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domingo, 29 de abril de 2012

Um Tal Ed Ortodoxia


Era uma família feliz, a família Ortodoxia. Um pai, uma mãe e os três meninos, cujos nomes nunca soube (e quiçá nunca saberei), e sobre os quais sempre conversamos como um todo homogêneo: “Ur minino”.
                   A matriarca, Tácia, recebera o nome Ortodoxia do marido, sendo menos ortodoxa. Possuía um bom-humor contagiante e curioso, visto que era funcionária pública da área se saúde. Suas risadas eram as mais constantes e quase tão intensas quanto as de Antônio – que fora multado pela associação de moradores do Conjunto Ponta Negra e tinha horários específicos para assistir a filmes de comédia. Mesmo assim, as casas que circundavam à de “Boy Antônio” ficavam constantemente “para alugar”.
                   Voltando à Tácia, ela era a cúmplice ideal para Ed, o contador de causos. Confirmando todos os seus “floreios literários”. Ed tinha uma fama tão grande de “ficcionista”, que quando ajeitava a gola da camisa para começar o discurso, vinha logo um gaiato a dizer: “Conta aquela em que você morre no final”, ou melhor, “desencarna”. Afinal, era quase sempre um meio espírita.
                   Mas, apesar do bom-humor, de ser jocosamente chamado “Papai Noel” (ninguém acredita), Ortodoxia se transfigurava quando chegava no Centro ou no local de trabalho. Era o próprio “Homem-ortodoxo”, fiel à causa e de seriedade imperturbável. Quando acabava a Reunião Espírita, organizava a roda para contar suas estórias e ouvir as imitações de Leônidas ou as piadas de “Boy Antônio”.
                   Ed era tão ortodoxo que se negou a comprar uma nova edição de “O Livro dos Espíritos”, da FEB (Federação Espírita Brasileira), só porque tinha um desenho de Allan Kardec na capa! Pobre vendedor, ouviu uma longa história sobre iconolatria. Outra peculiaridade era a verve oratória do jovem senhor em questão. Verdadeiro lapidador da língua mater, empreendia uma característica verborragia, de cunho científico-filosófico, de beleza e eficiência invejáveis. Na tribuna, era orador incansável, de fartos recursos doutrinários e lingüísticos.
                   Porém, com o intuito de torná-lo mais relaxado e menos ortodoxo, alguns de nós procuramos uma médica que trabalhava com Florais de Bach, capazes de minimizar impulsos indesejáveis e de tornar o ser mais equilibrado. E ele o desejava. Talvez, não soubesse, mas desejava mudar. Fizemos detalhado retrato do nosso Ed para a doutora e ela nos preparou uma fórmula, que passamos a introduzir na água fluidificada que o mesmo ingeria após o trabalho na Casa Espírita.
                   Como o resultado não aparecesse, mancumunamo-nos com Tácia e ela concordou em ministrar ao marido as doses recomendadas do elixir, quase como prescritas pela doutora.
                   Há três semanas, Ortodoxia não aparecia na Casa Espírita e Tácia não tocava no assunto. Até que em uma dada terça-feira, dia de sua palestra, Ed adentrou o recinto de forma sui generis. Não estivesse eu de frente para a porta, não acreditaria...
                   Em contraste com a sua gélida seriedade habitual, um sorriso tranqüilo era o cartão de visitas. Sandálias franciscanas, calça indiana, camisa branca, turbante, pulseira, anéis, cordões e até brincos. Soltou uma sacolinha, que trazia, no chão e benzeu-se, após fazer uma saudação budista e dizer palavras impronunciáveis, pelo menos neste hemisfério.
                   Ainda levemente concentrado, foi até o salão, onde proferiria a palestra. No caminho, cruzou com Tônia , a quem beijou a mão e com Palmeirão, a quem beijou os pés. Como Palmeirão estivesse desconcertado, alisando freneticamente a franja, Ed – outrora Ortodoxia – beijou-lhe a testa. A “grande árvore” riu sobre o bigode.
                   O palestrante acendeu incensos em cada um dos cantos do salão, defumou a sala de passes e presenteou a “mocinha da cabine” (Diálogo Fraterno) com um jogo de búzios. Pouco antes do início do colóquio, o “convertido” tirou o turbante em respeito ao público e colocou sob a fronte uma pedra lilás, o “olho de Xiva”. Tirou o baralho cigano da sacolinha e pôs sobre a mesa livros de Miramez, Pe. Kevedo e até Paulo Coelho. Acendeu uma verde vela.
                   Quando lhe foi concedida a palavra, levantou-se sorrindo, fez a saudação de Rá (sol) e iniciou a palestra.
                   Meses depois, tudo voltava ao normal. É que Tércia suspendera as gotinhas implacáveis, isso após Ed, o mago, ter raspado a cabeça “dur mininu” e ter montado um altar ecumênico no quarto do casal, inclusive com uma vaca indiana viva.

