma certa animosidade. Um conquistador barato, que se encontrava sentado numa das cadeiras da última fila, tentando tranqüilizar a moça, falou:
-         Dá uma corridinha que dá! – Que construção literária! Mas o fato é que está sendo transcrito na íntegra, o comentário.
As portas se abriram e a universitária buscou uma saída explosiva, no que foi brecada pelo rapaz da parte direita da escada. O corpo da menina, após chocar-se contra o do colega de universidade, voltou ao ônibus, fazendo-a a cair sobre os degraus e alguns dedos meus. Não se dando por vencida, buscou uma nova escapada. Transpôs o meio fio, mas desequilibrou-se na parte de barro, “catando cavaco” por uns dois metros. Aí ela recuperou toda a sua dignidade, se ajeitou e foi andando como uma lady. Eu, mais cauteloso, fiz uma mímica de corrida para sensibilizar o motorista. Contudo, para minha surpresa, o sofrido trabalhador vinha descendo do ônibus circular para verificar o pneu...
Se você pensou que o pneu estava furado e fiquei duas horas esperando outro circular ou uma carona, é porque você não consegue enxergar nenhuma poesia na vida. Isso não aconteceu. Naquele dia...
O que ocorreu foi que o veículo estava tão cheio e que o piloto teve dificuldades para adentrar o mesmo, o que só conseguiu após argumentar que sem ele para dirigir, o transporte não partiria. Porque nós sabemos que aqui na Universidade tudo tem que ser muito bem explicadinho, senão os xiitas de Nike soltam o verbo. Mas desta vez até os marxistas se convenceram que ao exigir a sua entrada no ônibus para nos levar a nossos objetivos, o motorista não estava sendo burguês e muito menos querendo nos explorar ou papar a nossa “mais valia”.
A viagem foi tranqüila e eu pude aprender um pouco mais sobre a fé, com um rapaz que vinha sentado na janela, em frente ao local em que eu me equilibrava. O religioso companheiro limpava o nariz com o dedo indicador direito, como se estivesse em uma ilha deserta. Quando passamos por uma escultura sacra, ele interrompeu o seu lazer. “Deve ser falta de respeito com a santa”, pensei. Só sei que mais do que rapidamente ele fez o sinal da cruz para tornar à intrigante atividade.
As duas primeiras aulas foram as piores do pior professor do Campus Universitário. Mas eu sobrevivi, apenas um pouco abalado, como demonstrava a minha pressão à 20 por 18. “Como é que eu sei da minha pressão naquele instante”? Tá bom, eu não sei. Pronto. Sobrevivi a aula e minha veia não estourou, nem tive um ataque cardíaco.
Sentei-me em uma das mesas da lanchonete com “Dani Baby” (cuja origem do apelido exige uma outra estória), depois chegou a motoqueira Helena Circuncisão de Macedo, que apesar do nome “circuncisão” registrado em cartório, não era, obviamente, circundada. Na mesa ao lado: Da Paz, Alessandra (O Terror do Bairro Nordeste) e Luciana – a língua mais rápida da Universidade (No sentido verbal, é claro! “Ou não?”)
-         É aniversário da Luciana, Sandro, não vai dar os parabéns?! – disse Alessandra.
Levantei-me e fui até a mesa delas. Luciana saltou para longe, dizendo:
-         Foi ontem.
Voltei inconformado para a companhia de Baby e Helena. Esta me falava sobre o seu grande amor, enquanto a outra me enfiava goela abaixo um croissant de queijo (Queijo? Alguns autores discordam.).
-         Hei Sandro, não vem me desejar os parabéns?! – Disse Luciana, voltando.
Tornei a me levantar e fui cumprimenta-la. Quando estava na segunda palavra, Baby me atravessa revoltada:
-         É a última vez que chamo você para lanchar comigo! Você me deixou sozinha! Que desconsideração!!!
