Teodorico estava atrasado para o trabalho, faltara luz no bairro durante a noite, e o despertador não havia tocado. Ele saiu do banho – ainda molhado – e foi para a cozinha tomar o seu café. Encheu uma xícara com leite, colocou duas colheres generosas de açúcar e repetiu o ritual da “pingada”, deixando deslizar fulgidamente uma ou duas gotas de café, que é pra não aumentar muito a presão.
Procurou o pão sobre a mesa e não o achou. Foi até o armário se lastimando pelo tempo perdido e abriu todas as portas do móvel sem, contudo, encontrar alguns pães. Olhou no forno, para ver se Alzira lhe tinha feito torradas com o pão dormido e nada.
Meio irritado, se dirigiu à mulher que lhe sucedera no banho:
- Pão?!... Pão!?... Pão?! – num misto de dúvida e protesto. Sua senhora retrucou:
- O que foi?... O que foi “Didico”?
- Onde está o pão? Não tem pão?
- Não tem pão.
- “Não tem pão”!
- É. “Não tem”, acabou.
- Acabou o pão?
- Acabou! Os pães acabaram-se. Foram comidos.
- “Comidos”? – perguntou ainda mais irritado.
- Os meninos comeram.
- “Meninos”?!
- É, os meninos – tornou a senhora, ainda ensaboada – por que você não vai comprar pão, na padaria?
Essa pergunta resoou como uma ironia gravíssima. Quiçá passível de divórcio. Ou de uma surra. Esta segunda alternativa agradou mais ao dementado Teodorico. Não pela pergunta em si, ou por mais uma ironia em 19 anos de casado, mas porque o carteiro atrasado se lembrou da triste infância em Valadares.
Recordou-se de que era sempre ele, em uma família de doze irmãos, com menos de quinze anos de diferença, que todas as tardes comprava o pão. Ou os pães, no caso 40. Mas, “pão” fica mais verossímel que “pães”.
Lá pelas nove da manhã, quando conseguiu chegar no trabalho, Teodorico verificou que a sua bicicleta, instrumento de trabalho, estava com o pneu ainda empenado, devido ao acidente do dia anterior. Dirigiu-se ao mecânico da empresa, “Parazinho” e bradou:
- Por que você não consertou o pneu da “Ofélia”? – “Ofélia” era a bicicleta.
- Esqueci – disse o mecânico.
- Pois eu acho é que te esqueceram de fazer com cérebro! Seu pau-de-arara desterrado!!! Ajeita essa joça que eu tô atrasado!!! – e o paraibano assim o fez.
Na hora do almoço, “Parazinho” ainda guardava as impressões do nefando diálogo. Ao se encontrar com sua noiva, 35 minutos atrasada, perguntou:
- Por que o atraso?
- Foi o ônibus, Ariosto. – este era o nome de “Parazinho”.
- Por que você não veio trotando, sua mula! Agora, ou a gente almoça ou compra o fogão... – a mulata engoliu em seco.
Ao retornar para a livraria onde trabalhava, a mulata Aparecida foi admoestada pela chefe, dona Célia.
- Por que o atraso?
“Por que o atraso?”, aquela pergunta soou novamente em sua cabeça e a menina se “arretou”:
- Quer me descontar, me desconta. Mas, não me enche o saco!
Dona Célia que gostava da menina como a uma filha que nunca pode ter, evitou a discussão. Todavia, guardou em seu íntimo a necessidade de uma vingança. O que ocorreu justamente no ônibus dirigido por Lamartine – poeta e cantor.
Célia, inteira em seus trinta e cinco anos, pegou o coletivo e foi interpelada por um colega:
- Como vai, Célia? Tá boa? – antes mesmo que ela pudesse responder, Lamartine falou:
- Claro, tudo em cima! – dando ênfase na segunda frase. Embora ele nem tivesse ouvido a pergunta do outro passageiro e houvesse se dirigido ao guarda Jessé. Dona Célia não contou conversa, desceu o braço em Lamartine e foi expulsa do ônibus, antes que pudesse continuar.
Ao largar do emprego, lá pelas 18h, Lamartine foi até um boteco e tomou duas ou três cervejas para acalmar-se. E cantou uns pagodes. Porém, um outro freqüentador do lugar, que tinha rixa antiga com Lamartine, por causa de um carteado, falou em voz alta para os companheiros de copo:
- Antigamente a gente podia vir para este estabelecimento e beber em paz! – enfatizou a palavra “paz”.
Como o Lamartine, meio chateado em sua mesa, nem ligou, Lucrécio, já embriagado tornou à carga:
- Ô Manuel, esse teu galo tá com gôgo!
Não houve tempo para se evitar que Lamartine quebrasse um taco de sinuca na cabeça do ávido crítico. Devido ao efeito etílico e aos braços de remador do motorista, Lucrécio caiu e dormiu até as 2h30 da madrugada, quando o bar fechou e ele teve que ir para casa.
No dia seguinte, encontrou-se com um vizinho na padaria, comprando pão. Era o carteiro Teodorico, a quem conhecia de vista. Seguindo a um impulso bestial, Lucrécio respondeu ao cumprimento de “Bom dia” do outro, com um “Vai pastar!”. Provavelmente algo no inconsciente coletivo o despertara para o fio do novelo.
Teodorico reconhecendo em si o pontapé inicial daquela bola de neve, por um secreto instinto, buscou respirar fundo e distrair-se com os brigadeiros da vitrine.
Acabando de escrever esta crônica, fechei o caderno, guardei a caneta e pus uma camisa. Fui até a padaria e comprei dez pães e um leite. Pela primeira vez, o fiz sem lastimar. Todavia, com medo de algum efeito retardado, não desejei “bom dia” a ninguém, apenas sorri.
Maio de 1997...
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