domingo, 15 de abril de 2012

Milagres da Fé


Clarke pensava sobre a sua infância em Soares – uma cidadela Argentina com cara de aldeia – e no serviço militar prestado na Patagônia e sorria, enquanto jogava Paciência no computador do seu escritório, em Natal.
                   Bella, sua pintosa esposa, que tinha uma pinta acima da margem direita do lábio superior, fazia juz ao seu nome, enquanto ouvia lamentos nada originais no telefone do mesmo escritório, conservando um sorriso.
                   A minha é uma turma diferente. Até porque eu não sou o que se pode chamar de “normal”. Estava pensando sobre isso enquanto fazia a digestão do almoço, em minha sala, mais tarde, iríamos a um congresso espírita.
                   Eu era jovem fisicamente, mas tinha um “quê” dos homens idosos. Não, eu não andava encurvado e nem possuía cabelos brancos, mas tinha o humor do típico homem senil e era carinhosamente chamado de “empombado” (do latim “pombus” que quer dizer “carranca”, “caratonha” e mais o “em”, desinência verbal). Esse era o vício mais badalado, mas não o único.
                   Marins, o “despenteio-vivo” houvera conhecido os primeiros fios brancos, mas tinha cara e riso de garoto. Obsecado pelos equipamentos eletrônicos e por biscoitinhos amanteigados era muito tranqüilo, principalmente no que se referia aos horários...
                   Leônidas, viciado em descongestionantes nasais desde o primeiro ciclo da puberdade era possuidor de inúmeras e inquestionáveis enfermidades, sendo a maior delas a síndrome de malhakovski, que o impelia à malhação, ao deboche, ao riso e às imitações mais complexas, com a mesma facilidade com que decorava bulas de remédio e prefácios de livros. Geralmente, precisava da inspiração de Marcos (doador de fluidos e obsedado), mas aos poucos, fora ganhando autonomia.
                   A rua me atravessava com todas as suas lojas, casas, caras e pessoas apressadas e eu me dirigia para o escritório do casal Clarke, enquanto devaneava sobre o eterno amor que me atormentava o peito. Por sinal, o quinto daquele mês e o octogésimo quarto daquele ano.
                   O grisalho Clarke comia um tareco, enquanto Bella marcava com suas canetas coloridas o nome dos devedores da firma. A fábrica de canetas adorava, pois nos últimos tempos, havia triplicado o número de canetas vendidas, das quais 35% eram para Bella. O argentino fazia comentários aparentemente despretensiosos sobre as vantagens do uso de Bic’s sem tampa, que nunca eram roubadas e, sobretudo, “Eram muito mais baratas” (Enchia a boca d’água).
                   Encontramo-nos os três e fomos para o Centro de Convenções no carro do casal, uma “caminhoneta” que há muito não via água. Eu, na parte de trás, tentava me apoiar no teto do carro, deixando – para minha surpresa – as mãos coladas no ecossistema que se formava na localidade. “Daqui há alguns anos, teremos petróleo”, pensei. O pai e o filho Marins chegaram 1h38min depois.
