Eu não conheço ninguém que não goste de chegar cansado em casa e se jogar na sua cama. Ou que prefira dormir na casa dos outros, até nas questionáveis acomodações das casas de praia a usufruir da sua caminha. Ninguém, além de mim! É que o meu colchão é muito fino e adquiriu forma de “V” – torturante.
No domingo, passara o dia sentado e senti a coluna estalar quando já me preparava para dormir, pensei: “Umas boas horas na horizontal me farão como novo”. Se fosse, seria, mas não foi...
E eu acordei na segunda feira meio alquebrado, com o que procurei não me irritar, domando o meu temido mau humor matinal. Abri a porta do quarto e vislumbrei o banheiro em toda a sua plenitude. Saltei ao seu encontro, entretanto, meu irmão que tinha o quarto colado ao banheiro, foi mais ligeiro. Pensei: “Tudo bem”. “Tudo bem é o cacete”!
Tomei o ônibus já mais sereno. Até esbocei um sorriso para um vizinho, no que fui recompensado pelo destino, que me reservou um lugar sentado no veículo. Todavia, uma senhora gorda e seus pacotes me fizeram implorar para que os mesmos ocupassem meu assento. Posicionei-me de frente à larga escada do coletivo que era dividida por um corrimão (Para anão, é verdade. Mas não me ocorre outro nome.). Tomei posição no lado esquerdo e um outro rapaz, no direito. Uma colega universitária me acotovelou, postando-se à minha frente, já com o nariz embaçando o vidro da porta.
Quando o ônibus ia partir, vimos os três que o circular do campus (ônibus interno) tomava fôlego para sair. Olhamo-nos os Três com apreensão e uma certa animosidade. Um conquistador barato, que se encontrava sentado numa das cadeiras da última fila, tentando tranqüilizar a moça, falou:
- Dá uma corridinha que dá! – Que construção literária! Mas o fato é que está sendo transcrito na íntegra, o comentário.
As portas se abriram e a universitária buscou uma saída explosiva, no que foi brecada pelo rapaz da parte direita da escada. O corpo da menina, após chocar-se contra o do colega de universidade, voltou ao ônibus, fazendo-a a cair sobre os degraus e alguns dedos meus. Não se dando por vencida, buscou uma nova escapada. Transpôs o meio fio, mas desequilibrou-se na parte de barro, “catando cavaco” por uns dois metros. Aí ela recuperou toda a sua dignidade, se ajeitou e foi andando como uma lady. Eu, mais cauteloso, fiz uma mímica de corrida para sensibilizar o motorista. Contudo, para minha surpresa, o sofrido trabalhador vinha descendo do ônibus circular para verificar o pneu...
Se você pensou que o pneu estava furado e fiquei duas horas esperando outro circular ou uma carona, é porque você não consegue enxergar nenhuma poesia na vida. Isso não aconteceu. Naquele dia...
O que ocorreu foi que o veículo estava tão cheio e que o piloto teve dificuldades para adentrar o mesmo, o que só conseguiu após argumentar que sem ele para dirigir, o transporte não partiria. Porque nós sabemos que aqui na Universidade tudo tem que ser muito bem explicadinho, senão os xiitas de Nike soltam o verbo. Mas desta vez até os marxistas se convenceram que ao exigir a sua entrada no ônibus para nos levar a nossos objetivos, o motorista não estava sendo burguês e muito menos querendo nos explorar ou papar a nossa “mais valia”.
A viagem foi tranqüila e eu pude aprender um pouco mais sobre a fé, com um rapaz que vinha sentado na janela, em frente ao local em que eu me equilibrava. O religioso companheiro limpava o nariz com o dedo indicador direito, como se estivesse em uma ilha deserta. Quando passamos por uma escultura sacra, ele interrompeu o seu lazer. “Deve ser falta de respeito com a santa”, pensei. Só sei que mais do que rapidamente ele fez o sinal da cruz para tornar à intrigante atividade.
As duas primeiras aulas foram as piores do pior professor do Campus Universitário. Mas eu sobrevivi, apenas um pouco abalado, como demonstrava a minha pressão à 20 por 18. “Como é que eu sei da minha pressão naquele instante”? Tá bom, eu não sei. Pronto. Sobrevivi a aula e minha veia não estourou, nem tive um ataque cardíaco.
Sentei-me em uma das mesas da lanchonete com “Dani Baby” (cuja origem do apelido exige uma outra estória), depois chegou a motoqueira Helena Circuncisão de Macedo, que apesar do nome “circuncisão” registrado em cartório, não era, obviamente, circundada. Na mesa ao lado: Da Paz, Alessandra (O Terror do Bairro Nordeste) e Luciana – a língua mais rápida da Universidade (No sentido verbal, é claro! “Ou não?”)
- É aniversário da Luciana, Sandro, não vai dar os parabéns?! – disse Alessandra.
Levantei-me e fui até a mesa delas. Luciana saltou para longe, dizendo:
- Foi ontem.
Voltei inconformado para a companhia de Baby e Helena. Esta me falava sobre o seu grande amor, enquanto a outra me enfiava goela abaixo um croissant de queijo (Queijo? Alguns autores discordam.).
- Hei Sandro, não vem me desejar os parabéns?! – Disse Luciana, voltando.
Tornei a me levantar e fui cumprimenta-la. Quando estava na segunda palavra, Baby me atravessa revoltada:
- É a última vez que chamo você para lanchar comigo! Você me deixou sozinha! Que desconsideração!!!
Eu gaguejei e tentei me explicar: “O que é isso, Baby?”, mas ela se foi. Virei-me, novamente para as meninas, todavia, Luciana não perdeu a deixa para uma ironia:
- Deixe de ser galinha!
Meio zonzo qual uma locomotiva alimentada por uma garrafa de tequila, puxei Helena para a mesa das outras.
Alguém fez uma piada e Alessandra gargalhou freneticamente expelindo – no mínimo – 100ml de Coca-cola sobre nós.
Fiquei catatônico até o fim da última aula, quando me dirigi para o setor I, em busca de minha garota. Ela me saudou com um sorriso.
- Oi. – eu disse.
- “Oi”? Você não poderia ser um pouco mais romântico!?!
Rolei pelos gramados do Campus, chorando e uivando.
Também de abril de 1997...
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