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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Haja amor!

Fora um final de semana agradabilíssimo. Fomos os seis inseparáveis companheiros do centro espírita ao fórum de debates que trazia o tema “amor” e nos contagiou à todos. Não fosse por ele (o amor) talvez nem estivesse contando esta nossa epopéia, onde limites foram transpostos, o amor agiu, mas onde – vez por outra – nos mostramos os mesmos de sempre...
                   Os protagonistas desta estória são: Clarke e Bella (o casal), Marins e Leônidas (pai e filho) e Marcos e Sandro, ou seja, eu. No decorrer desta estória, entretanto, mais lhes será revelado.
                   O primeiro contratempo ocorreu já vinte minutos antes do início do evento (o Fórum). O meu, entre aspas, carro houvera visitado a oficina mais de cinco vezes nas últimas duas semanas e trazia ainda um problema no disco de embreagem. Como a oficina era próxima do ginásio, onde o congresso se daria, resolvi deixar o carro na oficina e pegá-lo à saída (quatro horas depois). Chegando lá, convidei o mecânico para uma voltinha, objetivando mostrar-lhe o defeito do automóvel. Como o mesmo se encontrava embriagado e quiçá dementado, disse que o problema era em mim e não no carro. Ensandecido, saí da oficina blasfemando, mas alguns minutos após adentrar o auditório do Fórum, recobrei o equilíbrio (ou o desequilíbrio) habitual.
                   Na hora do jantar voltei à oficina onde constatei que o “problema imaginário” era tão “simples” que para resolvê-lo, o mecânico teve que retirar o motor do carro. Fui até em casa de ônibus e voltei correndo para a segunda parte do evento. Não deu nem para esquentar a cadeira porque Marcos, meu amigo, passou mal e tivemos que bater no pronto-socorro do hospital público, que reflete bem o respeito que a nossa sociedade tem pela dor alheia...
                   No segundo dia do evento, na parte da manhã, chegamos só quinze minutos atrasados porque fomos com os Marins – quase um Record. O Marins pai era amante da computação e de pizza com borda de catupiri. Beirava os quarenta anos e mantinha os cabelos absolutamente despenteados. Quanto à pontualidade, digamos que ele era o único ser na face da terra menos pontual do que seu filho, Leônidas.
                   Leônidas era especialista em mangar, malhar, sacanear e gargalhar. Para tanto, a natureza lhe concedera uma bocarra considerável e dentes perfeitos. Seu hobby era colecionar palitos de dentes (todos usados).
                   E Marcos, antes que eu me esqueça de novo (visto que já esqueci no parágrafo anterior ao anterior) era grandalhão e canhestro (desajeitado). Além disso, era manso. Afinal, se não o fosse, quem descreveria assim um homem de quase 1,90m e aluno de karatê por três semanas e ½, quando fazia a 6ª série?
                   Quando as palestras da manhã do sábado acabaram fui até a oficina e peguei o pseudo-carro de volta. Marcos resolveu ir de carona com Marins para não ter que andar até a oficina, o que talvez não tenha sido boa idéia, afinal, o Bat-móvel, veículo da família que causara risadas a dezesseis donos de ferro-velhos, lhes apunhalou logo na saída do estacionamento. O problema? Algo simples: a roda dianteira esquerda resolveu dar uma voltinha, talvez para fugir aos maus tratos.
                   No sábado à tarde, eu, Bella e a risonha Eva fomos juntos fazer um curso sobre Diálogo Fraterno, ou seja sobre a recepção e a orientação de visitantes ao Centro. Um dos quesitos para ser um bom orientador pôs toda a minha radicalidade à prova: ter mais de 25 anos. Eu não tinha! Foi o suficiente para as “meninas” pegarem no meu pé. Na saída, fomos tomar uma água de côco:
-         Hei Sandro, você não vai pagar?
-         Não, paguem vocês, eu tenho menos de vinte e cinco – rebati, ensaiando uma vingança. Me despedi e fui em casa.