Eu gaguejei e tentei me explicar: “O que é isso, Baby?”, mas ela se foi. Virei-me, novamente para as meninas, todavia, Luciana não perdeu a deixa para uma ironia:
-         Deixe de ser galinha!
Meio zonzo qual uma locomotiva alimentada por uma garrafa de tequila, puxei Helena para a mesa das outras.
Alguém fez uma piada e Alessandra gargalhou freneticamente expelindo – no mínimo – 100ml de Coca-cola sobre nós.
Fiquei catatônico até o fim da última aula, quando me dirigi para o setor I, em busca de minha garota. Ela me saudou com um sorriso.
-         Oi. – eu disse.
-         “Oi”? Você não poderia ser um pouco mais romântico!?!
Rolei pelos gramados do Campus, chorando e uivando.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Haja amor!

Fora um final de semana agradabilíssimo. Fomos os seis inseparáveis companheiros do centro espírita ao fórum de debates que trazia o tema “amor” e nos contagiou à todos. Não fosse por ele (o amor) talvez nem estivesse contando esta nossa epopéia, onde limites foram transpostos, o amor agiu, mas onde – vez por outra – nos mostramos os mesmos de sempre...
                   Os protagonistas desta estória são: Clarke e Bella (o casal), Marins e Leônidas (pai e filho) e Marcos e Sandro, ou seja, eu. No decorrer desta estória, entretanto, mais lhes será revelado.
                   O primeiro contratempo ocorreu já vinte minutos antes do início do evento (o Fórum). O meu, entre aspas, carro houvera visitado a oficina mais de cinco vezes nas últimas duas semanas e trazia ainda um problema no disco de embreagem. Como a oficina era próxima do ginásio, onde o congresso se daria, resolvi deixar o carro na oficina e pegá-lo à saída (quatro horas depois). Chegando lá, convidei o mecânico para uma voltinha, objetivando mostrar-lhe o defeito do automóvel. Como o mesmo se encontrava embriagado e quiçá dementado, disse que o problema era em mim e não no carro. Ensandecido, saí da oficina blasfemando, mas alguns minutos após adentrar o auditório do Fórum, recobrei o equilíbrio (ou o desequilíbrio) habitual.
                   Na hora do jantar voltei à oficina onde constatei que o “problema imaginário” era tão “simples” que para resolvê-lo, o mecânico teve que retirar o motor do carro. Fui até em casa de ônibus e voltei correndo para a segunda parte do evento. Não deu nem para esquentar a cadeira porque Marcos, meu amigo, passou mal e tivemos que bater no pronto-socorro do hospital público, que reflete bem o respeito que a nossa sociedade tem pela dor alheia...
                   No segundo dia do evento, na parte da manhã, chegamos só quinze minutos atrasados porque fomos com os Marins – quase um Record. O Marins pai era amante da computação e de pizza com borda de catupiri. Beirava os quarenta anos e mantinha os cabelos absolutamente despenteados. Quanto à pontualidade, digamos que ele era o único ser na face da terra menos pontual do que seu filho, Leônidas.
                   Leônidas era especialista em mangar, malhar, sacanear e gargalhar. Para tanto, a natureza lhe concedera uma bocarra considerável e dentes perfeitos. Seu hobby era colecionar palitos de dentes (todos usados).
                   E Marcos, antes que eu me esqueça de novo (visto que já esqueci no parágrafo anterior ao anterior) era grandalhão e canhestro (desajeitado). Além disso, era manso. Afinal, se não o fosse, quem descreveria assim um homem de quase 1,90m e aluno de karatê por três semanas e ½, quando fazia a 6ª série?
                   Quando as palestras da manhã do sábado acabaram fui até a oficina e peguei o pseudo-carro de volta. Marcos resolveu ir de carona com Marins para não ter que andar até a oficina, o que talvez não tenha sido boa idéia, afinal, o Bat-móvel, veículo da família que causara risadas a dezesseis donos de ferro-velhos, lhes apunhalou logo na saída do estacionamento. O problema? Algo simples: a roda dianteira esquerda resolveu dar uma voltinha, talvez para fugir aos maus tratos.
