Páginas

sábado, 17 de setembro de 2011

O Homem mais AFIM do Mundo

Não terei dificuldades para falar sobre o homem mais “AFIM” do mundo, pois quis o destino que ele fosse meu primo: Raul.
Quando do título, este assim se definia: alto, branco, cabelos castanhos, com o mesmo corte desde que foi morar em Feira de Santana, dedos longos, sem bunda (estranhava que as cuecas “M” ficassem apertadas em mim) e trejeitos singulares. Era manso, muito manso, beirando a abestalhação.
Sua primeira namorada firme foi a nariguda Kelly. Digo nariguda porque assim o era sem, contudo, ser feia. Namoraram quase dois anos e foi aí que começamos a vislumbrar os sintomas de sua ímpar doença.
Raul, o desbúndeo, não saía da casa da menina - que morava uns cinco ou seis quilômetros após a “curva do vento” e treze depois das “botas de judas”. Assim, ele conheceu em plenitude toda a eficiência do sistema rodoviário nacional...
E o impressionante era a transfiguração do meu primo quando falava com a respectiva. Imaginem o meu desgosto - eu, proveniente de  uma família de machos, foram um outro primo cabeleireiro e dois ou três pederastas - o meu desespero ao ver o insano rapaz encurvado sobre o aparelho telefônico, suado, de cuecas, gemendo:
- Amor?! Xou eu! Tudo bêêêin?... - com uma inflexão afeminada impossível de ser transcrita.
Doutra vez, após ficar as vinte últimas horas do domingo, na casa de Kelly, “Rao” (era assim que ela o chamava) tomou o ônibus de volta e após o cobrador requisitar o dinheiro ele cantarolou:
- Tá boum! - no mesmo tom duvidoso em que tinha conversado com a namorada.
O cobrador, mulato carregado, pai de três filhas, fingiu nada ouvir. Contudo, riu com a mulher até as três da madrugada, rememorando o acontecido.
Mas, como tudo passa, e “tudo sempre passará”, segundo alguns, “Rao” e Kelly terminaram o namoro. Segundo línguas maldosas, por um loiro motivo. Para mim, foi um golpe, ainda mais era amigo da nariguda em questão. Entretanto, confortou-me o fato de ela me ver menos vezes, e chamar-me - em menos ocasiões - de “Sandrículo”.
 Embora, anos depois, uma namorada aperfeiçoou o crime chamando-me “Sandriculinho”. Frescuras que nunca entendí...
Quis o destino - e sua convicção - que Raul, o desnadegado, permanecesse longo período no claustro. Até que a vida lhe trouxe Carla. Ambos entraram na universidade juntos e, durante um ano, foi os melhores amigos. Foi os melhores amigos? Sim, porque apenas Raul assim o era. A colega de curso era insanamente apaixonada pelo rapaz. Insanidade esta que - meses após - tomaria corpo e forma.
Carla era uma figura sui generis. Morena e simpática, cultivava cachinhos - propícios ao reggae - talvez, por isso, adorava tal gênero musical. E embora o talento para a dança de Raul a decepcionasse, contava com a complicidade deste. O “reggae” e a “Tribo de Jah” estavam tão intimamente ligados à - então - minha “prima”, que não podia concebê-la sem associar à música: “Babilônia em chamas / Chamas da destruição”. Infelizmente, eu só conseguira decorar este trecho.
Quando eles começaram o namoro, toda a força parasitária da paixão teve lugar, e há que se admitir que teriam tomado o lugar de Mary Émerson, um amigo nosso, que outrora fora duas pessoas apaixonadas.
Raul, o homem mais afim do mundo, estudava com Carla, de manhã e à tarde. À noite, ia ao shopping com ela, estudava com a mesma ou fazia outros programas de casais. No fim-de-semana, a simbiose era tão letal quanto a dos dias antecessores: iam da casa da mesma para um parque, e deste prá outro ... além dos passeios de namorados.
Eu, em minha pequenez, não entendia a singular patologia e mostrava a todos a minha indignação. O acusado rogava-me pragas, como quando ele tinha o rosto coberto por espinhas e eu mantinha a pele limpa, ostentando o título de “cara de bunda de neném”. Como eu o sacaneava, ele atacou-me com o pólen da vingança e - de súbito - sua pele voltou ao normal, restando-me a desfiguração. Ou, para ser menos trágico, a incômoda presença das espinhas e seus amigos cravos.
Raul, então, dizia que quando me apaixonasse seria infectado pela mesma virose que o molestava. Eu temia que, uma segunda vez, pagasse  pelas inocentes colocações. Mas seguia, convicto em minha cruzada pela sanidade.
Em dada ocasião, conversava com o despenteado Marins sobre o assunto.
- Marins, isso é um absurdo, uma doença!
- Não é bem assim. Ah, ah, ah... É só uma questão de afinidade.
- “Afinidade”? Então ele é o homem mais afim do mundo
E, embora eu não soubesse se “afim” se escrevia junto ou separado, dei ao meu esguio primo o título que intitula esta estória.

3 comentários:

  1. Caramba Sandro, é a pior sensação do mundo ler suas crônicas e, ao chegar nos comentários, ver que são da idade da pedra.

    Apesar de tudo, gostei muito dessa. É uma doença mesmo... Como tal, deveria ter cura.

    ResponderExcluir
  2. Raul, Raul... >tsc, tsc, tsc<.
    Confira o meu blog, El Pato.
    http://grafitenanquim.blogspot.com/

    ResponderExcluir