Quando retornei do jantar, para as atividades da noite, encontrei o grisalho Clarke mastigando freneticamente um chiclete. O que só fazia nos momentos de tédio mortal ou profunda irritação, visto que mordia pertinazmente a língua e os cantos da boca. Desta vez o motivo não era tédio. Nem tinham roubado nenhuma de suas tampas de caneta, visto que não as emprestava. Afirmava que ninguém rouba uma caneta sem tampa, se não, mancha a camisa ou a calça. Na dúvida, como homem “prevenido” que era, só usava canetas populares, para minimizar possíveis perdas e assegurar a solidez da economia. Mas o motivo da irritação de Clarke, naquela noite, era ter sido grosseiro. Cansado de esperar o seu sanduíche, rompera cozinha à dentro e só saíra com o alimento na mão. Todavia, como era espírito em evolução, chateara-se com sua atitude. Resolveu, então, dar um ponto final naquela situação. Levantou-se, deu uma gorjeta ao garçon e partiu, novamente, para a cozinha. Lá se explicou nestes termos:
-         Pero que sin, pero que nom, invadi a tua praia... – O cozinheiro sem entender muita coisa, lembrou-se do irmão que vivia em Goiás e que não via há sete anos, e beijou-lhe a mão. Recebeu em troca um cafuné.
O dia de domingo transcorreu tranqüilo, exceto pelo meu telefonema, na hora do almoço, para a minha namorada:
-         Alô.
-         Alô.
-         A palestra só acaba às oito.
-         Oito? Tão tarde.
-         É.
-         É! Você vem aqui?
-         Não vai dar.
-         Tudo bem.
-         Tudo bem mesmo?
-         Tudo.
-         Como “tudo bem”?! Você não sente a minha falta?
-         O que você quer que eu faça, te obrigue a vir aqui?! Então tá, venha aqui em casa!!!
-         Não.
-         Por favor.
-         Assim não vale. Só porque eu falei!
-         Deixe de besteira, venha!
-         Se quiser me ver, você sabe onde me encontrar.
-         Ôu!!!
-         Tchau.
-         Se quiser aparecer...
-         Não vou aparecer.
-         Mas, se quiser, apreça. Um beijo.
-         Beijo.
Horas depois, novamente imerso no ambiente do Fórum, ligaria para ela e faria as pazes.
O fato é que fora um final de semana conturbado, cheio de problemas que – criados ou não – nos testaram, testaram o nosso “amor”.
Na 2ª feira, após terminar o Evangelho no lar, percebi que crescera muito. Mas não o suficiente para desperdiçar uma oportunidade de vingança contra um inimigo atroz do fim de semana: um pernilongo. Esmaguei-o com minhas próprias mãos, punindo-o pelas noites de tortura. Aí, a paz tornou a reinar, e o amor suspirou aliviado...

sábado, 22 de outubro de 2011

Testamento

Eu, Juarez José da Silva, brasileiro, divorciado, em pleno juízo de minhas faculdades mentais, venho por meio deste dispor de meus bens, porque para onde vou não mais precisarei destas coisas.
                   Deixo o meu rim esquerdo para o tio Bené, que tem várias pedras no mesmo e não agüenta mais as dores. E por este, se livrará das hemodiálises. O rim direito deixo pro seu Teobaldo, dono da padaria que nunca cobrou o “prego”, pregado por meses a fio e que já está há meses na fila de espera para transplante.
                   O meu estômago doou para o Instituto Estadual de Gastroendocrinologia, porque a gastrite já destruiu muito e só serve mesmo é pra estudo.
                   Os meus testículos em conjunto com o escrotal, reverto à minha ex-esposa, que em nossos dezesseis anos de casados, contribuiu muito para o seu crescimento. Enchendo-me de sobremaneira, o saco.
