Clarke pensava sobre a sua
infância em Soares – uma cidadela Argentina com cara de aldeia – e no serviço
militar prestado na Patagônia e sorria, enquanto jogava Paciência no computador
do seu escritório, em Natal.
Bella,
sua pintosa esposa, que tinha uma pinta acima da margem direita do lábio
superior, fazia juz ao seu nome, enquanto ouvia lamentos nada originais no
telefone do mesmo escritório, conservando um sorriso.
A
minha é uma turma diferente. Até porque eu não sou o que se pode chamar de
“normal”. Estava pensando sobre isso enquanto fazia a digestão do almoço, em
minha sala, mais tarde, iríamos a um congresso espírita.
Eu
era jovem fisicamente, mas tinha um “quê” dos homens idosos. Não, eu não andava
encurvado e nem possuía cabelos brancos, mas tinha o humor do típico homem
senil e era carinhosamente chamado de “empombado” (do latim “pombus” que quer
dizer “carranca”, “caratonha” e mais o “em”, desinência verbal). Esse era o
vício mais badalado, mas não o único.
Marins,
o “despenteio-vivo” houvera conhecido os primeiros fios brancos, mas tinha cara
e riso de garoto. Obsecado pelos equipamentos eletrônicos e por biscoitinhos
amanteigados era muito tranqüilo, principalmente no que se referia aos
horários...
Leônidas,
viciado em descongestionantes nasais desde o primeiro ciclo da puberdade era
possuidor de inúmeras e inquestionáveis enfermidades, sendo a maior delas a
síndrome de malhakovski, que o impelia à malhação, ao deboche, ao riso e às
imitações mais complexas, com a mesma facilidade com que decorava bulas de
remédio e prefácios de livros. Geralmente, precisava da inspiração de Marcos
(doador de fluidos e obsedado), mas aos poucos, fora ganhando autonomia.
A
rua me atravessava com todas as suas lojas, casas, caras e pessoas apressadas e
eu me dirigia para o escritório do casal Clarke, enquanto devaneava sobre o
eterno amor que me atormentava o peito. Por sinal, o quinto daquele mês e o
octogésimo quarto daquele ano.
O
grisalho Clarke comia um tareco, enquanto Bella marcava com suas canetas
coloridas o nome dos devedores da firma. A fábrica de canetas adorava, pois nos
últimos tempos, havia triplicado o número de canetas vendidas, das quais 35%
eram para Bella. O argentino fazia comentários aparentemente despretensiosos
sobre as vantagens do uso de Bic’s sem tampa, que nunca eram roubadas e,
sobretudo, “Eram muito mais baratas” (Enchia a boca d’água).
Encontramo-nos
os três e fomos para o Centro de Convenções no carro do casal, uma
“caminhoneta” que há muito não via água. Eu, na parte de trás, tentava me
apoiar no teto do carro, deixando – para minha surpresa – as mãos coladas no
ecossistema que se formava na localidade. “Daqui há alguns anos, teremos
petróleo”, pensei. O pai e o filho Marins chegaram 1h38min depois.
O
Congresso transcorreu normalmente, com direito a atrasos de Marins e Leônidas,
empombamentos meus e aos chicletes diet de Bella. Se os Marins chegaram horas
atrasados, nos dias seguintes, a garota-sorriso Eva chegou dias depois, ficando
por duas palestras inteiras! Uma marca quase olímpica para a
mãe-esposa-empresária-professora e mulher. Há quem diga que, qual Eurípedes
Barsanulfo, ela era capaz da onipresença. Fato nunca provado, embora a outra
alternativa possível seria a de que a mesma tivesse uma irmã gêmea.
Tudo
transcorria bem, até que fomos tomados de ansiedade quase juvenil (juvenil no
meu caso e de Leônidas) ante a possibilidade de conseguir uma entrevista com o
grande orador plurinacional Reinaldo Leite.
Bella
certificou-se de que nenhum dos companheiros mais ortodoxos estavam a vê-la na
fila, tomou coragem e inscreveu-se. “Será válida a conversa?”, perguntava-me.
“Será lícita ou contrairei um débito cármico?”, torturava-se a bela. Pouco
antes da sua vez, o atendimento foi interrompido até o dia seguinte. Suspiro
aliviado da mulher, que nos dizia: “Foi um sinal”. Todavia, a voz trovejante de
Reinaldo Leite fez-se ouvir, arrancando-a das meditações: “Falamos amanhã”,
disse. Soou como um ultimato e o tranqüilizador sinal definitivo.
No
derradeiro dia do evento, chegamos eu e os Clarke tão cedo que tivemos de
acordar o vigia e o ajudar a acender as luzes. Pontualidade: patologia da
modernidade.
Em
meio às palestras, tornamos à fila para conversar com o estimado Reinaldo.
Enquanto eu e Leônidas repetíamos velhas estórias do submundo espírita e
galhofávamos, Bella era arrastada por Marins e Eva até Clarke, que a aguardava
na fila, onde marcara lugar para a “espoça" (era assim que ele falava).
Finalmente,
ela entrou e ficamos a esperar: eu e Leônidas fazendo os mesmos comentários
irônico-edificantes, enquanto Mr. Clarke conversava em portunhol com uma
paraguaia e sua filha. Segundos depois, ela (a “espoça") sai assustada,
passa correndo e dirige-se ao bebedouro para recompor-se:
-
Preciso...
de... água.
-
Mas
o que ele disse de tão extraordinário – inquiriu o escravizado marido.
-
Sentei-me
e fiquei muda a olhar para ele, até que ele disse: “Pode falar, irmã”. Permaneci
em silêncio. Continuou “Bella, pode falar”. Eu não ouvi mais nada de tão
espantada. Afinal, como ele ia saber o meu nome, veio de São Paulo! Isso é
fantástico!!! Vem-me a intuição de que é fantástico.
-
Você
não ouviu nada, além do seu nome?
-
Não.
Ele falou horas, mas quando disse o meu nome, petrifiquei de surpresa e saí
correndo.
-
Bella, se acalme. Ele só leu o seu crachá...
Leônidas
rolou no chão de tanto rir e eu, igualmente dementado, batia lhe nos ombros
como que a repreendê-lo, sem, contudo, cessar o riso.
Dezembro de 1997...
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