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domingo, 20 de novembro de 2011

Advertência Inesperada

A reunião mediúnica seguia o seu curso. O grupo constava de nove pessoas, das quais oito estavam à mesa. A nona, encarregada da aplicação de passes e sustentação fluídica, encontrava-se em uma cadeira à parte. Eventualmente, aproximava-se do grande círculo para executar a sua função com mais eficiência. O clima era harmônico e pude intermediar uma das mais belas comunicações de que me recordo. Naquela noite, era um dos cinco médiuns de psicofonia presentes e sob os auspícios da equipe espiritual, permiti a aproximação do espírito comunicante. Ele foi interpelado pelo doutrinador:
-         Seja bem vindo, meu irmão! Em que podemos ajudar? – ao que retrucou:
-         Pelo que me conste, eu não vim aqui por necessitar de ajuda.
-         Pois então, a que veio?
-         Vocês quebraram o acordo! Não cumpriram a sua parte no acordo!
-         De que se trata, meu irmão? A que acordo se refere?
-         Vocês se meteram em nossos negócios! – e continuou visivelmente (ou invisivelmente) irritado – Nós lhes concedemos salvo conduto, permitimos que resgatassem os que já estavam prontos. Mas vocês quebraram o acordo! Interfiriram em negócios que não lhes diziam respeito. – bradou.
-         Meu irmão, nossa missão é ajudar a tantos quantos pudermos. Não nos cabe julgar, devemos amparar.
O irmão desencarnado continuou, em tom colérico:
-         A trégua está desfeita! Vocês não mantiveram a palavra, agora agüentem as conseqüências. A justiça será feita!
-         Sim, meu irmão, será feita. Mas, será feita por Deus. A justiça a ser feita é a do amor. – enquanto falava, o doutrinador emitia ondas que amenizavam o descontrole do espírito comunicante. Companheiros desencarnados buscavam dissolver a compacta camada escura que encobria o espírito enraivecido. Mas, quanto mais resíduos deletérios eram retirados, mais o ódio produzia.
Fazia-se necessária à intervenção do passista encarnado, com seus fluidos animalizados, mais compatíveis com o socorrido. Este cooperador foi intuído a locomover-se em direção ao médium, posicionando-se à sua retaguarda. Os recursos fluídicos do magnetizador foram somados aos agentes desencarnados, obtendo-se um resultado favorável.
Sob um clima mais propenso, atingido em poucos segundos, o doutrinador recomeçou o colóquio:
-         Companheiro, perceba que a nossa irmã merece outra chance.
-         Aquela víbora já não desperdiçou tantas oportunidades! Por que deveria crer agora, que está modificada? Não creio!
-         Ela poderá lhe dar aquilo que mais deseja...
-         Um reencarne?! Ela me terá como filho?
-         Sim, o irmão terá outra oportunidade, assim como a irmã a tem, agora.
-         Ela me rejeitou antes.
-         Pensemos que agora será diferente. Oremos a Deus por isso!
-         Espere, eu vou fazer o que me pede, deixa-la em paz e submeter-me ao processo de preparação para o reencarne. Mas, se ela falhar de novo, meus seguidores vão fazer justiça!
-         O irmão deverá ficar alguns dias aqui, conosco, para que a preparação saia a contento e a justiça de Deus se faça.
-         Tudo bem, mas preciso orientar a meus comandados. – fez-se uma pausa e o espírito outrora insensível às emoções humanas, colocou-se aturdido:
-         Mas, espere... Eles estão aqui?! Descumpriram minhas ordens e entraram!!!
-         Todos devem ter oportunidades de ouvir a verdade. Todos merecem a liberdade, meu irmão. – com mais estes acontecimentos e após a argumentação lógica, aliada a um carinho fraternal, o espírito anteriormente enlouquecido, se desarmou por completo.
A nuvem negra que o cobria, cedera lugar a uma tênue luminosidade, e sua inteligência insubmissa e implacável fora anestesiada pelo amor e pela lógica da humildade. Reconhecendo-se como alguém incapaz de julgar, falou com humildade. Uma humildade que jazia por anos a fio nas profundezas de sua alma:
-         Gostaria de pedir-te uma coisa.
-         Diga, meu irmão.
-         Gostaria de pedir que me fosse retirado este aparelho que me colocaram. Uma espécie de capacete perispirítico, para evitar uma ofensiva magnética de minha parte, uma possível hipnose.
-         Vamos pedir a Deus, amigo. Que se faça a sua vontade!
-         Agora, agora eu posso vê-lo. Posso vê-lo em toda a sua luminosidade... Como brilha!
-         É Jesus, que se reflete em nós, meu amigo. O brilho que vês é uma ínfima fração do amor de Deus.
E demonstrando toda a lucidez que sua intelectualidade alcançou sob a égide da humildade, desferiu:
-         Mas, não te envaideças. Se não, da próxima vez, estaremos sentados nos lugares trocados, meu irmão.
-         Obrigado, irmão. Espero que nos encontremos novamente e que possamos nos reconhecer. – disse o doutrinador ao novo amigo, ao que este, envolto em emanações de sublime harmonia e beleza, reluziu:
-         Com certeza. Com toda a certeza, nos veremos, meu irmão.
-         Graças a Deus! – suspirou o orientador encarnado, visivelmente emocionado, como nós outros que recobrávamos a lucidez, deixando o transe mediúnico.

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