                   O meu “birgulinho” deixo para aquele rapaz cearense que teve o dele cortado pela namorada. Espero que ele não me decepcione, ou melhor, eles. O rapaz, no uso do instrumento e o instrumento, honrando a sua origem.
                   O meu fígado é, talvez, o órgão mais disputado. Se bem que eu ache que não vale muita coisa. Na dúvida, deixo para dois amigos muito necessitados: o compadre Lourenço, amante insaciável das branquinhas. E meu tio João, que nunca fez distinção de cor, gosto ou teor etílico.
                   As minhas córneas (olhos) deixo para o Instituto de Cegos, para que beneficie algum dos inscritos, desde que seja do sexo feminino. Afinal, imaginem os lugares em que entrarei e o que verei... Só espero que as amigas das receptoras não se ofendam ou façam mal juízo das moças.
                   O meu coração deixo para as minhas duas filhas, para os meus dois anjinhos com que a megera me presenteou. Como sei que, graças a Deus, elas não têm problemas cardíacos, sugiro que o mesmo seja vendido e que o dinheiro se reparta entre as duas. Sei que o coração de um fumante não vale muita coisa, mas tenho fé que dê, pelo menos, para pagar a terapia das meninas, afinal, minha partida deve tê-las abatido muito. Não chorem queridas, o papai está aqui!
                   Gota gota gota (São as lágrimas do falecido).
                   O meu sistema muscular, braços e pernas, reservo para o meu primo Manuel, estudante do 3º ano de Medicina. Pedindo apenas que ele trate com carinho os seus novos brinquedinhos, ou “peças”, e evite as piadinhas no Anatômico.
                   O restante das coisas (os miúdos, baço, intestinos) eu desejo que sejam vendidos até pro seu Camilo (do açougue), se for o caso, para ver se garante a feira para minha senhora, dona Zeferina, pelo menos até a pensão sair. Isso, se o primo Orlando não foi até o Instituto Médico Legal reconhecer o meu corpo. Se foi o caso, eu estava certo e eles eram amantes, neste caso, peço que o dinheiro apurado com os “miúdos” sejam remetidos ao meu dileto vizinho o “Duzentos e dezesseis anos” (É o tempo de cana que ele pegou), para que o mesmo me faça um favorzinho, que lhe pedi.
                   Faço este testamento e o registro em cartório antes que seja aprovada a Lei de Doação Compulsória de Órgãos e eu perca a única coisa que ainda me pertence (o corpo). Porque até as calças o governo já tirou e é por isso que não doou o cérebro pra ninguém, afinal, com uma bala na cabeça, de que ele me serve...”

                   No dia seguinte, a esposa o encontrou desmaiado no sofá. O seu sobrinho Alcirzinho havia tirado as balas do revólver para mostrar aos coleguinhas na escola. Ela juntou um monte de papéis velhos que estavam sobre a mesa, debaixo da cabeça de Juarez e foi joga-los no lixo, depois de acordar o marido e avisar que o café estava esfriando.

sábado, 15 de outubro de 2011

O Brado Retumbante

Quando eu conheci Clarke, alguns cabelos brancos já lhe coloriam (ou descoloriam) a cabeça. Tivera uma vida difícil, mas vitoriosa. Era casado com a simpaticíssima Bellabella, que recebera esse nome devido a uma falha de comunicação entre o declarante – o pai – e o escrivão do cartório. Clarke e Bella trabalhavam no ramo da telefonia – provavelmente para assegurar que as comunicações fossem mais eficientes e menos danosas...
Sua empresa, a “Fonefone” lhes garantia um padrão de vida razoável e equilibrado. Equilibrado porque ela gastava e ele guardava. Mas, se davam bem e eram o atípico casal feliz. Contudo, o velho Clarke já estava se cansando da opressão da mulher. Ele que em sua infância fora reprimido e cercado de cuidados pela mãe, continuava sofrendo com o autoritarismo das mulheres. Algo como uma sina.
