Páginas

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Atos

Uivos, ganidos, gemidos, prazer,
Dor desespero, fé, saber.
Dançam solenes e constantes.
Valsam, bailam, avançam...
Me deixando roto, me fazendo torto
Só.
Ninguém  ligou para mim...
Tudo passa.
A vida passa
As ondas passam.
Pessoas passaram.
Coisas passaram.
Eu, aqui estou.
A passar horas confusas
Absorto em luzes difusas
Numa ogiva de sensações.
O brado não mais retumba
E lado meu floreia a tumba
Dos réis da desilusão.
E, na eternidade deste instante,
Não posso girar a roda da vida
E redigir o derradeiro ato.
Mas o fato é que não posso fugir
De dizer “o sonho acabou”
E “achar que todos nós seríamos salvos pelo amor”
Não há outro meio do poema acabar, ou há?

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Analogia

Peixoto não tinha o pé chato, mas era tido como chato. Motivo? Era coordenador do Colégio Pedro II, no Rio. Temido e detestado por grande parte dos alunos, era amado por uma parte ainda maior de ex-alunos. Possuía o perfil ideal para o cargo: estatura mediana - o que lhe dava agilidade e desenvoltura - cabelos grisalhos, desde os vinte e cinco anos ,  que impunham respeito, habilidade com a pelota, sendo capaz de interromper um jogo fora-de-hora fazendo embaixadinhas até a coordenação, e um nariz monumental, que com o correr dos anos perdeu a companhia do “bigodinho anos trinta” (já totalmente branco) e complementou-se  de um óculos considerável.
Com sua larga experiência educacional, havia desenvolvido uma teoria: a dos nomes. Acreditava que estes influenciavam no comportamento dos alunos. Sobretudo, no dos adolescentes.
A primeira vez que vislumbrou tal conexão, foi quando investigara uma quebra de carteiras em uma turma de sétima série, e asseverou: “quem fez isso foi um bicho!”, e mais: “toda bagunça tem um cabeça”. Não deu outra, os alunos “bicho” e “cabeça” foram indiciados. Daquele momento em diante, os alunos passaram a evitar tais apelidos. Estes, que são por vezes, nomes da maioridade. Todavia, os nomes, estes não podiam ser mudados.
No penúltimo ano antes da sua almejada aposentadoria, Seu Peixoto analisava as listas com os nomes dos alunos, e encontrou nomes interessantes. Um deles chamava-se “Bruno Souto”. “Souto”, pensou ele, “se estava preso boa coisa não era”.  Não deu outra: logo Bruno Souto ficou preso em casa por uma longa temporada.
Havia um aluno cujo nome indicava  a sua indecisão: “João Maria”. Já no final do ano letivo, Seu Peixoto, sempre vigilante, pode comprovar mais uma vez seu teorema. O referido aluno entrou em um dos sanitários e deparando-se com dois mictórios mostrou-se indeciso, e verteu água no meio dos mesmos. Nosso educador a tudo assistira de uma das cabines e concluiu que o aluno “derrubava água fora da bacia”.
Outro caso foi resolvido - naquele que parecia ser um ano brilhante - o do sumiço de uma carteira, contendo uma nota de um dólar, cinco figurinhas da copa, uma ficha, um telefone e uma foto da “mamãe”. A vitima: Inocêncio, que obviamente não era “de Oliveira”. Seu Peixoto passou os olhos na lista e identificou um suspeito, mas para não acusá-lo sem provas, baseado em apenas uma teoria (brilhante, mas uma teoria), procurou alguém capaz de apontar o gatuno. E, este delator, foi exatamente a aluna Aldry Fidelis - que, como o nome indica, era fiel ao educador. E assim o aluno Rodrigo Furtado foi investigado e pego em flagrante quando chantageava “mamãe” para devolver a foto.
Mas, eis que o velho ancião teve a maior decepção da sua carreira naquele ano. Havia roubo e tráfico constante de figurinhas, empregadas nos jogos de “bafo” e usadas como moeda no colégio. Vários alunos foram investigados como possíveis líderes do bando, mas nenhum deles era “dono do tráfico” das preciosas figurinhas. Assim, os alunos “Plínio Raposo”, “Aline Falcão”, “Astolfo Maluf”, “Leonardo Figueiredo” (ele gostava de cavalgar nas carteiras, somente as brancas, e não tirava o seu “ray-ban”) e o “Lucrécio Lobo” foram todos inocentados. Maria Aparecida quis ser investigada também, pois gostava de se exibir, mas não era ela a culpada.
Já no dia do resultado final, quando os alunos passavam a amá-lo porque ficariam um bom tempo sem vê-lo, Peixoto percebeu que um aluno, ao abraçá-lo, “bateu”  sua carteira. Como estava rodeado por muitos, não pode identificar o larápio.
Entretanto, a aluna “Maria Auxiliadora” lhe aparece com a sua carteira. Ela a havia encontrado próximo à cantina. Para surpresa do Seu Peixoto, nada havia sido tirado, exceto as figurinhas que comprara para seus quatro filhos. E, dentro do pacote, encontrou um bilhete de um aluno concluinte: “Oi narigudo otário, Zé Mané, fui eu.” E assinava “Amâncio Carneiro”. E o homem senil vociferou: mais um lobo na pele de cordeiro!!!