                   No sábado à tarde, eu, Bella e a risonha Eva fomos juntos fazer um curso sobre Diálogo Fraterno, ou seja sobre a recepção e a orientação de visitantes ao Centro. Um dos quesitos para ser um bom orientador pôs toda a minha radicalidade à prova: ter mais de 25 anos. Eu não tinha! Foi o suficiente para as “meninas” pegarem no meu pé. Na saída, fomos tomar uma água de côco:
-         Hei Sandro, você não vai pagar?
-         Não, paguem vocês, eu tenho menos de vinte e cinco – rebati, ensaiando uma vingança. Me despedi e fui em casa.
Quando retornei do jantar, para as atividades da noite, encontrei o grisalho Clarke mastigando freneticamente um chiclete. O que só fazia nos momentos de tédio mortal ou profunda irritação, visto que mordia pertinazmente a língua e os cantos da boca. Desta vez o motivo não era tédio. Nem tinham roubado nenhuma de suas tampas de caneta, visto que não as emprestava. Afirmava que ninguém rouba uma caneta sem tampa, se não, mancha a camisa ou a calça. Na dúvida, como homem “prevenido” que era, só usava canetas populares, para minimizar possíveis perdas e assegurar a solidez da economia. Mas o motivo da irritação de Clarke, naquela noite, era ter sido grosseiro. Cansado de esperar o seu sanduíche, rompera cozinha à dentro e só saíra com o alimento na mão. Todavia, como era espírito em evolução, chateara-se com sua atitude. Resolveu, então, dar um ponto final naquela situação. Levantou-se, deu uma gorjeta ao garçon e partiu, novamente, para a cozinha. Lá se explicou nestes termos:
-         Pero que sin, pero que nom, invadi a tua praia... – O cozinheiro sem entender muita coisa, lembrou-se do irmão que vivia em Goiás e que não via há sete anos, e beijou-lhe a mão. Recebeu em troca um cafuné.
O dia de domingo transcorreu tranqüilo, exceto pelo meu telefonema, na hora do almoço, para a minha namorada:
-         Alô.
-         Alô.
-         A palestra só acaba às oito.
-         Oito? Tão tarde.
-         É.
-         É! Você vem aqui?
-         Não vai dar.
-         Tudo bem.
-         Tudo bem mesmo?
-         Tudo.
-         Como “tudo bem”?! Você não sente a minha falta?
-         O que você quer que eu faça, te obrigue a vir aqui?! Então tá, venha aqui em casa!!!
-         Não.
-         Por favor.
-         Assim não vale. Só porque eu falei!
-         Deixe de besteira, venha!
-         Se quiser me ver, você sabe onde me encontrar.
-         Ôu!!!
-         Tchau.
-         Se quiser aparecer...
-         Não vou aparecer.
-         Mas, se quiser, apreça. Um beijo.
-         Beijo.
Horas depois, novamente imerso no ambiente do Fórum, ligaria para ela e faria as pazes.
O fato é que fora um final de semana conturbado, cheio de problemas que – criados ou não – nos testaram, testaram o nosso “amor”.
Na 2ª feira, após terminar o Evangelho no lar, percebi que crescera muito. Mas não o suficiente para desperdiçar uma oportunidade de vingança contra um inimigo atroz do fim de semana: um pernilongo. Esmaguei-o com minhas próprias mãos, punindo-o pelas noites de tortura. Aí, a paz tornou a reinar, e o amor suspirou aliviado...

sábado, 22 de outubro de 2011

Testamento

Eu, Juarez José da Silva, brasileiro, divorciado, em pleno juízo de minhas faculdades mentais, venho por meio deste dispor de meus bens, porque para onde vou não mais precisarei destas coisas.
