Acordei disposto a fazer algo
diferente para fugir à rotina. Algo que abalasse as estruturas e derrubasse
dois ou três presidentes. Na falta disso, algo que me desse algum alento.
Talvez, pintar o cabelo de acaju ou me casar, em plena 2ª feira.
Abri
o armário e me deparei com as mesmas roupas de sempre. Todavia, uma luz d’
esperança me resvalou nos olhos. Uma camisa das antigas, que há muito não
usava. Tem uma música que diz: “Vestiu uma camisa de seda e saiu por aí...”.
Não sei a cor da camisa citada na música, mas sei qual não é: verde. Se não, ao
invés de “sair por aí”, o protagonista teria ficado em casa com o seu pandeiro.
Tudo bem que o cara da música tinha um canivete, mas mesmo assim seria pouco
provável que... que... deixa pra lá.
Enquanto
vestia o verde artefato em questão, fui buscar no fundo da memória a razão pela qual o havia deixado
por tanto tempo no fundo do baú, quer dizer, do armário...
Durante
alguns meses, morara com tio chamado Peixoto e saímos algumas vezes para
lugares onde se devia ir mais alinhado, como batizados e festas de 15 anos, e
eu repetira, por umas três vezes, o uso da, então, minha camisa nova, no auge
da sua verdecência!!! Como luzia demais para a estreiteza do meu prestimoso
tio, ele fez um acordo comigo: me compraria uma calça, duas meias e três
cuecas, além de uma camisa nova, para que eu nunca mais usasse aquela
“preciosidade” na sua presença. Mesmo sem entender muito o porquê, aceitei o
acordo.
Agora,
cinco anos depois, em mais uma segunda feira – que caía para mim, às vezes, nas
4ª e 6ª - estava prestes a descobrir ou aceitar o porquê do empenho em
desnudar-me. Já no ônibus, notei um sorriso debochado do cobrador. Era
impossível não percebê-lo porque o funcionário era corpusculento e movia o
rosto ao encontro do ombro direito quando ria...
Um
carro tentou me atropelar com o sinal vermelho, mas eu ainda não percebera a
mensagem. Um rapaz de sexualidade polêmica bradou: “Quer dizer que você é sinal
verde, que a gente pode avançar”. Eu sorri, tentando evitar um espasmo muscular
dirigido à mão canhota (a mesma que carregava a pasta, estando, pois, ocupada).
Atravessando
o pátio da fábrica, risos estridentes e perguntas cretinas do tipo: “Vai para a
convenção do PMDB?” (Eles se utilizam da cor verde); “Está torcendo pela
Nigéria?”; “Já é Natal?”; ou pior, “Já é carnaval?”; “Apaga a luz que tá
ofuscando!”; “Cadê a pilha?”.
No
elevador, sob a pressão psicológica do acessorista, decidi brincar com a
situação para evitar maiores comentários. À secretária disse: “É que faltou luz
onde eu moro e fiquei com medo de ser atropelado”. Ela riu. “Encontrei a
solução”, pensei. Mas, como ria de tudo, eu estava longe de evitar gracejos.
Para
o sujeito do almoxarifado, repeti o – aparentemente despretensioso –
comentário. Só que ele completou: “Deve ter sido um blecaute dos grandes! Eu
pensei que você trabalhasse na pista de pouso do aeroporto.” Movi o lábio
superior e o nariz para cima, fazendo cara de nojo e voltei par a minha sala,
mesmo sem conseguir grampos para o pré-histórico aparelho de grampear.
O
telefone tocou, era o ofice-boy, que tinha me visto passar e perguntou: “Aderiu
à onda ecológica?!” Eu desliguei e comi as duas empadinhas que reservara para o
almoço. “Será que não há outro assunto?!”, ruminei.
Na
parte da tarde, continuaram os trocadilhos infames e quando o nível do
mal-humor já estava beirando a degeneração das células pancreáticas, busquei a
rua, achando muito bom não encontrar o meu amigo Leônidas – um especialista em
galhofas, malhações e descongestionantes nasais.
Mas,
como nas novelas baseadas em megalópoles e onde todos se encontram no mesmo
restaurante, ele me encontrou, acho que atraído pelo doentio instinto. Ao
aceitar a carona, na garupa da sua moto,
fui forçado a engolir coisas do tipo: “Onde é o jogo?”; “Desculpe, mas não
tenho um capacete rosa para combinar!”; “Não sabia que você tinha entrado para
o Green Peace!”; “Cabem quantas pilhas?”; “Bota um colar com rodelas de limão,
para combinar!”. Ele falava, ria uns dez minutos e repetia as mesmas piadas,
como que a entoar mantras. Controlei-me para não aplicar-lhe uma chave inglesa
(ou “gravata”).
E
quando nada pior podia acontecer, aconteceu. Ia me dirigindo para a casa, já a
pé e uma colega de escola, Renatinha, me abordou nas cercanias de minha morada.
Ela visitava uma tia e em meio à conversa, disse: “Que camisa bonita, você tá
um gato!”. Aí foi demais, dei-lhe uma raquetada e fui para a casa, onde, com a
ajuda de um furador, confeccionei confetes de tecido.
Crônica de julho de 1998.
ResponderExcluirCrônicas simplesmente incríveis! Ainda é meio que... difícil, acreditar que meu professor de história super chato e com cara de doido tenha um blog tão interessante! haha' brincadeira Sandro! Parabéns pelo ótimo trabalho ;D
ResponderExcluirObrigado, Vitória!
ResponderExcluir"Super chato" tudo bem, mas "cara de doido"???
Bjo.