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O Homem de Nazaré

Nazaré é uma pequeníssima cidade do interior do Estado de Sergipe. Essa cidadela é cortada pelo franzino Rio Santa Cruz.  E nada mais propício para albergar a trama crística, do que os desertos do nordeste brasileiro.
O fato de muitos autores, ao longo de seis mil anos, terem escrito e reescrito a vinda do Messias à terra, não invalida esta minha tentativa. Que espero não seja ímpar só pelo conceito filosófico (se houver), mas pela sua despretensão. Não pela verve literária, mas pela idéia. Até porque eu sou um  imortal   “ mortal ” ...
O texto bíblico nos assegura que haveria “muitos Cristos e falsos profetas”. Talvez eu seja um “falso profeta” ou um “profeta falso”, e mesmo não tendo a originalidade de um João Ubaldo, quero contar esta estória sobre o Homem de Nazaré.
Nesta cidadezinha, isolada em tempo e espaço, nasceu uma criança singular, filha de um carpinteiro alcoólatra e de uma jovem e raquítica lavadeira, que ao passar tanta fome, nos fez considerar um milagre ter sobrevivido ao parto. A criança, desde a mais tênue idade, falava aos sacerdotes e fiéis de todas as religiões. Apontava desvios e propunha caminhos, com uma propriedade absolutamente incomum à sua idade. Poucos eram os que tinham a humildade de ouvi-lo e calar-se ante as verdades. Chamavam-no louco, obsidiado, possuído, endemoniado, ao que retrucava: “a verdade cega”, “têm medo da verdade”, “quem tem olhos para ver, que veja”...
Em sua infância e juventude, sofreu diversas privações e provações. recebeu castigos físicos sob o pretexto de curá-lo, em verdade viu o Pai ser morto para demovê-lo.
Quando dançava na casa dos trinta anos, sua Via Crucis teve desfecho. Não que fosse bonito, mas em meio àquela miséria, era um príncipe. Era magro, com a pele estranhamente clara, quase etérea, possuía estatura mediana e o rosto desprovido - quase que totalmente - de pêlos. Olheiras profundas insistiam em lhe tirar o brilho dos olhos acastanhados. Seus cabelos eram loiros e longos, de uma cor impossível de ser fabricada, porque não eram nada claros. Algo entre fogo e luz. Se alguém tem alguma dúvida de como o vejo, é exatamente como Dalí o vê na sua “Última Ceia”.
Para acompanhá-lo, concebeu um apostolado ecumênico, sob o nosso ponto de vista. Dois pastores evangélicos, um padre, por nome Simão, duas freiras, duas donas-de-casa evangélicas, um soldado chamado Bordalo, três irmãos freqüentadores de cultos afro, e uma antiga meretriz - por nome Madalena.
Esse apostolado poli-religioso enfrentou diversos problemas, mas entenderam que a passagem do Messias era breve, e que depois da sua ida, eles deveriam tornar às suas instituições religiosas para promoverem as modificações salutares. Ele, em verdade, não criava uma nova seita ou religião e não propunha que seus discípulos abandonassem suas crenças.
- Não podemos viver sem religião? - perguntou o negro Bordalo, referindo-se às nossas tradicionais formas religiosas. Ao que ele retrucou:
- Não, por enquanto.
- Qual a religião completa, ou mais completa? - interviu o padre Simão.
- As religiões, nenhuma delas, conseguem explicar tudo. Há elementos que transcendem... sendo, no entanto, absolutamente válidas e compatíveis com o vosso estado evolutivo. Trabalhemos - todavia - por modificar-lhes as estruturas e , dia chegará, em que não mais serão necessárias.
Apesar desse desejo sincero de aprender com o Mestre e de manterem-se vinculados às suas instituições, os apóstolos sentiam enormes dificuldades. O padre foi ameaçado de excomunhão, os pastores de serem afastados, e também os demais, pois queriam seguir a Deus tão de perto!
Fato é que, após tanta pressão, o Homem de Nazaré foi preso por charlatanismo e falsidade ideológica, o que foi apoiado por populares. Exceto Bordalo, um dos meninos africanistas e Madalena - que ensaiaram uma resistência - os demais fugiram, deixando-o ser agarrado.
Anos depois, sua passagem por aquele mísero povoado passava quase incólume. fora mandado para o presídio da capital e mantido incomunicável durante o período de reclusão. Quando foi solto, recebeu a visita daquela que tinha ido mais ao fundo do abismo, dentre todos os apóstolos, a única que beijara a lona por inúmeras vezes...
Casou-se, o Nazareno, com Madalena, e não podendo ter filhos, visto que dada a sua missão ele era estéril, adotaram umas tantas crianças.
Hoje, o Homem de Nazaré ainda pode ser encontrado anônimo em Nova Jerusalém (Pernambuco). Ele faz o papel de um dos soldados no espetáculo “Paixão de Cristo” e é muito conhecido dos centros, templos e núcleos religiosos daquela localidade, e vizinhas, aonde vai, sempre que pode, sem, contudo, ser notado.