                   Deixo o meu rim esquerdo para o tio Bené, que tem várias pedras no mesmo e não agüenta mais as dores. E por este, se livrará das hemodiálises. O rim direito deixo pro seu Teobaldo, dono da padaria que nunca cobrou o “prego”, pregado por meses a fio e que já está há meses na fila de espera para transplante.
                   O meu estômago doou para o Instituto Estadual de Gastroendocrinologia, porque a gastrite já destruiu muito e só serve mesmo é pra estudo.
                   Os meus testículos em conjunto com o escrotal, reverto à minha ex-esposa, que em nossos dezesseis anos de casados, contribuiu muito para o seu crescimento. Enchendo-me de sobremaneira, o saco.
                   O meu “birgulinho” deixo para aquele rapaz cearense que teve o dele cortado pela namorada. Espero que ele não me decepcione, ou melhor, eles. O rapaz, no uso do instrumento e o instrumento, honrando a sua origem.
                   O meu fígado é, talvez, o órgão mais disputado. Se bem que eu ache que não vale muita coisa. Na dúvida, deixo para dois amigos muito necessitados: o compadre Lourenço, amante insaciável das branquinhas. E meu tio João, que nunca fez distinção de cor, gosto ou teor etílico.
                   As minhas córneas (olhos) deixo para o Instituto de Cegos, para que beneficie algum dos inscritos, desde que seja do sexo feminino. Afinal, imaginem os lugares em que entrarei e o que verei... Só espero que as amigas das receptoras não se ofendam ou façam mal juízo das moças.
                   O meu coração deixo para as minhas duas filhas, para os meus dois anjinhos com que a megera me presenteou. Como sei que, graças a Deus, elas não têm problemas cardíacos, sugiro que o mesmo seja vendido e que o dinheiro se reparta entre as duas. Sei que o coração de um fumante não vale muita coisa, mas tenho fé que dê, pelo menos, para pagar a terapia das meninas, afinal, minha partida deve tê-las abatido muito. Não chorem queridas, o papai está aqui!
                   Gota gota gota (São as lágrimas do falecido).
                   O meu sistema muscular, braços e pernas, reservo para o meu primo Manuel, estudante do 3º ano de Medicina. Pedindo apenas que ele trate com carinho os seus novos brinquedinhos, ou “peças”, e evite as piadinhas no Anatômico.
                   O restante das coisas (os miúdos, baço, intestinos) eu desejo que sejam vendidos até pro seu Camilo (do açougue), se for o caso, para ver se garante a feira para minha senhora, dona Zeferina, pelo menos até a pensão sair. Isso, se o primo Orlando não foi até o Instituto Médico Legal reconhecer o meu corpo. Se foi o caso, eu estava certo e eles eram amantes, neste caso, peço que o dinheiro apurado com os “miúdos” sejam remetidos ao meu dileto vizinho o “Duzentos e dezesseis anos” (É o tempo de cana que ele pegou), para que o mesmo me faça um favorzinho, que lhe pedi.
                   Faço este testamento e o registro em cartório antes que seja aprovada a Lei de Doação Compulsória de Órgãos e eu perca a única coisa que ainda me pertence (o corpo). Porque até as calças o governo já tirou e é por isso que não doou o cérebro pra ninguém, afinal, com uma bala na cabeça, de que ele me serve...”

                   No dia seguinte, a esposa o encontrou desmaiado no sofá. O seu sobrinho Alcirzinho havia tirado as balas do revólver para mostrar aos coleguinhas na escola. Ela juntou um monte de papéis velhos que estavam sobre a mesa, debaixo da cabeça de Juarez e foi joga-los no lixo, depois de acordar o marido e avisar que o café estava esfriando.

sábado, 15 de outubro de 2011

O Brado Retumbante

Quando eu conheci Clarke, alguns cabelos brancos já lhe coloriam (ou descoloriam) a cabeça. Tivera uma vida difícil, mas vitoriosa. Era casado com a simpaticíssima Bellabella, que recebera esse nome devido a uma falha de comunicação entre o declarante – o pai – e o escrivão do cartório. Clarke e Bella trabalhavam no ramo da telefonia – provavelmente para assegurar que as comunicações fossem mais eficientes e menos danosas...
