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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O Pão

Teodorico estava atrasado para o trabalho, faltara luz no bairro durante a noite, e o despertador não havia tocado. Ele saiu do banho – ainda molhado – e foi para a cozinha tomar o seu café. Encheu uma xícara com leite, colocou duas colheres generosas de açúcar e repetiu o ritual da “pingada”, deixando deslizar fulgidamente uma ou duas gotas de café, que é pra não aumentar muito a presão.
         Procurou o pão sobre a mesa e não o achou. Foi até o armário se lastimando pelo tempo perdido e abriu todas as portas do móvel sem, contudo, encontrar alguns pães. Olhou no forno, para ver se Alzira lhe tinha feito torradas com o pão dormido e nada.
         Meio irritado, se dirigiu à mulher que lhe sucedera no banho:
-         Pão?!... Pão!?... Pão?! – num misto de dúvida e protesto. Sua senhora retrucou:
-         O que foi?... O que foi “Didico”?
-         Onde está o pão? Não tem pão?
-         Não tem pão.
-         “Não tem pão”!
-         É. “Não tem”, acabou.
-         Acabou o pão?
-         Acabou! Os pães acabaram-se. Foram comidos.
-         “Comidos”? – perguntou ainda mais irritado.
-         Os meninos comeram.
-         “Meninos”?!
-          É, os meninos – tornou a senhora, ainda ensaboada – por que você não vai comprar pão, na padaria?
Essa pergunta resoou como uma ironia gravíssima. Quiçá passível de divórcio. Ou de uma surra. Esta segunda alternativa agradou mais ao dementado Teodorico. Não pela pergunta em si, ou por mais uma ironia em 19 anos de casado, mas porque o carteiro atrasado se lembrou da triste infância em Valadares.
Recordou-se de que era sempre ele, em uma família de doze irmãos, com menos de quinze anos de diferença, que todas as tardes comprava o pão. Ou os pães, no caso 40. Mas, “pão” fica mais verossímel que “pães”.
Lá pelas nove da manhã, quando conseguiu chegar no trabalho, Teodorico verificou que a sua bicicleta, instrumento de trabalho, estava com o pneu ainda empenado, devido ao acidente do dia anterior. Dirigiu-se ao mecânico da empresa, “Parazinho” e bradou:
-         Por que você não consertou o pneu da “Ofélia”? – “Ofélia” era a bicicleta.
-         Esqueci – disse o mecânico.
-         Pois eu acho é que te esqueceram de fazer com cérebro! Seu pau-de-arara desterrado!!! Ajeita essa joça que eu tô atrasado!!! – e o paraibano assim o fez.
Na hora do almoço, “Parazinho” ainda guardava as impressões do nefando diálogo. Ao se encontrar com sua noiva, 35 minutos atrasada, perguntou:
-         Por que o atraso?
-         Foi o ônibus, Ariosto. – este era o nome de “Parazinho”.
-         Por que você não veio trotando, sua mula! Agora, ou a gente almoça ou compra o fogão... – a mulata engoliu em seco.
Ao retornar para a livraria onde trabalhava, a mulata Aparecida foi admoestada pela chefe, dona Célia.
-         Por que o atraso?
“Por que o atraso?”, aquela pergunta soou novamente em sua cabeça e a menina se “arretou”:
-         Quer me descontar, me desconta. Mas, não me enche o saco!
Dona Célia que gostava da menina como a uma filha que nunca pode ter, evitou a discussão. Todavia, guardou em seu íntimo a necessidade de uma vingança. O que ocorreu justamente no ônibus dirigido por Lamartine – poeta e cantor.
Célia, inteira em seus trinta e cinco anos, pegou o coletivo e foi interpelada por um colega:
-         Como vai, Célia? Tá boa? – antes mesmo que ela pudesse responder, Lamartine falou:
-         Claro, tudo em cima! – dando ênfase na segunda frase. Embora ele nem tivesse ouvido a pergunta do outro passageiro e houvesse se dirigido ao guarda Jessé. Dona Célia não contou conversa, desceu o braço em Lamartine e foi expulsa do ônibus, antes que pudesse continuar.
Ao largar do emprego, lá pelas 18h, Lamartine foi até um boteco e tomou duas ou três cervejas para acalmar-se. E cantou uns pagodes. Porém, um outro freqüentador do lugar, que tinha rixa antiga com Lamartine, por causa de um carteado, falou em voz alta para os companheiros de copo:
-         Antigamente a gente podia vir para este estabelecimento e beber em paz! – enfatizou a palavra “paz”.