Teorias e Teologias

Após a brilhante palestra de Divaldo P. Franco em nossa cidade, nos despedimos do grande grupo e fomos em direção ao carro, ou melhor, ao fusca. Você pode ter mercedes, chevettes ou fiats, que os chamarão de carro. “Pode deixar que eu dou  uma olhadinha no carro” ou “Podemos ir no seu carro?”. Mas, fusca, é “fusca”.
Bom, o fato é que o tráfego de carros era intenso demais para uma saída. Como teríamos que esperar ainda uns quinze minutos,  tornamos ao saguão para propormos a tradicional pizza. Porém, constatamos que o casal Edu e Bella já havia ido embora, então resolvemos cancelar. Mas, eis que na segunda saída, vislumbrei o casal em marcha lenta no meio da multidão de carros. Foi o primeiro “sinal” da noite. Corri até eles e gritei: “pizza!”, e estes me responderam com o nome da pizzaria.
Lá estávamos: Bella, Leônidas e Carla - de um lado, Marcos, na cabeceira, depois eu, Marins e Edu. Mas, a pretexto de estar muito isolado, Marcos pediu para sentar em meu lugar e me jogou para a outra cabeceira, entre Bella e Edu. Este - saberia mais tarde - seria o segundo “sinal” da noite.
Marcos, alto e sereno era estudante de Medicina, tal como sua namorada, Carla. Esta, morena e sorridente, engatinhava na doutrina dos espíritos. Leônidas, dotado de uma intelectualidade transbordante, contrabalançava-a com um humor bem juvenil. Conversavam os três animadamente. “O que foi ótimo”, pensei eu horas depois. Afinal eles, por certo se colocariam, ideologicamente, em contraposição aos meus argumentos.
Nós saíamos todas as semanas para discutir o espiritismo, nossa casa espírita, eventos, problemas particulares e coisas afins. Só que desde que eu me convertera ao Kardecismo (era umbandista), nossos pontos-de-vista eram semelhantes acima do razoável, ou pareciam ser. E as discussões giravam em torno de se ser mais ou menos crítico, mais ou menos tolerante. Longe de conseguir transcrever todo o nosso diálogo daquela noite, esforço-me por rememorar as idéias principais, sem me furtar a uma certa parcialidade.
A contraposição de idéias com pessoas mais experientes, mais lidas e intelectualmente tão desenvolvidas era quase um suicídio, mas aconteceu:
- Eu não acho que a nossa religião seja a melhor, disse-lhes.
- Não, melhor não é, mas é a mais completa - Retrucou  Edu, com seu sotaque argentino.
- Eu discordo.
- Mas, como?! Qual é a mais completa então? - insistiu o simpático grisalho cinqüentão. E Marins, sempre manso em seus comentários, completou:
- Que religião tem uma visão tão ampla da vida, das coisas?
- Prá mim, prá você. prá nós: o Espiritismo. Mas, e para os outros? Eu não conheço bem as religiões orientais...
- Por tudo que eu já estudei das religiões e seitas orientais, não há nada tão abrangente quanto a doutrina dos espíritos - afiançou Bella, com o tradicional ar maternal. Sua aura hispânica, por certo, fizera o cobiçado argentino sucumbir.
- Que outra religião tem uma literatura tão vasta, tão ampla, que trata de todos estes assuntos? - tornou Edu.
- Nenhuma. Que eu conheça, nenhuma.