Sua empresa, a “Fonefone” lhes garantia um padrão de vida razoável e equilibrado. Equilibrado porque ela gastava e ele guardava. Mas, se davam bem e eram o atípico casal feliz. Contudo, o velho Clarke já estava se cansando da opressão da mulher. Ele que em sua infância fora reprimido e cercado de cuidados pela mãe, continuava sofrendo com o autoritarismo das mulheres. Algo como uma sina.
Certa vez, estávamos em uma lanchonete conversando: eu, Clarke, Bella e uns poucos amigos e o narigudo ser começou a cantarolar uma canção, assoviando. Eu e os rapazes ficamos empolgados com a potência, a afinação e a melodicidade do bem servido nasalmente. Todavia, sua sempre simpática esposa lhe fez um sinal inteligível para nós outros solteiros. Ele insistiu. Ela também. Ele emburrou-se. Ela, a quase sempre tão simpática, vencera novamente. Se bem que dizem não haver perdedores entre os amantes. Ou seriam vencedores?
Doutra ocasião, estávamos no Shopping os três e o velho Clarke fez menção de levantar. Ela o deteve com um olhar felino. Eu certamente acompanhava à cena atônito. Ele rosnou e a mulher de sua vida disparou-lhe um dardo letal com um poderoso olhar, levantando levemente o dedo indicador, assinalando proibição. Ele foi se acalmando até dizer que ia ao banheiro. Ela com um sorriso e um leve deslocar da cabeça sinalizou positivamente para o seu amado.
O fato é que ela controlava a vida do meu grande amigo grisalho. Lhe escolhia as roupas, lhe indicava o cabelereiro e o corte de cabelo (exceto channel), selecionava os livros que o outro ia ler, as dietas (visto que temia engordar e o arrastava às privações alimentares), os amigos, os carros e até os biscoitos – algo tão subjetivo. Comia biscoitinhos achocolatados, amanteigados, salgados, vitaminados, quando na verdade tudo o que queria era comer os seus tarecos em paz.
Também não era assim! Ele reagia e a obrigava a tomar mel todas as manhãs, porque era saudável e um imunizante pertinaz. Então, os dois acordavam e, antes mesmo do bom dia, ele lhe enfiava uma colher de sopa de mel e outra de “lambedor” – que chamava de “jurubeba”, pois achava o nome “lambedor” nojento. Além disso... bom, além disso, ele... ele... melhor continuar a história.
Na realidade, aquela situação o incomodava, mas ele ia levando a sua vidinha, trabalhando, lendo e indo ao cinema (ela gostava de cinema). Ele estava disposto a dar umas tapas na dedicada esposa para solucionar o problema, mas ela o chamou para ir ao cinema e mesmo se acalmou.
Foram em uma matinê e as crianças não paravam de gritar, pular e assoviar. Sentaram-se bem atrás: ela com uma coca diet em uma das mãos e um algodão doce na outra. Ele com um pacote de pipocas – que não comia – e uma caixa de 5Kg de tareco venezuelano.
Bellabella ficou indignada com o tumulto e olhava ao redor procurando os criminosos que não paravam de fazer barulho, mesmo com o filme começado. Eram uns fazendo barulho, outros reclamando destes, outros sacaneando estes outros e assim, indefinidamente.
Na magia daquele momento, algo dentro dele se agitou, num misto de raiva e êxtase, algo em seu interior ganiu, rosnou, tossiu e assoviou. E o brado do guerreiro retumbou, qual um tacape na cabeça do inimigo. Ela virou –se para o marido sem entender nada. Achou que estava ouvindo coisas e continuou a procurar os culpados. Afinal, quem iria desconfiar de um distinto senhor grisalho, cabelo muito bem cortado, barba bem feitíssima, camisa de seda e canetas bic (mais baratas)?