Certa vez, estávamos em uma lanchonete conversando: eu, Clarke, Bella e uns poucos amigos e o narigudo ser começou a cantarolar uma canção, assoviando. Eu e os rapazes ficamos empolgados com a potência, a afinação e a melodicidade do bem servido nasalmente. Todavia, sua sempre simpática esposa lhe fez um sinal inteligível para nós outros solteiros. Ele insistiu. Ela também. Ele emburrou-se. Ela, a quase sempre tão simpática, vencera novamente. Se bem que dizem não haver perdedores entre os amantes. Ou seriam vencedores?
Doutra ocasião, estávamos no Shopping os três e o velho Clarke fez menção de levantar. Ela o deteve com um olhar felino. Eu certamente acompanhava à cena atônito. Ele rosnou e a mulher de sua vida disparou-lhe um dardo letal com um poderoso olhar, levantando levemente o dedo indicador, assinalando proibição. Ele foi se acalmando até dizer que ia ao banheiro. Ela com um sorriso e um leve deslocar da cabeça sinalizou positivamente para o seu amado.
O fato é que ela controlava a vida do meu grande amigo grisalho. Lhe escolhia as roupas, lhe indicava o cabelereiro e o corte de cabelo (exceto channel), selecionava os livros que o outro ia ler, as dietas (visto que temia engordar e o arrastava às privações alimentares), os amigos, os carros e até os biscoitos – algo tão subjetivo. Comia biscoitinhos achocolatados, amanteigados, salgados, vitaminados, quando na verdade tudo o que queria era comer os seus tarecos em paz.
Também não era assim! Ele reagia e a obrigava a tomar mel todas as manhãs, porque era saudável e um imunizante pertinaz. Então, os dois acordavam e, antes mesmo do bom dia, ele lhe enfiava uma colher de sopa de mel e outra de “lambedor” – que chamava de “jurubeba”, pois achava o nome “lambedor” nojento. Além disso... bom, além disso, ele... ele... melhor continuar a história.
Na realidade, aquela situação o incomodava, mas ele ia levando a sua vidinha, trabalhando, lendo e indo ao cinema (ela gostava de cinema). Ele estava disposto a dar umas tapas na dedicada esposa para solucionar o problema, mas ela o chamou para ir ao cinema e mesmo se acalmou.
Foram em uma matinê e as crianças não paravam de gritar, pular e assoviar. Sentaram-se bem atrás: ela com uma coca diet em uma das mãos e um algodão doce na outra. Ele com um pacote de pipocas – que não comia – e uma caixa de 5Kg de tareco venezuelano.
Bellabella ficou indignada com o tumulto e olhava ao redor procurando os criminosos que não paravam de fazer barulho, mesmo com o filme começado. Eram uns fazendo barulho, outros reclamando destes, outros sacaneando estes outros e assim, indefinidamente.
Na magia daquele momento, algo dentro dele se agitou, num misto de raiva e êxtase, algo em seu interior ganiu, rosnou, tossiu e assoviou. E o brado do guerreiro retumbou, qual um tacape na cabeça do inimigo. Ela virou –se para o marido sem entender nada. Achou que estava ouvindo coisas e continuou a procurar os culpados. Afinal, quem iria desconfiar de um distinto senhor grisalho, cabelo muito bem cortado, barba bem feitíssima, camisa de seda e canetas bic (mais baratas)?
À saída do cinema, conservava um discreto sorriso no olhar, mas ao ser interrogado, disfarçou com destreza. Ao se deitarem, pegou no sono antes da companheira amada e ainda envolto na aura de quem houvera vislumbrado a liberdade, externou um sorriso estrelado. A esposa ao perceber o sucedido tratou de acorda-lo aos berros, beliscando-lhe furiosa. Afinal, aquele sorriso era de quem tinha culpa no cartório, alvez até uma amante!
Mas, ele nem ligou, houvera realizado um velho sonho e se tornara o “bichão” conquistador da juventude, apanhando e sorrindo, suplicou à mulher estarrecida:
-         Me chama de “bichão”?!