                   O Congresso transcorreu normalmente, com direito a atrasos de Marins e Leônidas, empombamentos meus e aos chicletes diet de Bella. Se os Marins chegaram horas atrasados, nos dias seguintes, a garota-sorriso Eva chegou dias depois, ficando por duas palestras inteiras! Uma marca quase olímpica para a mãe-esposa-empresária-professora e mulher. Há quem diga que, qual Eurípedes Barsanulfo, ela era capaz da onipresença. Fato nunca provado, embora a outra alternativa possível seria a de que a mesma tivesse uma irmã gêmea.
                   Tudo transcorria bem, até que fomos tomados de ansiedade quase juvenil (juvenil no meu caso e de Leônidas) ante a possibilidade de conseguir uma entrevista com o grande orador plurinacional Reinaldo Leite.
                   Bella certificou-se de que nenhum dos companheiros mais ortodoxos estavam a vê-la na fila, tomou coragem e inscreveu-se. “Será válida a conversa?”, perguntava-me. “Será lícita ou contrairei um débito cármico?”, torturava-se a bela. Pouco antes da sua vez, o atendimento foi interrompido até o dia seguinte. Suspiro aliviado da mulher, que nos dizia: “Foi um sinal”. Todavia, a voz trovejante de Reinaldo Leite fez-se ouvir, arrancando-a das meditações: “Falamos amanhã”, disse. Soou como um ultimato e o tranqüilizador sinal definitivo.
                   No derradeiro dia do evento, chegamos eu e os Clarke tão cedo que tivemos de acordar o vigia e o ajudar a acender as luzes. Pontualidade: patologia da modernidade.
                   Em meio às palestras, tornamos à fila para conversar com o estimado Reinaldo. Enquanto eu e Leônidas repetíamos velhas estórias do submundo espírita e galhofávamos, Bella era arrastada por Marins e Eva até Clarke, que a aguardava na fila, onde marcara lugar para a “espoça" (era assim que ele falava).
                   Finalmente, ela entrou e ficamos a esperar: eu e Leônidas fazendo os mesmos comentários irônico-edificantes, enquanto Mr. Clarke conversava em portunhol com uma paraguaia e sua filha. Segundos depois, ela (a “espoça") sai assustada, passa correndo e dirige-se ao bebedouro para recompor-se:
-         Preciso... de... água.
-         Mas o que ele disse de tão extraordinário – inquiriu o escravizado marido.
-         Sentei-me e fiquei muda a olhar para ele, até que ele disse: “Pode falar, irmã”. Permaneci em silêncio. Continuou “Bella, pode falar”. Eu não ouvi mais nada de tão espantada. Afinal, como ele ia saber o meu nome, veio de São Paulo! Isso é fantástico!!! Vem-me a intuição de que é fantástico.
-         Você não ouviu nada, além do seu nome?
-         Não. Ele falou horas, mas quando disse o meu nome, petrifiquei de surpresa e saí correndo.
-         Bella, se acalme. Ele só leu o seu crachá...
            Leônidas rolou no chão de tanto rir e eu, igualmente dementado, batia lhe nos ombros como que a repreendê-lo, sem, contudo, cessar o riso.