Como o Lamartine, meio chateado em sua mesa, nem ligou, Lucrécio, já embriagado tornou à carga:
-         Ô Manuel, esse teu galo tá com gôgo!
Não houve tempo para se evitar que Lamartine quebrasse um taco de sinuca na cabeça do ávido crítico. Devido ao efeito etílico e aos braços de remador do motorista, Lucrécio caiu e dormiu até as 2h30 da madrugada, quando o bar fechou e ele teve que ir para casa.
No dia seguinte, encontrou-se com um vizinho na padaria, comprando pão. Era o carteiro Teodorico, a quem conhecia de vista. Seguindo a um impulso bestial, Lucrécio respondeu ao cumprimento de “Bom dia” do outro, com um “Vai pastar!”. Provavelmente algo no inconsciente coletivo o despertara para o fio do novelo.
Teodorico reconhecendo em si o pontapé inicial daquela bola de neve, por um secreto instinto, buscou respirar fundo e distrair-se com os brigadeiros da vitrine.
Acabando de escrever esta crônica, fechei o caderno, guardei a caneta e pus uma camisa. Fui até a padaria e comprei dez pães e um leite. Pela primeira vez, o fiz sem lastimar. Todavia, com medo de algum efeito retardado, não desejei “bom dia” a ninguém, apenas sorri.

domingo, 20 de novembro de 2011

Advertência Inesperada

A reunião mediúnica seguia o seu curso. O grupo constava de nove pessoas, das quais oito estavam à mesa. A nona, encarregada da aplicação de passes e sustentação fluídica, encontrava-se em uma cadeira à parte. Eventualmente, aproximava-se do grande círculo para executar a sua função com mais eficiência. O clima era harmônico e pude intermediar uma das mais belas comunicações de que me recordo. Naquela noite, era um dos cinco médiuns de psicofonia presentes e sob os auspícios da equipe espiritual, permiti a aproximação do espírito comunicante. Ele foi interpelado pelo doutrinador:
-         Seja bem vindo, meu irmão! Em que podemos ajudar? – ao que retrucou:
-         Pelo que me conste, eu não vim aqui por necessitar de ajuda.
-         Pois então, a que veio?
-         Vocês quebraram o acordo! Não cumpriram a sua parte no acordo!
-         De que se trata, meu irmão? A que acordo se refere?
-         Vocês se meteram em nossos negócios! – e continuou visivelmente (ou invisivelmente) irritado – Nós lhes concedemos salvo conduto, permitimos que resgatassem os que já estavam prontos. Mas vocês quebraram o acordo! Interfiriram em negócios que não lhes diziam respeito. – bradou.
-         Meu irmão, nossa missão é ajudar a tantos quantos pudermos. Não nos cabe julgar, devemos amparar.
O irmão desencarnado continuou, em tom colérico:
-         A trégua está desfeita! Vocês não mantiveram a palavra, agora agüentem as conseqüências. A justiça será feita!
-         Sim, meu irmão, será feita. Mas, será feita por Deus. A justiça a ser feita é a do amor. – enquanto falava, o doutrinador emitia ondas que amenizavam o descontrole do espírito comunicante. Companheiros desencarnados buscavam dissolver a compacta camada escura que encobria o espírito enraivecido. Mas, quanto mais resíduos deletérios eram retirados, mais o ódio produzia.
Fazia-se necessária à intervenção do passista encarnado, com seus fluidos animalizados, mais compatíveis com o socorrido. Este cooperador foi intuído a locomover-se em direção ao médium, posicionando-se à sua retaguarda. Os recursos fluídicos do magnetizador foram somados aos agentes desencarnados, obtendo-se um resultado favorável.
Sob um clima mais propenso, atingido em poucos segundos, o doutrinador recomeçou o colóquio:
-         Companheiro, perceba que a nossa irmã merece outra chance.
-         Aquela víbora já não desperdiçou tantas oportunidades! Por que deveria crer agora, que está modificada? Não creio!
-         Ela poderá lhe dar aquilo que mais deseja...
-         Um reencarne?! Ela me terá como filho?
-         Sim, o irmão terá outra oportunidade, assim como a irmã a tem, agora.
-         Ela me rejeitou antes.
-         Pensemos que agora será diferente. Oremos a Deus por isso!
-         Espere, eu vou fazer o que me pede, deixa-la em paz e submeter-me ao processo de preparação para o reencarne. Mas, se ela falhar de novo, meus seguidores vão fazer justiça!