Ela desmaiou.

domingo, 9 de outubro de 2011

Análise Clarkeana

Vinte e uma horas e quarenta minutos: horário em que quase pontualmente estávamos chegando a pizzaria para começar nossa tradicional pizza das quintas-feiras. Saíamos do Centro e nos dirigíamos os seis para lá.
         Geralmente eu e o Marcos – em meu fusca, o “sapo albino”, por nome Joe II – chegávamos primeiro. Os outros ficavam ainda conversando.
         Naquela 5ª feira não foi diferente. Estacionamos o carro e esperamos alguns minutos por Marins, que pilotava o “Batmóvel” – carro que desafiava as leis da Física, pois ainda andava. Em seguida, chegou Leônidas em sua moto; se atrasou porque houvera esquecido de colocar gasolina, tendo que fazer uma parada de emergência. O casal Clarke e Bella chegava, como de costume, por último, porque o argentino era tão metódico que fazia o mesmo caminho (mais longo) há oito anos, não ousando nem uma mudança de marcha fora da programação.
         Acomodamo-nos todos – ou quase todos – enquanto Leônidas tirava as suas luvas e empilhava coisas sobre a mesa, como o capacete, a pochete e seus frascos de remédio. O “quase todos” é porque eu ia direto para o lavabro e só depois de examiná-lo minunciosamente, tornava ao convívio do grupo, já que era diabético psicológico e urinava com freqüência incomum.
         O nosso era um grupo bem sui generis, visto que saía do árduo e gratificante trabalho da Casa Espírita para comer pizza, tomar refrigerante e conversar longamente. A conversa, como é de se supor, nem sempre era “edificante”. Rolava em torno de Espiritismo, a difícil missão de ter irmãos e a teoria da jurubeba (“lambedor”), desenvolvida por Clarke. E era um grupo bem eclético:
         Marins, margeava os quarenta anos, tinha cara de índio, olhos pequenos e um sorriso esfíngico. E, sobretudo, era despenteado, convictamente despenteado. Tanto assim que, quando a sua esposa Maria (pequena e culinária) o viu chegar em casa penteado, esbravejou: “Vou pra casa da mamãe, assim não dá!”. Ela não foi, pois já era tarde, mas ele teve que dormir no sofá da sala. E Marins voltou a manter os cabelos naturalmente despenteados ou “marinizados” (vocábulo mais atual).
         Seu filho mais velho era Leônidas, singular figura. Estudante do curso de Psicologia, dera vazão à sua curiosidade científica. Viciado em Afrim, Sorine, Aturgil e outros descongestionantes, era o obsessor encarnado de Marcos. Contestador, solucionara o problema da dominação autoritária de Bella em relação ao marido, ao chamar o mesmo de “Bichão”, despertando-o para a liberdade.
         Marcos, trazia sempre Carla para a mesa, mesmo quando não fisicamente. Ele e sua namorada eram suavemente criticados pelo seu comportamento excessivamente apaixonado. Sempre pronto a dar palpites, Marcos – quase sempre – aceitava as induções obsessivas glúteas, empetradas por Leônidas. Nada comparado às vinte e uma fatias de pizza da sua puberdade.
         O grisalho Clarke era extremamente tímido, porém divertido. Espirituoso e bonachão, ostentava um nariz nos moldes latinos, modelo francês ou italiano, portanto grande. O “grisajo” Dom Clarke era argentino, casado e dominado pela pintosa Bella. Sua sovinice era inconteste. E sua meticulosidade cirúrgica o fazia um raro exemplo de pontualidade e disciplina, com o charme do sotaque “paraibano”.