- Isto, é falsa humildade! - insistiu
- Não, eu realmente acredito nisso. È assim que eu vejo as coisas.
- Então, você não é espírita, não acredita em reencarnação, em...
- O que é para mim, não tem que ser pro universo, não tem que ser a verdade. Não sei se estou ou não obsediado, mas eu sempre pensei assim.
- Que você foi padre, você já sabe. Mas, foi pastor, também. - confidenciou-nos Bella, a partir de uma visão espiritual.
- “Infiltrado”. É um “infiltrado”, asseverou o convicto argentino.
Aí eu respirei fundo e tentei fugir do clima acalorado da discussão, mas tornei:
-  Existem alguns aspectos em que outras religiões são mais completas.
Ao que Marins, sempre tranqüilo e racional nos comentários, questionou:
- Quais aspectos? Nós estamos tentando te convencer. Agora vamos fazer ao contrário: argumente!
- Existem pontos. Mas eu não sei quais aspectos. talvez, por falta de leitura.
- Não é falta de leitura não, e nem falta de capacidade de argumentar. É que você não é espírita. Ainda não se convenceu - disse Edu.
- Eu sou espírita, se não fosse, não precisava dizer que era. Acho que só quando escrever o livro, vou poder me explicar - tentei descontrair.
- “Infiltrado!”, é um “Infiltrado!”.
Após mais de uma hora de discussão eu me sentia cansado. Sabia que era impossível convencê-los ou ser convencido naquele instante. Marins, que aparentava a metade da idade, mantinha um sorriso Mona Lisesco e procurava em sua imprevisível pasta algum colóquio da internet capaz de afiançar a sua tese. Edu continuava com o mesmo aspecto carrancudo de quando o conhecemos, e não tínhamos intimidade, entrecortado de espasmos de sorrisos. Repetia para si mesmo: “Infiltrado”, enquanto comia um tareco. Bella queria acalmar os ânimos, mas há alguns minutos havia estabelecido contato com nossos amigos espirituais e apresentava um olhar vago. Foi nessa brecha que eu - com a cara, provavelmente péssima, sugeri:
- Vamos pedir a conta? - e pedi.
Essa palavra fez tornar a atenção de Marcos, Leônidas e Carla para nós outros.
Bella tentou explicar o que acontecera e fez uma apologia ao espiritismo. Posteriormente, Leônidas fez uma ode à causa e eu agradeci a Deus por tê-lo mantido longe da celeuma. Eu, Marcos e Carla fomos embora. e os demais ficaram à porta da pizzaria em conversação moderada.
Ao chegar em casa estava feliz e sem nenhum rancor. Feliz porque não havia perdido a capacidade de contestar. É claro que naquela mesa, perdera para a lógica. Mas mantinha e mantenho a minha convicção (hoje, dez dias depois do acontecido).
Sou espírita, porque esta doutrina me completa. Mas, me recuso a admitir que ela seja a mais completa. No máximo, tão completa quanto, porque há muito que desconhecemos. Há muito que desconheço e sei que muito tem por nos ser revelado, no momento em que estivermos prontos. Os que nos ensinam fazem como Moisés, ou Cristo, simplificam as coisas. E se sou “infiltrado” ou não, pouco importa. Decerto, eles continuam me amando, e eu a eles - meus verdadeiros “companheiros de jornada”...

