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sexta-feira, 16 de março de 2012

Sutiliano

O dia amanheceu e dona “Biquinha” levantou-se para preparar o café do seu único filho: Sutiliano. A senhora era viúva e vivia em prol do seu rebento. O apelido “biquinha” a acompanhava desde o tempo do falecido. Desde os bons tempos de Geúlio Vargas (“Aquilo é que era homem”). Há divergências sobre a origem da alcunha. Uns, mais afoitos, dizem que é porque a velhinha é curva, enferrujada e vive pingando como uma bica. Outros afirmam que é porque a sua casa se localiza “de fronte” ao campinho e os meninos, depois do futebol sempre iam lavar os pés na sua biquinha. Mas, o fato é que esta mulher de 1,58m se chamava Oswalda.
         Dona Oswalda tinha uma ascendência eslava. Era filha de um eslavo e de uma portuguesa que se criou no Brasil. Apesar dessa influência não-latina, era doce e meiga. Sobretudo, com as crianças. Sobretudo, com a sua criança, seu filho: Sutiliano Getúlio de Morais, que já contava 35 primaveras. Talvez, pelo nome criminoso que lhe fora ofertado, Sutiliano era bruto, grosseiro e mal-educado. Embora a sua maior educadora lhe inspirasse candura.
         Dona “Biquinha” foi até o quarto e tocou levemente o pé esquerdo de seu filho. E que pé! Era um quarenta e quatro bico fino, herdado do pai – estivador, de 1,98m. O filho tinha só 1,92. Estranhamente o menino despertou aparentando tranqüilidade e repetindo a assertiva do Cristo, inquiriu:
-         “Quem me tocou”?
-         Foi a mamãe. Tá na hora!
-         Pô, mãe.
-         Tá na hora, “Fioto”...
-         Não (pausa) me (pausa) chame (pausa) de (pausa) “Fioto”! (Pausa/pausa e grito) Entendeu!?
            A sua cunhada, irmã de sua noiva era reencarnacionista e tinha sérias suspeitas de que ele houvera sido um dos Hunos de Átila, que dormiam sobre os cavalos, assemelhando-os. Mas, acontece que ninguém tinha solução para o temperamento indigesto de Sutiliano. A mãe o acordara para o primeiro dia no novo emprego. Contudo, à noite, teve as suas esperanças frustradas.
-         Oi “Fioto”, já chegou?!
-         Não, mãe, ainda tô lá na esquina!
-         Como foi o primeiro dia?
-         Não tá vendo a minha cara?! O dia foi uma noite... noite de filme de terror...
              A mãe, percebendo o baixo-astral do filho, indagou:
-         Por que? O que foi que aconteceu?
-         Fui demitido.
-         “Demitido”? Por quê?
-         Ora, mãe. “Por que”? “Por que”? Porque sou um cavalo... Uma senhora foi comprar pregos lá na loja, e me deu uma nota de cinqüenta reais. Eu expliquei que não tinha troco, mas não adiantou! Ela queria porque queria troco, ou então, levar os pregos de graça... Tentei explicar, mas não deu. Aí, mandei a velha guardar os pregos... Na frente de um montão de gente.
                   A genitora lhe acariciava a cabeça, quando Estelinha – sua noiva, já há nove anos – entrou na sala. Ele continuou a narrativa:
-         No fim do expediente, o seu Osório me chamou num canto, na maior sutileza. Uma educação! E me deu cartão vermelho.
                   Estelinha lhe fez uns cafunés, enquanto a sogra da mesma ia esquentar a janta. O pior é que Sutiliano era um bom sujeito. Só que era um bronco, um quadrúpede, um jumento...
-         Também não exagera!!!
                   Tá bom, dona “Torneirinha”, digo, dona “Biquinha”. Mas, como ajudá-lo? Psicólogo já havia levado a três. Dois estavam no hospital e um internado no manicômio, com maia de perseguição. O psiquiatra consultado teve que fazer uma micro cirurgia para retirar a agulha e a seringa da testa.
                   Foi então, que um amigo do seu Loureiro, da locadora, lhe ofereceu um emprego que solucionou os problemas temperamentais do nosso infeliz protagonista. Ofereceram, também, um emprego para Estelinha e eles puderam enfim se casar e ter dois lindos potrinhos, digo, filhinhos.
                   A solução foi a seguinte: contrataram Sutiliano como administrador de um haras e à sua mulher como relações públicas. Ele cuidava dos clientes e ela dos donos dos clientes. Às vezes haviam alguns problemas, por exemplo na hora de ferrar os clientes. Porém, se algum lhe coiceava, Sutiliano lhe retribuía o gesto. No fundo, no fundo, se entendiam, pois eram iguais. E dona “Biquinha” ganhou um quarto na fazenda só para ela.
            Brrr.

4 comentários:

  1. Sandro, vc tem mesmo certeza que se trata de um homem? Já pensei em umas 3 "Sutilianas"!!! hehehe
    Excelente.
    Abração.

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  2. Massa, Sandrículo! Novamente chego toda empolgada nos comentários e descubro que a crônica tem quase a minha idade. Muito atual, contudo. Excelente uso das palavras.

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