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sábado, 7 de abril de 2012

Verde d’ Esperança


     Acordei disposto a fazer algo diferente para fugir à rotina. Algo que abalasse as estruturas e derrubasse dois ou três presidentes. Na falta disso, algo que me desse algum alento. Talvez, pintar o cabelo de acaju ou me casar, em plena 2ª feira.
                   Abri o armário e me deparei com as mesmas roupas de sempre. Todavia, uma luz d’ esperança me resvalou nos olhos. Uma camisa das antigas, que há muito não usava. Tem uma música que diz: “Vestiu uma camisa de seda e saiu por aí...”. Não sei a cor da camisa citada na música, mas sei qual não é: verde. Se não, ao invés de “sair por aí”, o protagonista teria ficado em casa com o seu pandeiro. Tudo bem que o cara da música tinha um canivete, mas mesmo assim seria pouco provável que... que... deixa pra lá.
                   Enquanto vestia o verde artefato em questão, fui buscar no fundo  da memória a razão pela qual o havia deixado por tanto tempo no fundo do baú, quer dizer, do armário...
                   Durante alguns meses, morara com tio chamado Peixoto e saímos algumas vezes para lugares onde se devia ir mais alinhado, como batizados e festas de 15 anos, e eu repetira, por umas três vezes, o uso da, então, minha camisa nova, no auge da sua verdecência!!! Como luzia demais para a estreiteza do meu prestimoso tio, ele fez um acordo comigo: me compraria uma calça, duas meias e três cuecas, além de uma camisa nova, para que eu nunca mais usasse aquela “preciosidade” na sua presença. Mesmo sem entender muito o porquê, aceitei o acordo.
                   Agora, cinco anos depois, em mais uma segunda feira – que caía para mim, às vezes, nas 4ª e 6ª - estava prestes a descobrir ou aceitar o porquê do empenho em desnudar-me. Já no ônibus, notei um sorriso debochado do cobrador. Era impossível não percebê-lo porque o funcionário era corpusculento e movia o rosto ao encontro do ombro direito quando ria...
                   Um carro tentou me atropelar com o sinal vermelho, mas eu ainda não percebera a mensagem. Um rapaz de sexualidade polêmica bradou: “Quer dizer que você é sinal verde, que a gente pode avançar”. Eu sorri, tentando evitar um espasmo muscular dirigido à mão canhota (a mesma que carregava a pasta, estando, pois, ocupada).
                   Atravessando o pátio da fábrica, risos estridentes e perguntas cretinas do tipo: “Vai para a convenção do PMDB?” (Eles se utilizam da cor verde); “Está torcendo pela Nigéria?”; “Já é Natal?”; ou pior, “Já é carnaval?”; “Apaga a luz que tá ofuscando!”; “Cadê a pilha?”.
                   No elevador, sob a pressão psicológica do acessorista, decidi brincar com a situação para evitar maiores comentários. À secretária disse: “É que faltou luz onde eu moro e fiquei com medo de ser atropelado”. Ela riu. “Encontrei a solução”, pensei. Mas, como ria de tudo, eu estava longe de evitar gracejos.
                   Para o sujeito do almoxarifado, repeti o – aparentemente despretensioso – comentário. Só que ele completou: “Deve ter sido um blecaute dos grandes! Eu pensei que você trabalhasse na pista de pouso do aeroporto.” Movi o lábio superior e o nariz para cima, fazendo cara de nojo e voltei par a minha sala, mesmo sem conseguir grampos para o pré-histórico aparelho de grampear.
                   O telefone tocou, era o ofice-boy, que tinha me visto passar e perguntou: “Aderiu à onda ecológica?!” Eu desliguei e comi as duas empadinhas que reservara para o almoço. “Será que não há outro assunto?!”, ruminei.
                   Na parte da tarde, continuaram os trocadilhos infames e quando o nível do mal-humor já estava beirando a degeneração das células pancreáticas, busquei a rua, achando muito bom não encontrar o meu amigo Leônidas – um especialista em galhofas, malhações e descongestionantes nasais.
                   Mas, como nas novelas baseadas em megalópoles e onde todos se encontram no mesmo restaurante, ele me encontrou, acho que atraído pelo doentio instinto. Ao aceitar a carona, na garupa da sua  moto, fui forçado a engolir coisas do tipo: “Onde é o jogo?”; “Desculpe, mas não tenho um capacete rosa para combinar!”; “Não sabia que você tinha entrado para o Green Peace!”; “Cabem quantas pilhas?”; “Bota um colar com rodelas de limão, para combinar!”. Ele falava, ria uns dez minutos e repetia as mesmas piadas, como que a entoar mantras. Controlei-me para não aplicar-lhe uma chave inglesa (ou “gravata”).
                   E quando nada pior podia acontecer, aconteceu. Ia me dirigindo para a casa, já a pé e uma colega de escola, Renatinha, me abordou nas cercanias de minha morada. Ela visitava uma tia e em meio à conversa, disse: “Que camisa bonita, você tá um gato!”. Aí foi demais, dei-lhe uma raquetada e fui para a casa, onde, com a ajuda de um furador, confeccionei confetes de tecido.

3 comentários:

  1. Crônicas simplesmente incríveis! Ainda é meio que... difícil, acreditar que meu professor de história super chato e com cara de doido tenha um blog tão interessante! haha' brincadeira Sandro! Parabéns pelo ótimo trabalho ;D

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  2. Obrigado, Vitória!
    "Super chato" tudo bem, mas "cara de doido"???
    Bjo.

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