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domingo, 15 de abril de 2012

Milagres da Fé


Clarke pensava sobre a sua infância em Soares – uma cidadela Argentina com cara de aldeia – e no serviço militar prestado na Patagônia e sorria, enquanto jogava Paciência no computador do seu escritório, em Natal.
                   Bella, sua pintosa esposa, que tinha uma pinta acima da margem direita do lábio superior, fazia juz ao seu nome, enquanto ouvia lamentos nada originais no telefone do mesmo escritório, conservando um sorriso.
                   A minha é uma turma diferente. Até porque eu não sou o que se pode chamar de “normal”. Estava pensando sobre isso enquanto fazia a digestão do almoço, em minha sala, mais tarde, iríamos a um congresso espírita.
                   Eu era jovem fisicamente, mas tinha um “quê” dos homens idosos. Não, eu não andava encurvado e nem possuía cabelos brancos, mas tinha o humor do típico homem senil e era carinhosamente chamado de “empombado” (do latim “pombus” que quer dizer “carranca”, “caratonha” e mais o “em”, desinência verbal). Esse era o vício mais badalado, mas não o único.
                   Marins, o “despenteio-vivo” houvera conhecido os primeiros fios brancos, mas tinha cara e riso de garoto. Obsecado pelos equipamentos eletrônicos e por biscoitinhos amanteigados era muito tranqüilo, principalmente no que se referia aos horários...
                   Leônidas, viciado em descongestionantes nasais desde o primeiro ciclo da puberdade era possuidor de inúmeras e inquestionáveis enfermidades, sendo a maior delas a síndrome de malhakovski, que o impelia à malhação, ao deboche, ao riso e às imitações mais complexas, com a mesma facilidade com que decorava bulas de remédio e prefácios de livros. Geralmente, precisava da inspiração de Marcos (doador de fluidos e obsedado), mas aos poucos, fora ganhando autonomia.
                   A rua me atravessava com todas as suas lojas, casas, caras e pessoas apressadas e eu me dirigia para o escritório do casal Clarke, enquanto devaneava sobre o eterno amor que me atormentava o peito. Por sinal, o quinto daquele mês e o octogésimo quarto daquele ano.
                   O grisalho Clarke comia um tareco, enquanto Bella marcava com suas canetas coloridas o nome dos devedores da firma. A fábrica de canetas adorava, pois nos últimos tempos, havia triplicado o número de canetas vendidas, das quais 35% eram para Bella. O argentino fazia comentários aparentemente despretensiosos sobre as vantagens do uso de Bic’s sem tampa, que nunca eram roubadas e, sobretudo, “Eram muito mais baratas” (Enchia a boca d’água).
                   Encontramo-nos os três e fomos para o Centro de Convenções no carro do casal, uma “caminhoneta” que há muito não via água. Eu, na parte de trás, tentava me apoiar no teto do carro, deixando – para minha surpresa – as mãos coladas no ecossistema que se formava na localidade. “Daqui há alguns anos, teremos petróleo”, pensei. O pai e o filho Marins chegaram 1h38min depois.
                   O Congresso transcorreu normalmente, com direito a atrasos de Marins e Leônidas, empombamentos meus e aos chicletes diet de Bella. Se os Marins chegaram horas atrasados, nos dias seguintes, a garota-sorriso Eva chegou dias depois, ficando por duas palestras inteiras! Uma marca quase olímpica para a mãe-esposa-empresária-professora e mulher. Há quem diga que, qual Eurípedes Barsanulfo, ela era capaz da onipresença. Fato nunca provado, embora a outra alternativa possível seria a de que a mesma tivesse uma irmã gêmea.
                   Tudo transcorria bem, até que fomos tomados de ansiedade quase juvenil (juvenil no meu caso e de Leônidas) ante a possibilidade de conseguir uma entrevista com o grande orador plurinacional Reinaldo Leite.
                   Bella certificou-se de que nenhum dos companheiros mais ortodoxos estavam a vê-la na fila, tomou coragem e inscreveu-se. “Será válida a conversa?”, perguntava-me. “Será lícita ou contrairei um débito cármico?”, torturava-se a bela. Pouco antes da sua vez, o atendimento foi interrompido até o dia seguinte. Suspiro aliviado da mulher, que nos dizia: “Foi um sinal”. Todavia, a voz trovejante de Reinaldo Leite fez-se ouvir, arrancando-a das meditações: “Falamos amanhã”, disse. Soou como um ultimato e o tranqüilizador sinal definitivo.
                   No derradeiro dia do evento, chegamos eu e os Clarke tão cedo que tivemos de acordar o vigia e o ajudar a acender as luzes. Pontualidade: patologia da modernidade.
                   Em meio às palestras, tornamos à fila para conversar com o estimado Reinaldo. Enquanto eu e Leônidas repetíamos velhas estórias do submundo espírita e galhofávamos, Bella era arrastada por Marins e Eva até Clarke, que a aguardava na fila, onde marcara lugar para a “espoça" (era assim que ele falava).
                   Finalmente, ela entrou e ficamos a esperar: eu e Leônidas fazendo os mesmos comentários irônico-edificantes, enquanto Mr. Clarke conversava em portunhol com uma paraguaia e sua filha. Segundos depois, ela (a “espoça") sai assustada, passa correndo e dirige-se ao bebedouro para recompor-se:
-         Preciso... de... água.
-         Mas o que ele disse de tão extraordinário – inquiriu o escravizado marido.
-         Sentei-me e fiquei muda a olhar para ele, até que ele disse: “Pode falar, irmã”. Permaneci em silêncio. Continuou “Bella, pode falar”. Eu não ouvi mais nada de tão espantada. Afinal, como ele ia saber o meu nome, veio de São Paulo! Isso é fantástico!!! Vem-me a intuição de que é fantástico.
-         Você não ouviu nada, além do seu nome?
-         Não. Ele falou horas, mas quando disse o meu nome, petrifiquei de surpresa e saí correndo.
-         Bella, se acalme. Ele só leu o seu crachá...
            Leônidas rolou no chão de tanto rir e eu, igualmente dementado, batia lhe nos ombros como que a repreendê-lo, sem, contudo, cessar o riso.

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