         A pintosa Bella tinha uma hispânica pinta no rosto e um porte atlético, apesar de já ter vinte anos no centro espírita, quando chegamos. Buscava obsessivamente manter-se em forma, temendo tornar-se protuberante. Viciou-se desde cedo em gelo, obrigando o seu esposo “arrentino” a ficar com os limões das duplas cocas com limão e gelo. É claro que o mesmo aperfeiçoou o vício, passando, com o tempo, a engolir as rodelas, sorrindo e sem mastigá-las.
         Eu era conhecido pela minha radicalidade. Aos vinte e poucos anos era bonito, inteligente e já muito mentiroso, como todo bom professor. Bastante observador e irônico, escrevia crônicas, músicas, poesias, imitava, resmungava e sacaneava. Possuía idéias meio polêmicas – chamavam-me “infiltrado” – e tinha uma tendência quase irresistível a ser do contra. Era amareláceo como Clarke e Leônidas e às vezes (quando não usava gel) aparecia com o cabelo ligeiramente marinizado. Coisa de amador, “muito fraquinho”, segundo o julgamento do mestre maior do despenteio.
         Mas, retornando àquela 5ª feira, iniciou-se o estranho ritual, que daria o pontapé inicial à nossa grande noite: a indecisão sobre qual o sabor de pizza iríamos pedir.
-         Pede de banana – disse.
-         Mas, banana é horrível – retrucou Marcos, enquanto Bella achava graça.
-         É que aquela banana (da semana passada) estava verde e sem canela.
-         Será que hoje tem banana? – perguntou Marins, apaziguador, já que quase nunca tinha.
Eu desisti da idéia de pedir este sabor, porque a maioria dos lugares não sabia fazer uma boa pizza de banana. Por isso, anos de revolta depois, eu abriria uma pizzaria chamada Ban Ana, freqüentada por um grupo de apreciadores da especiaria, bastante seleto: um cunhado, dois amigos gays e três ex-mulheres a quem eu houvera viciado na pizza de banana.
-         Pede qualquer coisa, mas pede logo! – tornei.
-         É, escolhe logo – disse o Marcos.
-         Presunto – sugeri.
-         Não, presunto é carne de porco.
Marins optou:
-         Pede meia de Quatro Queijos.
A outra metade acabou sobrando para Leônidas escolher, como sempre, e isto – é claro – levou tempo. O argentino indignou-se e mordiscando um belo limão, pronunciou-se, dando seguimento ao nosso ritual. Antes, porém, desenrolou o cordão dos óculos, como sempre fazia nos momentos solenes.
-         É sempre a mesma coisa. Pedem Quatro Queijos, ou Cinco Queijos, e outra. Aí comem a de queijo e a outra sobra!
-         E o pobre do Marins – fez a Bella imitando o nosso sotaque carioca – que pede a Quatro Queijos, acaba não comendo. – Terminou a frase rindo, como de costume.
Porém desta vez tudo acabou bem. As fatias de pizza foram comidas sem distinção, sem titubeio. Teria a Espiritualidade interferido? Teríamos nos curado de nossos ímpetos psicóticos? O Fluminense teria, enfim, contratado um jogador apenas ruim?
Nada disso. Havíamos pedido uma pizza inteirinha de Quatro Queijos. Graças a perspicácia de Mr. Clarke e sua análise clarkeana, havíamos nos livrado desse ímpar dilema.
“Fantástico!”

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Santa Júlia da Terra do Nunca

Viagem tranquila de carro até João Pessoa, capital da Paraíba. O casal está em busca de um momento de paz, longe das rotinas, longe dos problemas. Luís Cláudio estava estressado com o escritório de advocacia que herdara do pai. Muitas dívidas e poucos clientes e por isso estava de mal com Deus. Havia muitos meses que não falava com o “Advogado do Universo” como ele gostava de dizer entre os amigos que não eram advogados. Entre os advogados também, só que com os não advogados, ele se divertia mais. Afinal, na cabeça de Luís Cláudio o mundo se dividia entre os advogados e os otários.
