Chamo-me Dagoberto e era o encarregado de manter os alunos disciplinados no Colégio Santo Ignácio, em Mauritânia, capital da Alexandria.
Há sete anos que ocupava o cargo de Coordenador da Chefia de Disciplina Educacional, desde a fundação do referido estabelecimento de ensino.
O diretor pedagógico da nossa escola era o professor Tedesco Nilo - sendo meu superior imediato. O outro diretor, o financeiro, era o Haroldo. Para vocês terem idéia de como eu o amava, o filho do meu vizinho tem o mesmo nome do infeliz, quando ouvia os pais chamando o menino:
- Haroldinho! Haroldinho! Vem cá, menino!
Eu tinha calafrios. De certa vez, eu quase acertei a cabeça da criança com uma pá de lixo. Só não o fiz porque a pá estava enferrujada e eu temia provocar o tétano.
Antes de prosseguir, gostaria de recomendar a leitura desse texto nos locais de trabalho. E, em voz alta. Vocês já vão entender porque...
Era uma sexta-feira e eu tinha dentista. Um agradável tratamento de canal às 07 da manhã. Lá fui eu. Só que ele - o dentista - não apareceu. E depois de esperar 48 minutos, a secretária dele chegou e me comunicou que o mesmo tinha dado um jeito na coluna. Que bom!
Fui trabalhar, estacionei o carro, e mal desliguei o veículo, o “flanelão” veio para um papo amistoso. Assustei-me, porque lembrei que havia expulsado da escola o Campeão Estadual de Boxe Tailandês, na semana anterior. E que este me prometera uma visita. Mas não era ele, pelo menos ainda não. O “flanelão” batia com um pé-de-cabra na palma da mão esquerda. E que palma! Eu lhe dei uma nota de cinco.
- “Qué trocu?!”
- “Não. Que é issu.”
Quando entrei na minha sala, um aluno fumava... Com uma professora sentada em seu colo? Não. Entrara no banheiro masculino onde um aluno e a irmã da professora de química conversavam animadamente. Convidei-os à coordenação.
Finalmente, após despachar os infratores, sentei na minha confortável cadeira reclinada, que rangia furiosamente. Procurei relaxar, mas fui visitado pela professora Odaléia, que me justificava a semana de faltas e me contava coisas sobre o Oswaldinho e sua bronquite asmática (doença causada pelo vírus “entendidos”, que esqueceram os preconceitos e curtiram toda a sua bronquitude e asmaticidade). Ela saiu sete minutos depois, e eu parecia ter levado sete marteladas.
Busquei no fundo da cabeça os meus ensinamentos yogues e tentei relaxar, no que fui frustrado, novamente, pelo servente, Ebigálio. Ele me trazia uma garrafa de chafé e reclamava que tinha limpado o colégio todo e que os alunos tinham sujado tudo jogando papel no chão, lambusado o carpete, arrotado, cuspido, gritado, atazanando as idéias do humilde ser. Eu - é claro - prometí tomar uma atitude. O que ele não sabia é que esta seria urinar nas suas plantas ou enfiar-lhe o espanador goela abaixo.
Tornei à meditação tântrica e quando entrava no Nirvana, Ivana, do segundo ano, me surgiu inteira. Eu, que ainda não chegara aos trinta, senti toda a empolgação possível. Ela se sentou e começou a falar, exalando toda a sua beleza e inteligência questionável.
Foi quando Haroldo adentrou o recinto e pôs-se a tagarelar, reclamar, bufar, espernear,, irritar, encher, emporcalhar, pentelhar, enfurecer, ironizar, ensandecer, até que eu vislumbrei o Nirvana. Uma luz se me apresentou a saída. E eu mostrei a saída ao cretino do Haroldo:
- Haroldo, não quero saber de suas mesquinharias. Estou farto de suas ironias! Se sou incompetente, me demita. Mas não me torre a paciência ou te arrebento, seu crápula! E conto prá todo mundo que você liga pro Disk Sexo, aqui do colégio - isso falei mais baixo, porque poderia salvar minha pele.
Tornei à Ivana. Ela queria ligar apara a mãe e eu disquei para lá. Dona Isabel atendeu e eu disse:
- Como vai, dona Isabel? ... Bem, obrigado... A sua filha está aqui e quer falar com a semhora... Sim .... Mas antes eu é que vou falar! Como é que a senhora tem uma filha linda dessas?! Ela é demais... Eu sei, eu sei que ela é noiva, mas eu quero que a senhora mande esse garoto ir se danar, que eu vou largar as minhas duas esposas e cinco filhos. Vou fugir com ela para Foz do Iguaçú e ser recepatador de moamba ... Tchau, coroa, a senhora também bate um bolão.
E tasquei um beijão em Ivana que me olhava embabascada. Quando ela tornou a si, eu disse que me esperasse no carro. Afrouxei a gravata e fui em direção à oitava série.
Com licença, professora. Sabe porque os alunos bagunçam na sua aula? É porque ela é uma droga! É um saco! E a senhora, a senhora é um porre. Vá para casa e pode começar a fazer crochê. Tá todo mundo liberado! A aula acabou - gritei, colocando-me em frente a um dos alunos, dizendo - você não. Você vai para a minha sala.
Chegando lá assinei a expulsão da falsa vítima e me vinguei do aluno que me atormentava sutilmente há dois anos. Arremessei a gravata.
Já de saída, passei pelo gabinete do diretor pedagógico, comendo o seu peixe preferido e afogando o busto de Câmara Cascudo no seu aquário. Ah, e picotei a foto do seu caçula, gargalhando freneticamente.
Surpreendi uns alunos fumando debaixo da mangueira e, ao invés de bater na mesma tecla, lhes dei o meu estoque de maços de cigarros e minha coleção de isqueiros apreendidos. Exceto um, beijado pela Claudia Cardinale.
Dissera ao Professor Tedesco Nilo que, agora, eu era o “bonzinho” que ele insistia em ser, enquanto me exigia expulsões mensais. Mais isso foi antes ou depois de chamá-lo de pulha? Não me recordo.
No carro, Ivana me esperava confusa e apaixonada, saudando-me com uma fungada no cangote.
Sobre o título “Um dia que não aconteceu”, tenho a declarar que é sincero. Pois, se este dia acontecesse, não estaria contando esta estória. Ou estaria?
Texto de março de 1997. Inédito! O que vocês acharam???
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