Nossa Esposa

Há seis meses que eu e meus companheiros estávamos integrados à “Casa Espírita dos Trabalhadores de Pulso Firme”. Após percorrer vários centros, templos, casas e igrejas, foi lá que nos encontramos.
Leônidas, o mais jovem do grupo, margeava os vinte anos, era estudante de psicologia. Leitor espírita desde tenra idade, havia desenvolvido um senso crítico bastante aguçado.
Marco, quase da mesma idade, era o mais jovem na doutrina, possuindo ainda o ar de empolgação e de contestação iniciais. Este estudava fisioterapia e era de uma serenidade quase iogue.
Marins, com o dobro da idade, era funcionário de uma estatal e antigo leitor da literatura espírita. Todavia, só há alguns anos, decidira levá-la a sério. Sua inteligência privilegiada, também lhe conferia um quinhão de criticidade.
E eu, que era estudante do curso de história, mantinha-me na casa dos vinte anos. Antigo freqüentador da umbanda, há pouquíssimo tempo me “convertera”, e tinha, portanto, um senso crítico considerável.
Fato é, que dentre os vários oradores que falavam à casa espírita, um se tornou um exemplo a seguir. Relativamente jovem, possuía uma linguagem coloquial, objetiva e direta. Era de estatura baixa e possuía alguns distoantes cabelos brancos.
Ênio era uma figura ímpar nas lides espíritas. Possuía um “jogo de cena” todo especial. Seus trejeitos quase caricatos faziam dele uma mistura de Roberto Carlos e Sílvio Santos. Por vezes, segurava o microfone colado ao ombro esquerdo e girava o rosto para o mesmo lado. Quando sorria, parecia que vestia uma fôrma e consolidava um facies cibernético e contagiante, convidativa às gargalhadas que aliviavam as tensões.
É claro que apenas nós - pelas peculiaridades de nossa biografia - conseguíamos entrever toda essa genialidade de Ênio, ou “Sílvio Santos”, ou “Emoções”.
Apesar das derrapadas doutrinárias, justificadas pela acessibilidade do colóquio, o nosso amigo conseguia divertir o mais carrancudo e problemático visitante. Expressões em pseudo-inglês como “meu love”, viabilizavam a transferência da teoria mais complexa.
Ao inquirir a algum assistente sobre o assunto exposto e constatar o equívoco da resposta, o expositor se solidarizava com o companheiro: “- É, meu irmão, segundo Kardec, estávamos errados.”
Se não autor, pelo menos, transmissor de expressões do tipo “J.K.”, que significava “Jesus e Kardec”, ele era esperado com ansiedade. Sobretudo, por mim, que quase sempre era escalado, na mesa, com ele.
Mas, o ponto é que, ao seguir as orientações doutrinárias, ditadas pelos espíritos superiores, Ênio nunca usava a primeira pessoa do singular: eu. Em alguns casos, o “nós” é fundamental, mas ele o fazia definitivo a ponto de dizer “nossa cunhada”, “nossa sogra” e “nossa esposa”. Só não pegava mal porque estávamos no centro espírita...
Certa feita, chegou atrasado e se justificou:
“- Chegamos atrasados porque o nosso carro ainda não é turbinado...” , pior seria se dissesse que o nosso carro havia sido roubado. Contudo, o que causaria pânico aos “motorizados”  da reunião, ficava engraçado.
Às vezes nos encontrávamos conosco, ou seja, com ele, fora da casa espírita e conversávamos sobre espiritismo, é claro.
- Quando é que vamos conhecer a sua casa espírita? inquiriu uma companheira. E eu corrigi:
- Quando vamos à nossa casa?
- Ah, agora entendi...
Mas a vida às vezes é irônica, e num certo dia eu tomei um grande susto. Caminhava pela avenida Rio Branco e  me deparei com o nosso “Sílvio Santos”  na parada de ônibus ( se fosse Manoel Philomeno de Miranda, escreveria: “no local onde tomava condução, imerso em devaneios salutares, estava o confrade Ênio, à espera do coletivo”) e encontrando espaço em meio à multidão que se acotovelava, cheguei ao  seu lado e inquiri: - Como é que vai a “nossa esposa”? – com a maior inocência concebível. Entretanto, ele se virou de súbito, olhar carregado, pulsos cerrados, respiração acelerada, dentes reluzindo e olhos flamejantes. Segurou-me pela camisa, para evitar que eu fugisse a ouvir umas verdades, mas - segundos depois - me reconheceu. Abriu um gostoso sorriso e me convidou ao café. Eu, que há três anos não tomava café, tomei-o com voracidade. E quente! Quente como os de rodoviária...

