Era uma família feliz, a família
Ortodoxia. Um pai, uma mãe e os três meninos, cujos nomes nunca soube (e quiçá
nunca saberei), e sobre os quais sempre conversamos como um todo homogêneo: “Ur
minino”.
A
matriarca, Tácia, recebera o nome Ortodoxia do marido, sendo menos ortodoxa.
Possuía um bom-humor contagiante e curioso, visto que era funcionária pública
da área se saúde. Suas risadas eram as mais constantes e quase tão intensas
quanto as de Antônio – que fora multado pela associação de moradores do
Conjunto Ponta Negra e tinha horários específicos para assistir a filmes de
comédia. Mesmo assim, as casas que circundavam à de “Boy Antônio” ficavam
constantemente “para alugar”.
Voltando
à Tácia, ela era a cúmplice ideal para Ed, o contador de causos. Confirmando
todos os seus “floreios literários”. Ed tinha uma fama tão grande de
“ficcionista”, que quando ajeitava a gola da camisa para começar o discurso,
vinha logo um gaiato a dizer: “Conta aquela em que você morre no final”, ou
melhor, “desencarna”. Afinal, era quase sempre um meio espírita.
Mas,
apesar do bom-humor, de ser jocosamente chamado “Papai Noel” (ninguém
acredita), Ortodoxia se transfigurava quando chegava no Centro ou no local de
trabalho. Era o próprio “Homem-ortodoxo”, fiel à causa e de seriedade imperturbável.
Quando acabava a Reunião Espírita, organizava a roda para contar suas estórias e
ouvir as imitações de Leônidas ou as piadas de “Boy Antônio”.
Ed
era tão ortodoxo que se negou a comprar uma nova edição de “O Livro dos
Espíritos”, da FEB (Federação Espírita Brasileira), só porque tinha um desenho
de Allan Kardec na capa! Pobre vendedor, ouviu uma longa história sobre
iconolatria. Outra peculiaridade era a verve oratória do jovem senhor em
questão. Verdadeiro lapidador da língua mater, empreendia uma característica
verborragia, de cunho científico-filosófico, de beleza e eficiência invejáveis.
Na tribuna, era orador incansável, de fartos recursos doutrinários e
lingüísticos.
Porém,
com o intuito de torná-lo mais relaxado e menos ortodoxo, alguns de nós
procuramos uma médica que trabalhava com Florais de Bach, capazes de minimizar
impulsos indesejáveis e de tornar o ser mais equilibrado. E ele o desejava.
Talvez, não soubesse, mas desejava mudar. Fizemos detalhado retrato do nosso Ed
para a doutora e ela nos preparou uma fórmula, que passamos a introduzir na
água fluidificada que o mesmo ingeria após o trabalho na Casa Espírita.
Como
o resultado não aparecesse, mancumunamo-nos com Tácia e ela concordou em
ministrar ao marido as doses recomendadas do elixir, quase como prescritas pela
doutora.
Há
três semanas, Ortodoxia não aparecia na Casa Espírita e Tácia não tocava no
assunto. Até que em uma dada terça-feira, dia de sua palestra, Ed adentrou o
recinto de forma sui generis. Não estivesse eu de frente para a porta, não
acreditaria...
Em
contraste com a sua gélida seriedade habitual, um sorriso tranqüilo era o
cartão de visitas. Sandálias franciscanas, calça indiana, camisa branca,
turbante, pulseira, anéis, cordões e até brincos. Soltou uma sacolinha, que
trazia, no chão e benzeu-se, após fazer uma saudação budista e dizer palavras
impronunciáveis, pelo menos neste hemisfério.
Ainda
levemente concentrado, foi até o salão, onde proferiria a palestra. No caminho,
cruzou com Tônia , a quem beijou a mão e com Palmeirão, a quem beijou os pés.
Como Palmeirão estivesse desconcertado, alisando freneticamente a franja, Ed –
outrora Ortodoxia – beijou-lhe a testa. A “grande árvore” riu sobre o bigode.
O
palestrante acendeu incensos em cada um dos cantos do salão, defumou a sala de
passes e presenteou a “mocinha da cabine” (Diálogo Fraterno) com um jogo de
búzios. Pouco antes do início do colóquio, o “convertido” tirou o turbante em
respeito ao público e colocou sob a fronte uma pedra lilás, o “olho de Xiva”.
Tirou o baralho cigano da sacolinha e pôs sobre a mesa livros de Miramez, Pe.
Kevedo e até Paulo Coelho. Acendeu uma verde vela.
Quando
lhe foi concedida a palavra, levantou-se sorrindo, fez a saudação de Rá (sol) e
iniciou a palestra.
Meses
depois, tudo voltava ao normal. É que Tércia suspendera as gotinhas
implacáveis, isso após Ed, o mago, ter raspado a cabeça “dur mininu” e ter
montado um altar ecumênico no quarto do casal, inclusive com uma vaca indiana
viva.