À saída do cinema, conservava um discreto sorriso no olhar, mas ao ser interrogado, disfarçou com destreza. Ao se deitarem, pegou no sono antes da companheira amada e ainda envolto na aura de quem houvera vislumbrado a liberdade, externou um sorriso estrelado. A esposa ao perceber o sucedido tratou de acorda-lo aos berros, beliscando-lhe furiosa. Afinal, aquele sorriso era de quem tinha culpa no cartório, alvez até uma amante!
Mas, ele nem ligou, houvera realizado um velho sonho e se tornara o “bichão” conquistador da juventude, apanhando e sorrindo, suplicou à mulher estarrecida:
-         Me chama de “bichão”?!
Ela desmaiou.

domingo, 9 de outubro de 2011

Análise Clarkeana

Vinte e uma horas e quarenta minutos: horário em que quase pontualmente estávamos chegando a pizzaria para começar nossa tradicional pizza das quintas-feiras. Saíamos do Centro e nos dirigíamos os seis para lá.
         Geralmente eu e o Marcos – em meu fusca, o “sapo albino”, por nome Joe II – chegávamos primeiro. Os outros ficavam ainda conversando.
         Naquela 5ª feira não foi diferente. Estacionamos o carro e esperamos alguns minutos por Marins, que pilotava o “Batmóvel” – carro que desafiava as leis da Física, pois ainda andava. Em seguida, chegou Leônidas em sua moto; se atrasou porque houvera esquecido de colocar gasolina, tendo que fazer uma parada de emergência. O casal Clarke e Bella chegava, como de costume, por último, porque o argentino era tão metódico que fazia o mesmo caminho (mais longo) há oito anos, não ousando nem uma mudança de marcha fora da programação.
         Acomodamo-nos todos – ou quase todos – enquanto Leônidas tirava as suas luvas e empilhava coisas sobre a mesa, como o capacete, a pochete e seus frascos de remédio. O “quase todos” é porque eu ia direto para o lavabro e só depois de examiná-lo minunciosamente, tornava ao convívio do grupo, já que era diabético psicológico e urinava com freqüência incomum.
         O nosso era um grupo bem sui generis, visto que saía do árduo e gratificante trabalho da Casa Espírita para comer pizza, tomar refrigerante e conversar longamente. A conversa, como é de se supor, nem sempre era “edificante”. Rolava em torno de Espiritismo, a difícil missão de ter irmãos e a teoria da jurubeba (“lambedor”), desenvolvida por Clarke. E era um grupo bem eclético:
         Marins, margeava os quarenta anos, tinha cara de índio, olhos pequenos e um sorriso esfíngico. E, sobretudo, era despenteado, convictamente despenteado. Tanto assim que, quando a sua esposa Maria (pequena e culinária) o viu chegar em casa penteado, esbravejou: “Vou pra casa da mamãe, assim não dá!”. Ela não foi, pois já era tarde, mas ele teve que dormir no sofá da sala. E Marins voltou a manter os cabelos naturalmente despenteados ou “marinizados” (vocábulo mais atual).
         Seu filho mais velho era Leônidas, singular figura. Estudante do curso de Psicologia, dera vazão à sua curiosidade científica. Viciado em Afrim, Sorine, Aturgil e outros descongestionantes, era o obsessor encarnado de Marcos. Contestador, solucionara o problema da dominação autoritária de Bella em relação ao marido, ao chamar o mesmo de “Bichão”, despertando-o para a liberdade.
         Marcos, trazia sempre Carla para a mesa, mesmo quando não fisicamente. Ele e sua namorada eram suavemente criticados pelo seu comportamento excessivamente apaixonado. Sempre pronto a dar palpites, Marcos – quase sempre – aceitava as induções obsessivas glúteas, empetradas por Leônidas. Nada comparado às vinte e uma fatias de pizza da sua puberdade.