         A esposa de Luís Cláudio se chamava Vânia e era dois anos mais velha do que ele. Mas aparentava 10 anos menos. Afinal ela cuidava da pele, “de pêssego”, segundo ela, “de euros”, de acordo com ele. Vânia fazia Moai Tai e drenagem linfática, mas nada de plástica pois detestava agulhas e morria de medo de cirurgias.
         O casal chegou faminto após duas horas e meia de estrada e pretendia encontrar com um casal de amigos que segundo eles souberam, estariam no mesma praia de Cabo Branco ou na vizinha. Era na vizinha, como Cláudio saberia e se lamentaria depois.
         Na  entrada do hotel, a primeira briga do casal. Ele queria emburacar logo no estacionamento e ela disse que era necessário passar na recepção antes. Ela estava certa, ele estava estressado. Aliás como sempre. Depois de passar pela recepção e parar em frente ao estacionamento, ele deu uma ré para “alegria” dos motoristas que vinham atrás e para aumentar a lista de “elogios” à finada mãe do motorista. E já na recepção:
- Pois não senhor.
- Temos uma reserva.
         O atendente procurou entre vários papéis. Ele comentou de canto de boca para a esposa:
- Desorganização.
- Psiu.
- Com a tecnologia...
- Tá bom, Cláudiooo!
         Quando ela brigava com ele, enfatizava a última sílaba, como num eco seco, estridente e ameaçador. Ele só levantou a sombrancelha esquerda e começou a mascar um chiclete. O atendente ainda não achou a reserva e ousou perguntar:
- Tem certeza que...
- Tenho! Veja no site Broking...
- Hein?
- Broking...
- Booking. – Corrigiu a esposa.
- Ah, tá aqui.
- Podemos subir?
- Ainda não. É que o quarto ainda não está pronto... O pessoal que saiu, atrasou... E a camareira está arrumando... Mas vocês podem sair três horas, na segunda-feira.
         O recepcionista tinha a ilusão de que algum dos seus argumentos convenceria o advogado. Em vão. O trabalhador não sabia que o outro, como bom magistrado, só ouvia e aceitava o que lhe era conveniente.
         Luís Cláudio remoía mentalmente “Três horas, na segunda-feira... São três horas e eu tô com fome”. Quando ele se preparava para sacar a carteira da OAB e iniciar um escândalo, regado a “Cê sabe com quem tá falando?!”, a esposa interveio:
- Vamos almoçar, o restaurante do hotel parece ótimo.
         Eles entraram, mas o restaurante não era ótimo. Era horrível como o aspecto dos seus frequentadores e as tosses e espirros que vinham da cozinha. A comida estava fria, remexida e ruim mesmo.
         Resolveu ligar para o Medeiros, seu amigo. Ele estava num quiosque em frente ao hotel dele Medeiros.
- Como é que eu chego aí?
- Pega a direita e anda um quilômetro, no máximo.
         Ele foi, enquanto a esposa ficaria esperando o quarto desocupar. Estava sem o GPS, mas andou pelo menos três quilômetros. Ligou para o amigo. Este informou que estava em frente ao Banco do Brasil. Andou mais um quilômetro, aí fez uma coisa que detestava, perguntar. E descobriu que o Banco do Brasil ficava quase ao lado do seu hotel, um pouco a esquerda. A esquerda e não a direita. Pegou um táxi! E voltou para o hotel.
         Mais tarde, após um banho e três litros de fanta laranja, portanto bem mais calmo, foi ao encontro de Medeiros e Lucinha sua esposa, e do casal de amigos que tinha vindo com eles, conforme soubera pouco antes por Vânia que ligou para Lucinha.
         Chegando no bar em que os dois casais estavam, descobriu que não havia fanta laranja e que, portanto, ele não poderia ficar ali. Medeiros se ofereceu para ir ao supermercado próximo comprar o refrigerante, e o emburrado bacharel topou, até para que o amigo se redimisse do “endereço errado” daquela tarde.