-         O irmão deverá ficar alguns dias aqui, conosco, para que a preparação saia a contento e a justiça de Deus se faça.
-         Tudo bem, mas preciso orientar a meus comandados. – fez-se uma pausa e o espírito outrora insensível às emoções humanas, colocou-se aturdido:
-         Mas, espere... Eles estão aqui?! Descumpriram minhas ordens e entraram!!!
-         Todos devem ter oportunidades de ouvir a verdade. Todos merecem a liberdade, meu irmão. – com mais estes acontecimentos e após a argumentação lógica, aliada a um carinho fraternal, o espírito anteriormente enlouquecido, se desarmou por completo.
A nuvem negra que o cobria, cedera lugar a uma tênue luminosidade, e sua inteligência insubmissa e implacável fora anestesiada pelo amor e pela lógica da humildade. Reconhecendo-se como alguém incapaz de julgar, falou com humildade. Uma humildade que jazia por anos a fio nas profundezas de sua alma:
-         Gostaria de pedir-te uma coisa.
-         Diga, meu irmão.
-         Gostaria de pedir que me fosse retirado este aparelho que me colocaram. Uma espécie de capacete perispirítico, para evitar uma ofensiva magnética de minha parte, uma possível hipnose.
-         Vamos pedir a Deus, amigo. Que se faça a sua vontade!
-         Agora, agora eu posso vê-lo. Posso vê-lo em toda a sua luminosidade... Como brilha!
-         É Jesus, que se reflete em nós, meu amigo. O brilho que vês é uma ínfima fração do amor de Deus.
E demonstrando toda a lucidez que sua intelectualidade alcançou sob a égide da humildade, desferiu:
-         Mas, não te envaideças. Se não, da próxima vez, estaremos sentados nos lugares trocados, meu irmão.
-         Obrigado, irmão. Espero que nos encontremos novamente e que possamos nos reconhecer. – disse o doutrinador ao novo amigo, ao que este, envolto em emanações de sublime harmonia e beleza, reluziu:
-         Com certeza. Com toda a certeza, nos veremos, meu irmão.
-         Graças a Deus! – suspirou o orientador encarnado, visivelmente emocionado, como nós outros que recobrávamos a lucidez, deixando o transe mediúnico.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

A Vitória do Amor

     Ainda distantes da Codificação Kardequiana, eu e meus amigos nos reuníamos a outros espiritualistas como nós, para a prática mediúnica. O grupo era bastante eclético: eram católicos, umbandistas, orientalistas, rosa cruzianos, esotéricos e representantes de outras facções místico-religiosas que anelavam a feição de um culto ecumênico. Os laços de amizade uniam, mas complexa era a junção de visões tão distintas, até porque os particularismos não deixavam de chegar às reuniões. Eram gnomos, duendes, incensos, livros de anjo, copos de água, sal grosso e cordões coloridos, dividindo o espaço com o “Evangelho Segundo o Espiritismo”.
         Apesar das dificuldades, achávamos possível estar juntos, e inspirados no amor fraternal, encontrar um “caminho do meio”.
         A reunião se constituía da leitura do Evangelho, seguida das comunicações mediúnicas e da aplicação de passes. Por fim, a água fluidificada.
         Hoje, com nossa visão espírita, devidamente embasada por Allan Kardec, vemos o quanto “errávamos” e nos expúnhamos, com as práticas exteriores e os atavismos. Porém, graças a esse um ano – aproximadamente – aprendemos muito sobre a fé, o espiritualismo e a vida.
         Em uma dada noite, após as comunicações psicofônicas, em que o “maravilhoso” era proposto e as vaidades exaltadas, passamos a aplicação de passes, eu e meus companheiros.
         Os passes eram aplicados na própria cozinha, onde se realizavam as reuniões. Isto mesmo, era a cozinha de uma casa, onde ao redor da mesa de jantar e da fileira de médiuns, os espectadores esperavam pela aplicação dos passes, durante a qual, naquela noite, uma jovem – cuja mediunidade se alargava e descontrolava – começou a sentir-se mal, devido à presença de uma multidão de espíritos obsessores.
         Eu, que era um dos médiuns da “Casa”, parti em socorro do companheiro que ministrava o passe. Como umbandista de então, recorri a presença do meu orixá (espírito guia) protetor. Ele, em comunicação, transferiu à jovem médium uma das “guias” (cordão) que estava em meu pescoço. Não adiantou.