sábado, 7 de abril de 2012

Verde d’ Esperança


     Acordei disposto a fazer algo diferente para fugir à rotina. Algo que abalasse as estruturas e derrubasse dois ou três presidentes. Na falta disso, algo que me desse algum alento. Talvez, pintar o cabelo de acaju ou me casar, em plena 2ª feira.
                   Abri o armário e me deparei com as mesmas roupas de sempre. Todavia, uma luz d’ esperança me resvalou nos olhos. Uma camisa das antigas, que há muito não usava. Tem uma música que diz: “Vestiu uma camisa de seda e saiu por aí...”. Não sei a cor da camisa citada na música, mas sei qual não é: verde. Se não, ao invés de “sair por aí”, o protagonista teria ficado em casa com o seu pandeiro. Tudo bem que o cara da música tinha um canivete, mas mesmo assim seria pouco provável que... que... deixa pra lá.
                   Enquanto vestia o verde artefato em questão, fui buscar no fundo  da memória a razão pela qual o havia deixado por tanto tempo no fundo do baú, quer dizer, do armário...
                   Durante alguns meses, morara com tio chamado Peixoto e saímos algumas vezes para lugares onde se devia ir mais alinhado, como batizados e festas de 15 anos, e eu repetira, por umas três vezes, o uso da, então, minha camisa nova, no auge da sua verdecência!!! Como luzia demais para a estreiteza do meu prestimoso tio, ele fez um acordo comigo: me compraria uma calça, duas meias e três cuecas, além de uma camisa nova, para que eu nunca mais usasse aquela “preciosidade” na sua presença. Mesmo sem entender muito o porquê, aceitei o acordo.
                   Agora, cinco anos depois, em mais uma segunda feira – que caía para mim, às vezes, nas 4ª e 6ª - estava prestes a descobrir ou aceitar o porquê do empenho em desnudar-me. Já no ônibus, notei um sorriso debochado do cobrador. Era impossível não percebê-lo porque o funcionário era corpusculento e movia o rosto ao encontro do ombro direito quando ria...
                   Um carro tentou me atropelar com o sinal vermelho, mas eu ainda não percebera a mensagem. Um rapaz de sexualidade polêmica bradou: “Quer dizer que você é sinal verde, que a gente pode avançar”. Eu sorri, tentando evitar um espasmo muscular dirigido à mão canhota (a mesma que carregava a pasta, estando, pois, ocupada).
                   Atravessando o pátio da fábrica, risos estridentes e perguntas cretinas do tipo: “Vai para a convenção do PMDB?” (Eles se utilizam da cor verde); “Está torcendo pela Nigéria?”; “Já é Natal?”; ou pior, “Já é carnaval?”; “Apaga a luz que tá ofuscando!”; “Cadê a pilha?”.
                   No elevador, sob a pressão psicológica do acessorista, decidi brincar com a situação para evitar maiores comentários. À secretária disse: “É que faltou luz onde eu moro e fiquei com medo de ser atropelado”. Ela riu. “Encontrei a solução”, pensei. Mas, como ria de tudo, eu estava longe de evitar gracejos.
                   Para o sujeito do almoxarifado, repeti o – aparentemente despretensioso – comentário. Só que ele completou: “Deve ter sido um blecaute dos grandes! Eu pensei que você trabalhasse na pista de pouso do aeroporto.” Movi o lábio superior e o nariz para cima, fazendo cara de nojo e voltei par a minha sala, mesmo sem conseguir grampos para o pré-histórico aparelho de grampear.
                   O telefone tocou, era o ofice-boy, que tinha me visto passar e perguntou: “Aderiu à onda ecológica?!” Eu desliguei e comi as duas empadinhas que reservara para o almoço. “Será que não há outro assunto?!”, ruminei.
                   Na parte da tarde, continuaram os trocadilhos infames e quando o nível do mal-humor já estava beirando a degeneração das células pancreáticas, busquei a rua, achando muito bom não encontrar o meu amigo Leônidas – um especialista em galhofas, malhações e descongestionantes nasais.
                   Mas, como nas novelas baseadas em megalópoles e onde todos se encontram no mesmo restaurante, ele me encontrou, acho que atraído pelo doentio instinto. Ao aceitar a carona, na garupa da sua  moto, fui forçado a engolir coisas do tipo: “Onde é o jogo?”; “Desculpe, mas não tenho um capacete rosa para combinar!”; “Não sabia que você tinha entrado para o Green Peace!”; “Cabem quantas pilhas?”; “Bota um colar com rodelas de limão, para combinar!”. Ele falava, ria uns dez minutos e repetia as mesmas piadas, como que a entoar mantras. Controlei-me para não aplicar-lhe uma chave inglesa (ou “gravata”).
                   E quando nada pior podia acontecer, aconteceu. Ia me dirigindo para a casa, já a pé e uma colega de escola, Renatinha, me abordou nas cercanias de minha morada. Ela visitava uma tia e em meio à conversa, disse: “Que camisa bonita, você tá um gato!”. Aí foi demais, dei-lhe uma raquetada e fui para a casa, onde, com a ajuda de um furador, confeccionei confetes de tecido.