Ainda distantes da Codificação Kardequiana, eu e meus amigos nos reuníamos a outros espiritualistas como nós, para a prática mediúnica. O grupo era bastante eclético: eram católicos, umbandistas, orientalistas, rosa cruzianos, esotéricos e representantes de outras facções místico-religiosas que anelavam a feição de um culto ecumênico. Os laços de amizade uniam, mas complexa era a junção de visões tão distintas, até porque os particularismos não deixavam de chegar às reuniões. Eram gnomos, duendes, incensos, livros de anjo, copos de água, sal grosso e cordões coloridos, dividindo o espaço com o “Evangelho Segundo o Espiritismo”.
Apesar das dificuldades, achávamos possível estar juntos, e inspirados no amor fraternal, encontrar um “caminho do meio”.
A reunião se constituía da leitura do Evangelho, seguida das comunicações mediúnicas e da aplicação de passes. Por fim, a água fluidificada.
Hoje, com nossa visão espírita, devidamente embasada por Allan Kardec, vemos o quanto “errávamos” e nos expúnhamos, com as práticas exteriores e os atavismos. Porém, graças a esse um ano – aproximadamente – aprendemos muito sobre a fé, o espiritualismo e a vida.
Em uma dada noite, após as comunicações psicofônicas, em que o “maravilhoso” era proposto e as vaidades exaltadas, passamos a aplicação de passes, eu e meus companheiros.
Os passes eram aplicados na própria cozinha, onde se realizavam as reuniões. Isto mesmo, era a cozinha de uma casa, onde ao redor da mesa de jantar e da fileira de médiuns, os espectadores esperavam pela aplicação dos passes, durante a qual, naquela noite, uma jovem – cuja mediunidade se alargava e descontrolava – começou a sentir-se mal, devido à presença de uma multidão de espíritos obsessores.
Eu, que era um dos médiuns da “Casa”, parti em socorro do companheiro que ministrava o passe. Como umbandista de então, recorri a presença do meu orixá (espírito guia) protetor. Ele, em comunicação, transferiu à jovem médium uma das “guias” (cordão) que estava em meu pescoço. Não adiantou.
A jovem suava frio e companheiros outros de ambos os planos da vida se acercavam de nós. Os interesses eram diversos, mas – decerto – haviam espíritos amigos, movidos pelo intuito de nos auxiliar.
A transmissão fluídica foi constante e a jovem oscilava em seu estado físico. Alguns assistentes olhavam com desdém, como se fosse uma encenação. Eu, como médium, mesmo que desequilibrado naquele instante, bem o sei que não era. E a maior parte dos espectadores observava a tudo com assombro. O desespero chegava a tomar conta de alguns. Inclusive da médium em questão, que por culpa de nossa ignorância e nossos descuidos (inclusive dela) estava naquele impasse.
A solução me pareceu arriscada. Mas era a única escolha que possuíamos, pois eu era – naquele instante – o único “veículo” capaz de solucionar, mesmo que temporariamente, o problema...
Fiz o que tinha que ser feito: com o auxílio magnético dos irmãos, atraí o espírito (ou espíritos) constritores para o meu campo de ação. Imantei-os ao meu perispírito. Acompanhado por dois valorosos amigos – que me acompanhariam ao Espiritismo, arrastei-me até o quarto da dona da casa, longe dos incautos espectadores, no 2º andar, seguido da mesma (que era a outra médium).
Graças ao concurso de espíritos benfeitores, a entidade mais agressiva foi “adormecida”. Fomos avisados que após a retirada dos “assistentes”, deveríamos “os que sentavam à mesa” partir para a doutrinação.
Assim foi feito. Alguns companheiros da mesa, mais iludidos, não deram crédito ao recado e partiram com os demais.
Minutos depois, um grupo relativamente mais coeso reiniciou os trabalhos de intercâmbio. A muito custo, vários irmãos daquela falange dedicada ao mal foram esclarecidos e puderam ser encaminhados pelos mentores que vieram em nosso auxílio. Apesar das velas, nossa fé e propósito de serviço eram interiormente sinceros e por isso, a generosidade da Espiritualidade Maior se manifestou e o amor venceu.
Meses depois, e graças ao susto, eu e três companheiros deixávamos de freqüentar aquelas reuniões e, depois de alguns meses, passamos ao tratamento em um centro espírita de fato. Daquele grupo, outros nos sucederam na mudança salutar, sem esquecer que a luz brilha para todos que a buscam com sinceridade, e sem distinção de credo. Hoje, temos plena consciência da vitória do amor e buscamos, através do trabalho criterioso, vislumbrar o amor de Deus.
Texto de julho de 1997.
ResponderExcluir