         A jovem suava frio e companheiros outros de ambos os planos da vida se acercavam de nós. Os interesses eram diversos, mas – decerto – haviam espíritos amigos, movidos pelo intuito de nos auxiliar.
         A transmissão fluídica foi constante e a jovem oscilava em seu estado físico. Alguns assistentes olhavam com desdém, como se fosse uma encenação. Eu, como médium, mesmo que desequilibrado naquele instante, bem o sei que não era. E a maior parte dos espectadores observava a tudo com assombro. O desespero chegava a tomar conta de alguns. Inclusive da médium em questão, que por culpa de nossa ignorância e nossos descuidos (inclusive dela) estava naquele impasse.
         A solução me pareceu arriscada. Mas era a única escolha que possuíamos, pois eu era – naquele instante – o único “veículo” capaz de solucionar, mesmo que temporariamente, o problema...
         Fiz o que tinha que ser feito: com o auxílio magnético dos irmãos, atraí o espírito (ou espíritos) constritores para o meu campo de ação. Imantei-os ao meu perispírito. Acompanhado por dois valorosos amigos – que me acompanhariam ao Espiritismo, arrastei-me até o quarto da dona da casa, longe dos incautos espectadores, no 2º andar, seguido da mesma (que era a outra médium).
         Graças ao concurso de espíritos benfeitores, a entidade mais agressiva foi “adormecida”. Fomos avisados que após a retirada dos “assistentes”, deveríamos “os que sentavam à mesa” partir para a doutrinação.
         Assim foi feito. Alguns companheiros da mesa, mais iludidos, não deram crédito ao recado e partiram com os demais.
         Minutos depois, um grupo relativamente mais coeso reiniciou os trabalhos de intercâmbio. A muito custo, vários irmãos daquela falange dedicada ao mal foram esclarecidos e puderam ser encaminhados pelos mentores que vieram em nosso auxílio. Apesar das velas, nossa fé e propósito de serviço eram interiormente sinceros e por isso, a generosidade da Espiritualidade Maior se manifestou e o amor venceu.
         Meses depois, e graças ao susto, eu e três companheiros deixávamos de freqüentar aquelas reuniões e, depois de alguns meses, passamos ao tratamento em um centro espírita de fato. Daquele grupo, outros nos sucederam na mudança salutar, sem esquecer que a luz brilha para todos que a buscam com sinceridade, e sem distinção de credo. Hoje, temos plena consciência da vitória do amor e buscamos, através do trabalho criterioso, vislumbrar o amor de Deus.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O romance do universitário otário

Eu não conheço ninguém que não goste de chegar cansado em casa e se jogar na sua cama. Ou que prefira dormir na casa dos outros, até nas questionáveis acomodações das casas de praia a usufruir da sua caminha. Ninguém, além de mim! É que o meu colchão é muito fino e adquiriu forma de “V” – torturante.
         No domingo, passara o dia sentado e senti a coluna estalar quando já me preparava para dormir, pensei: “Umas boas horas na horizontal me farão como novo”. Se fosse, seria, mas não foi...
         E eu acordei na segunda feira meio alquebrado, com o que procurei não me irritar, domando o meu temido mau humor matinal. Abri a  porta do quarto e vislumbrei o banheiro em toda a sua plenitude. Saltei ao seu encontro, entretanto, meu irmão que tinha o quarto colado ao banheiro, foi mais ligeiro. Pensei: “Tudo bem”. “Tudo bem é o cacete”!
         Tomei o ônibus já mais sereno. Até esbocei um sorriso para um vizinho, no que fui recompensado pelo destino, que me reservou um lugar sentado no veículo. Todavia, uma senhora gorda e seus pacotes me fizeram implorar para que os mesmos ocupassem meu assento. Posicionei-me de frente à larga escada do coletivo que era dividida por um corrimão (Para anão, é verdade. Mas não me ocorre outro nome.). Tomei posição no lado esquerdo e um outro rapaz, no direito. Uma colega universitária me acotovelou, postando-se à minha frente, já com o nariz embaçando o vidro da porta.
         Quando o ônibus ia partir, vimos os três que o circular do campus (ônibus interno) tomava fôlego para sair. Olhamo-nos os Três com apreensão e uma certa animosidade. Um conquistador barato, que se encontrava sentado numa das cadeiras da última fila, tentando tranqüilizar a moça, falou:
-         Dá uma corridinha que dá! – Que construção literária! Mas o fato é que está sendo transcrito na íntegra, o comentário.