Volatização

Brito era um cara legal, mas era muito lento. Fazia tudo com extrema vagareza. A turma achava graça, sacaneava, isso, é claro, quando não tinha marcado hora com ele...
Na escola, sempre a mesma rotina: chegava atrasado para todas as aulas, entregava todas as atividades por último, e só percebia que não entendia determinada matéria lá prá noitinha, assistindo ao Globo Esporte (e estranhando o atraso do programa ao entrar no ar).
Sua lentidão era uma questão polêmica. Dizia-se mesmo que política, mulher, religião e a velocidade do Brito não se discutia. Mas havia sempre aqueles momentos na mesa do bar em que na falta de algo mais útil, se debatia o assunto.
Era uma sexta-feira, trinta e sete chopps e oito pessoas da noite, e o tema veio à tona:
- O Brito é tão devagar que... hic! Nasceu prematuro!...
- Como prematuro? - perguntou um moreno carregado e fã de mortadela.
- Prematuro com onze meses de gestação. Mas como era ele, só tinha um bolo de oito ou dez células - disse um nareba, dando tapinhas nas costas do Brito.
Daqui a pouco, um com bossa de intelectual arrematou:
- Bebe logo, Brito, que teu chopp tá evaporando...
- É o processo de volatização do saccharomyces cerevisiai - detonou um outro que não bebia, era lido em freud e viciado em “afrim” (“não é ‘afrim’, é  ‘sorine’ ou ‘aturgil’”).
Em meio às gargalhadas, o nareba repetiu os tapinhas, que já não eram tapinhas, devido ao efeito etílico. E entoou cânticos:
- Ié, Ié.....IéIéIé.
A chacota continuava, mas o Brito não  esquentava. Só bronqueou quando quiseram gravar um CD  em sua homenagem (?) , com um rap biográfico.
Por outro lado, os amigos também tinham seus problemas e solucionavam marcando, por exemplo, a “pelada” do domingo uma hora antes para o Brito. Que ainda chegava atrasado.
- Foi o ônibus ... (morava três quarteirões da quadra).
Mas, quem mais sofria era a mãe do Brito, Dona Francisca - que por vezes se valia de luta corporal para acordá-lo. Não que o Brito fosse irresponsável, é que ele era capaz de ficar deitado até as quatro da manhã, sem pegar no sono. E de dormir com um copo de vinho na mão e só derramar o conteúdo três horas após ter acordado. Mas isso não vem ao caso.
Passou o tempo e o Brito estava com o casamento marcado, no civil e no religioso, noiva de véu e grinalda e padrinhos tirados dos mais ricos da turma, tudo como manda o figurino.
Finda a despedida de solteiro, seus companheiros ficaram de prontidão à sua casa para evitar que ele se esquecesse do compromisso singular. E com todo esse aparato, Brito chegou só uma hora e meia atrasado. Depois da noiva, claro.
Bouquet, cumprimentos, bolo, champagne, carro, hotel, elevador, quarto, cama...
A noiva vitoriosa estava ansiosíssima, depois de oito anos de namoro e cinco de noivado. Brito desembainhou a espada, mas ... nada.
Três dias depois a vitoriosa liga desconfiada para a mãe e a genitora diz para a recém-casada segurar a onda. E, para se acalmar, rezar um terço para Stª Maria Madalena (com todo o respeito à Santa).
No sexto dia de lua-de-mel, o recém-casado sentiu alguma coisa. Chamou a noiva pelo celular (tinha ido comprar velas). Quando a vitoriosa adentrou o recinto (o quarto) ele pediu um anti-ácido. Era a gastrite.
No décimo-sétimo dia, quando a vitoriosa estava com uma corda e um banco no banheiro, eis que “el britadeira” avançou sobre ela e “lavou a honra com sangue”.
Uma vez iniciado o processo, era óbvio que levaria tempo para terminar. O que era ótimo, pois a vitoriosa já estava subindo pelas paredes, de costas e batendo palmas. O único inconveniente é que Brito não podia dormir de bruços e nem vestir calças justas.
Brito tinha trinta dias de férias, e pontualmente, no  trigésimo-quinto dia após o casamento, ele foi trabalhar. Com um sorriso que durou até o fim do mês e um cigarro atrás da orelha (não fumava).