Passou-se algum tempo. Pouco para Vânia. O suficiente para Cláudio. Já de saída, o advogado já se encontrava na rua, comprando uma lata de refrigerante num ambulante, para ir tomando pelo caminho. Foram embora. E quando Luís Cláudio percebeu que a mulher estava com o olhar fixo numa cafeteria resolveu sugerir uma parada para um café. Sabia que a mulher adorava café, mesmo tendo parado de fumar desde que o avô morreu de câncer.
         No Café, Júlia aparece. Era uma menina de 8 anos conforme dissera à Vânia. A menina entra e mostra toda a sua “lábia”.
- O casal conversando e eu atrapalhando. Mas, gostaria de pedir que vocês comprassem essa correntinha colorida. Serve pra colocar no crachá, no celular, no cartão de ônibus, no pen drive... Aproveitem a superpromoção! Hoje, só hoje... Uma dessas custa R$ 4,00, logo as duas custam R$ 8,00. Mas na promoção, hoje, só hoje, as duas saem por R$ 5,00. Trata-se de um desconto de 33,33%.
- Como?
- É uma dízima periódica simples.
         O casal ficou boquiaberto. Ele lembrou da filha que hoje já estava crescida. Ela pensou nos netos que ainda ia ter. Vânia perguntou:
- Como é seu nome?
- É Júlia.
- Quantos anos você tem?
- Tenho 8.
- Você estuda né?
- Claro!
- E quantos irmãos você tem?
- Tenho 9.
         Luís pegou a carteira e após conferir o inteior, comentou, algo cínico, para a esposa:
- Não tenho trocado, você tem?
         Ela não tinha. Mas, Júlia tinha. E sacou de uma bolsinha com dinheiro enrolado e amassado. E Vânia perguntou:
- Faturou muito?
- Faturei, consegui até uma “onça”.
         Ela não entendeu a gíria, mas o marido apontou a onça na nota de R$ 50,00. A esposa ainda perguntou:
- Tem correntinhas de outras cores?
- Não, estas são as últimas.
         Claro que eram. A menina agradesceu e saiu. E o casal ficou como que banhado numa luz diferente, o café lhes pareceu mais saboroso. Ela pensava na senhora de mais de 90 anos que se chamava “Dona Júlia” e cuja primeira bisneta deveria se chamar Júlia, mas que por teimosia dos pais recebeu outro nome. Ironicamente nasceu no dia do aniversário de Dona Júlia. A segunda bisneta foi batizada com o nome da matriarca. Júlia como a menina paraibana da praia.
Ele pensava no mome de Júlia, derivado de Júlio, um imperador romano. Brilhante segundo o seu professor de História do Pré-Vestibular. O fato é que ao contrário do imperador, a brilhante menina Júlia não teria oportunidades reais de sucesso. Na visão dele, a menina estava fadada à gravidez precoce ou à vidinha simples do interior. Ou ao comércio popular nas praias nordestinas.
No dia seguinte, não houve dúvida. Voltaram ao Café para ver a menina iluminada. Apareceu uma dupla de músicos que entoava velhas canções com sotaque carregado. E Júlia? Apareceu um gringo de cabelos brancos que devorava um sanduíche. E até chuva houve. Mas, e Júlia?
Luís Cláudio não conseguia deixar de pensar que Júlia nunca ia ter chance neste mundo injusto e cruel. Lembrou de um professor, no primeiro dia de aula na Universidade que disse à turma:
- Nós deveríamos estar presos por permitir que coisas como estas aconteçam.
         O velho mestre tinha razão. E Júlia? Será que nunca... Nunca... Nunca...
Ela não apareceu. Eles saíram. Encontraram uma velha mendiga, mas como de costume ele não deu bola. Não queria incentivar a mendicância, dar o peixe, era sovina mesmo. A esposa, no entanto, o convenceu com o um argumento irrefutável: E se fosse a vó de Júlia?
No céu, a lua mostrava a parte inferior iluminda. Tem um nome pra isso... Lua sorriso.