As portas se abriram e a universitária buscou uma saída explosiva, no que foi brecada pelo rapaz da parte direita da escada. O corpo da menina, após chocar-se contra o do colega de universidade, voltou ao ônibus, fazendo-a a cair sobre os degraus e alguns dedos meus. Não se dando por vencida, buscou uma nova escapada. Transpôs o meio fio, mas desequilibrou-se na parte de barro, “catando cavaco” por uns dois metros. Aí ela recuperou toda a sua dignidade, se ajeitou e foi andando como uma lady. Eu, mais cauteloso, fiz uma mímica de corrida para sensibilizar o motorista. Contudo, para minha surpresa, o sofrido trabalhador vinha descendo do ônibus circular para verificar o pneu...
Se você pensou que o pneu estava furado e fiquei duas horas esperando outro circular ou uma carona, é porque você não consegue enxergar nenhuma poesia na vida. Isso não aconteceu. Naquele dia...
O que ocorreu foi que o veículo estava tão cheio e que o piloto teve dificuldades para adentrar o mesmo, o que só conseguiu após argumentar que sem ele para dirigir, o transporte não partiria. Porque nós sabemos que aqui na Universidade tudo tem que ser muito bem explicadinho, senão os xiitas de Nike soltam o verbo. Mas desta vez até os marxistas se convenceram que ao exigir a sua entrada no ônibus para nos levar a nossos objetivos, o motorista não estava sendo burguês e muito menos querendo nos explorar ou papar a nossa “mais valia”.
A viagem foi tranqüila e eu pude aprender um pouco mais sobre a fé, com um rapaz que vinha sentado na janela, em frente ao local em que eu me equilibrava. O religioso companheiro limpava o nariz com o dedo indicador direito, como se estivesse em uma ilha deserta. Quando passamos por uma escultura sacra, ele interrompeu o seu lazer. “Deve ser falta de respeito com a santa”, pensei. Só sei que mais do que rapidamente ele fez o sinal da cruz para tornar à intrigante atividade.
As duas primeiras aulas foram as piores do pior professor do Campus Universitário. Mas eu sobrevivi, apenas um pouco abalado, como demonstrava a minha pressão à 20 por 18. “Como é que eu sei da minha pressão naquele instante”? Tá bom, eu não sei. Pronto. Sobrevivi a aula e minha veia não estourou, nem tive um ataque cardíaco.
Sentei-me em uma das mesas da lanchonete com “Dani Baby” (cuja origem do apelido exige uma outra estória), depois chegou a motoqueira Helena Circuncisão de Macedo, que apesar do nome “circuncisão” registrado em cartório, não era, obviamente, circundada. Na mesa ao lado: Da Paz, Alessandra (O Terror do Bairro Nordeste) e Luciana – a língua mais rápida da Universidade (No sentido verbal, é claro! “Ou não?”)
-         É aniversário da Luciana, Sandro, não vai dar os parabéns?! – disse Alessandra.
Levantei-me e fui até a mesa delas. Luciana saltou para longe, dizendo:
-         Foi ontem.
Voltei inconformado para a companhia de Baby e Helena. Esta me falava sobre o seu grande amor, enquanto a outra me enfiava goela abaixo um croissant de queijo (Queijo? Alguns autores discordam.).
-         Hei Sandro, não vem me desejar os parabéns?! – Disse Luciana, voltando.
Tornei a me levantar e fui cumprimenta-la. Quando estava na segunda palavra, Baby me atravessa revoltada:
-         É a última vez que chamo você para lanchar comigo! Você me deixou sozinha! Que desconsideração!!!
Eu gaguejei e tentei me explicar: “O que é isso, Baby?”, mas ela se foi. Virei-me, novamente para as meninas, todavia, Luciana não perdeu a deixa para uma ironia:
-         Deixe de ser galinha!
Meio zonzo qual uma locomotiva alimentada por uma garrafa de tequila, puxei Helena para a mesa das outras.
Alguém fez uma piada e Alessandra gargalhou freneticamente expelindo – no mínimo – 100ml de Coca-cola sobre nós.
Fiquei catatônico até o fim da última aula, quando me dirigi para o setor I, em busca de minha garota. Ela me saudou com um sorriso.
-         Oi. – eu disse.
-         “Oi”? Você não poderia ser um pouco mais romântico!?!
Rolei pelos gramados do Campus, chorando e uivando.