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

8008

Quando acordei, estava chovendo, mas agora o sol se firma. Consulto o relógio e vejo que ainda faltam trinta minutos para o horário combinado e, pelo menos, uma hora para o pessoal chegar.
Passo em frente ao shopping e as lembranças que me borbulham à mente tornam a se fazer sentir.
Já faz dez anos desde a última vez que nos vimos. Éramos em treze. Hoje, só tenho contato com o meu irmão. Mesmo assim, por carta. Telefone só no natal.
Sei que alguns deles nem vão aparecer. Alguns até morreram. Só um, que eu saiba. Tanta juventude !!!
Lembro-me como se fosse hoje, do brilho do meu olhar ao mostrar-lhes a minha peça e dissertar sobre o meu projeto. Meu objetivo era nos aproximar mais, mas falhou.
Consulto o porta-luvas e coloco uma fita aleatoriamente no rádio. Será que vou agüentar esse reencontro? Será que haverá? Não há o que temer, “ninguém morre de ataque cardíaco aos 35 anos”, disse-me o cardiologista. Bom para ele, assim fatura mais. Continuo chato e resmungão! Será que nunca mudarei?
Vejo aquela placa e entro no conjunto. Lê-se: “Cidade Satélite”. Ué, de onde saíram estes edifícios? Acho que conheço aquela menina... não, não.
Ironicamente, o rádio toca “Mapas do Acaso”, a música que ficou como uma espécie de hino para mim. “Estamos no mesmo barco”, diz o Humberto. Eu abro um sorriso.
Não acredito que passei da rua! Como será que eles estão? O último que eu vi foi o “negão”. Ele tava com o filhinho dele... porra, tem uns três anos. A última vez que eu vi o João tem... uns... cinco? Não acredito, cinco anos!
Tomo um susto ao ver uma quitanda no lugar onde deveria estar a casa do Alexander. Ah, fizeram o segundo andar. Pergunto ao fruteiro e ele indica a entrada. São três e quinze. faltam quinze, ainda.
A mulher do “morto-vivo” me manda sentar em uma das três mesas postas no terraço. Por que me lembrei desse apelido agora?
A mulher sai prá buscar uma jarra de suco. Depois que se converteu o Alexander parou de beber. Ouço barulho de carro, mas de onde estou, nada posso ver.
Finalmente chega o Alexander com o Caliaari. O abraço é apertado e as lágrimas contidas à força. Ficamos uns quarenta segundos abraçados.
Alexander está com uma rala barba castanha, cabelo muito bem aparado e roupas caras. Engordou um pouco.
Caliaari está com o cabelo grande, mais bem cuidado que da última vez que o vi. Está velho. deve estar trabalhando demais, contudo, conserva o sorriso.
Chegam mais dois: a Milena e a Elisabete. Com as meninas por perto, o choro é impossível de ser contido.