         O grisalho Clarke era extremamente tímido, porém divertido. Espirituoso e bonachão, ostentava um nariz nos moldes latinos, modelo francês ou italiano, portanto grande. O “grisajo” Dom Clarke era argentino, casado e dominado pela pintosa Bella. Sua sovinice era inconteste. E sua meticulosidade cirúrgica o fazia um raro exemplo de pontualidade e disciplina, com o charme do sotaque “paraibano”.
         A pintosa Bella tinha uma hispânica pinta no rosto e um porte atlético, apesar de já ter vinte anos no centro espírita, quando chegamos. Buscava obsessivamente manter-se em forma, temendo tornar-se protuberante. Viciou-se desde cedo em gelo, obrigando o seu esposo “arrentino” a ficar com os limões das duplas cocas com limão e gelo. É claro que o mesmo aperfeiçoou o vício, passando, com o tempo, a engolir as rodelas, sorrindo e sem mastigá-las.
         Eu era conhecido pela minha radicalidade. Aos vinte e poucos anos era bonito, inteligente e já muito mentiroso, como todo bom professor. Bastante observador e irônico, escrevia crônicas, músicas, poesias, imitava, resmungava e sacaneava. Possuía idéias meio polêmicas – chamavam-me “infiltrado” – e tinha uma tendência quase irresistível a ser do contra. Era amareláceo como Clarke e Leônidas e às vezes (quando não usava gel) aparecia com o cabelo ligeiramente marinizado. Coisa de amador, “muito fraquinho”, segundo o julgamento do mestre maior do despenteio.
         Mas, retornando àquela 5ª feira, iniciou-se o estranho ritual, que daria o pontapé inicial à nossa grande noite: a indecisão sobre qual o sabor de pizza iríamos pedir.
-         Pede de banana – disse.
-         Mas, banana é horrível – retrucou Marcos, enquanto Bella achava graça.
-         É que aquela banana (da semana passada) estava verde e sem canela.
-         Será que hoje tem banana? – perguntou Marins, apaziguador, já que quase nunca tinha.
Eu desisti da idéia de pedir este sabor, porque a maioria dos lugares não sabia fazer uma boa pizza de banana. Por isso, anos de revolta depois, eu abriria uma pizzaria chamada Ban Ana, freqüentada por um grupo de apreciadores da especiaria, bastante seleto: um cunhado, dois amigos gays e três ex-mulheres a quem eu houvera viciado na pizza de banana.
-         Pede qualquer coisa, mas pede logo! – tornei.
-         É, escolhe logo – disse o Marcos.
-         Presunto – sugeri.
-         Não, presunto é carne de porco.
Marins optou:
-         Pede meia de Quatro Queijos.
A outra metade acabou sobrando para Leônidas escolher, como sempre, e isto – é claro – levou tempo. O argentino indignou-se e mordiscando um belo limão, pronunciou-se, dando seguimento ao nosso ritual. Antes, porém, desenrolou o cordão dos óculos, como sempre fazia nos momentos solenes.
-         É sempre a mesma coisa. Pedem Quatro Queijos, ou Cinco Queijos, e outra. Aí comem a de queijo e a outra sobra!
-         E o pobre do Marins – fez a Bella imitando o nosso sotaque carioca – que pede a Quatro Queijos, acaba não comendo. – Terminou a frase rindo, como de costume.
Porém desta vez tudo acabou bem. As fatias de pizza foram comidas sem distinção, sem titubeio. Teria a Espiritualidade interferido? Teríamos nos curado de nossos ímpetos psicóticos? O Fluminense teria, enfim, contratado um jogador apenas ruim?
Nada disso. Havíamos pedido uma pizza inteirinha de Quatro Queijos. Graças a perspicácia de Mr. Clarke e sua análise clarkeana, havíamos nos livrado desse ímpar dilema.
“Fantástico!”