Milena está mais magra, demais até. Usa um penteado exótico. Elisabete, com o mesmo jeito de menina, foi, talvez, a única que não envelheceu.
Vozes são ouvidas. Milena me mostra umas fotos dos sobrinhos. Mas eu não as vejo, porque novos personagens chegam ao palco. desta vez são o meu irmão e o Marcelo “negão”.
O “negão” também não mudou nada, exceto pelo bigode e pela aliança. João traz um medalhão ao peito e um penteado de vanguarda. “Que barbicha ridícula!”, eu digo.
Tantas lembranças! Alguém puxa um maço de fotos. tantas alegrias...
Mais três chegam e eu sinto uma pontada no peito. Wendell e Virgínia se separaram há uns dois anos, entretanto vêm como bons amigos.
Depois que Wendell foi expor no exterior, nunca mais o vi. A última vez foi há dez anos. Exatamente quando fizemos a última reunião.
Alguém pede um som, mas Alexander explica que a música destrói a sanidade mental. Coisas da seita dele. João ri e Caliaari lhe dá uns tapas nas costas.
Geórgia está loira e uns quilos mais magra. Não tanto quanto a Milena, embora Geórgia tenha tirado um pouco do busto, que pena!!
Quase todos têm filhos. Quase todos estão separados.
Virgínia saca de uma máquina, porém, antes da foto, alguém começa a contar uma história sobre morte. Meus olhos tornam a encher-se de lágrimas e procuro esconder o rosto. Braços me abraçam e o calor me faz ficar mais calmo. Nós a amávamos...
Olho para baixo e percebo que - apesar da reforma da casa - o velho quarto da “Cia. teatral Expulsos do Paraíso” ainda está de pé. Dou um grito, como que para fazer parar o tempo e tudo escurece.
Quando acordo, vejo todos aflitos ao meu redor. Por alguns instantes volto no tempo e os vejo quase vinte anos mais novos. E é nessa fração de segundo que lhes digo: "Aproveitem"!
      

ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE

Após viajar pelos longínquos caminhos da máquina datilográfica ("de escrever"), de entrar timidamente no computador pessoal, de conhecer e-mail, orkut, msn e twitter, eis-me aqui, filho do novo milênio, remanescente do velho século, no BLOG.
Escolhi o Dia do Estudante para fazer essa reestreia pois é isso que sou, um iniciante na arte da digitalização de palavras e ideias.
Ainda não sei muito bem como organizar esse troço, mas pretendo postar opiniões, textos e velhos escritos do livro ainda inédito de mais de dez anos "Crônicas, contos e outros bichos". Algumas dessas histórias já foram contadas no orkut e em alguns jornais alternativos. Meu desafio, no entanto, é editar as "obras completas", mais de 50 textos.
Espero que você, como eu, sofra mas se divirta.
E se gostou, divulgue...
Abraços fraternos.
Muita Luz !!!