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sábado, 17 de novembro de 2012

Certas Coisas Nunca Mudam (junho/1999)


            Passei quase dois anos sem escrever crônicas, contos e outros bichos. Imerso no trabalho, imerso na mediocridade de ser um ser normal. Não um artista mal humorado e quiçá genial mas há coisas que nunca mudam. Como a minha preocupação em empregar o verbo “haver”, a minha pobreza em ser o último dos cronistas sem computador que escrevem em caderno (sinto-me um monge copista da Idade Média), e as penitências por que temos que passar ao recorrer ao serviço público.
            Fui renovar a minha carteira de motorista e constatei três coisas. Em primeiro lugar, que o serviço se modernizou com os computadores, tornando-se mais ágil (só não mais porque as antas corruptíveis continuam as mesmas). Não são todos, mas os funcionários, em geral, continuam mal humorados e ineficientes! (Obs.: O mal humor eu entendo, mas a incompetência meu egocentrismo não me deixa ver e perdoar).
            A segunda constatação é que ter e guiar automóveis é coisa para rico. Os últimos dados alarmantes são: 5 aumentos de combustível em 6 meses contra um de salário (6% Ah!Ah!Ah!), em 3 anos e o desembolso de R$62,00 para renovar a habilitação, fora as duas fotos e aturar a médica “mangando” de mim por ter cometido um erro no teste de vista.
Pergunta: “Quais os sinais, do mais próximo ao mais longo?”
 - X, +, Z, =, 0, + e +
 - Faltou um +!!!
            Na verdade, o ódio maior dela foi que eu sem titubear falei todos os sinais enquanto que o vovô que me antecedeu levou 15 minutos para ser convencido a encostar os olhos no binóculo acoplado ao CPU.
            A terceira constatação, no entanto, é a de que “chatos sempre existiram, sempre existirão”. Sobretudo em filas eles se manifestam:
 - “Só tem um caixa atendendo?!”
 - “O Sr guarda o meu lugar que eu vou ali no automático...”
 - “Ta vendo quem mandou votar no homem! Ahá! Ahá! Ahá” explicação: até risada de chato que se presa é diferente.
            Eles se manifestam, por vezes, para animar as filas, mas geralmente por nos torturar ainda mais. Ta certo que uma vez, em que passei 3,5 horas na fila da Caixa conheci uma moça, uma bailarina muito distinta... como era mesmo o nome dela? Ah, sim, “Flávia Madonna”. Bom, mas isso não vem ao caso, voltamos à fila do Detran ou “às filas”, visto que foram 5 em 2h15min.
            No meio da multidão o chato se destaca. Não aquele chato circunstancial que está “chateado” (o próprio nome diz) porque o time perdeu ou porque a mulher preferiu o padeiro ou aquele que tomou umas cachaças à mais, mas o chato profissional, de carteirinha, sindicalizado com 13º.
            No Detran, o chato em questão se destacou pelo visual um tanto incomum. Seria confundido com um funcionário qualquer da instituição, só que como agora eles usam uniforme... O chato foi unânime. Calça de gente normal para disfarçar, sapato colorido, camisa ensacada sem folga (supõe-se que presa às meias por debaixo da calça), pasta, um desses tipos tem sempre uma pasta para abrir e fechar, e mexer e arrumar, ou no mínimo uma capanga e um chaveiro volumoso. Óculos tem que ter (e este tinha) podendo ser de grau ou escuro. E é claro um celular, de preferência com musiquinha para criança autista. É verdade, o celular com musiquinha idiota e utilizado no tratamento do autismo. Autista é aquela criança que acha o nosso mundo um saco, e por isso vive num só seu, e a música a faz despertar para a realidade e se comunicar. Geralmente, as primeiras palavras não são dóceis, como um: “Que merda é essa?” ou “Desliga ou eu te castro!”, o que é perfeitamente entendível diante do estímulo sonoro.
            Tornando novamente ao caso, o “mala” supra citado fez tudo o que lhe competia, paquerou com as atendentes, pediu a mesma informação várias vezes, solidarizou-se com a Sra que borrou o formulário e exigia outro, leu as frases geniais escritas nas paredes e vidros dos recintos, brincou com o nome do rapaz do café, comentou sozinho o programa de TV e recebeu um telefonema que atendeu como se estivesse em casa a sós.
            Quando o celular tocou, aliás, ele se divertia marcando o tempo do atendimento médico, o que anunciou com grande alarde. Após a ligação, sussurrou com sua voz fanha: “Durô trêr minuto” (não a ligação mas o atendimento em si). Mas, para o meu secreto deleite esta média foi quebrada no Sr de 9.5 à gasolina que me antecedeu.
            Felizmente, ele não puxou assunto comigo, primeiro porque eu – precavido – lia ou fingia que lia o Rubem Alves e depois porque minha cara não devia estar muito convidativa. Não que isso fosse empecilho para uma criatura “malíssima” como ele. Existe “malíssimo”? Depois pergunto ao Dudu ou ao Marins.
            O fato é que a criatura (não fiquem com dó não, quem não é criador é criatura) optou por não me dirigir a palavra. Mesmo quando o ancião foi liberado pela médica e eu distraído não me dirigi para a salinha, ele calou. A sua fuça eu só observei enquanto ele falava ao celular, mesmo assim discretamente, para evitar uma comunicação mesmo que visual. Tinha a pele branca, cabelos grisalhos, nariz proeminente e óculos com aros dourados, não que isto seja fórmula, mas o chato daquele dia era assim.
            Acho que essa crônica ficou meio chata, não sei se pelo motivo óbvio ou se por eu estar meio destreinado, afinal corrigir prova e escrever crônica são coisas bem distintas. Ou não? Nos dois casos lemos o que é produzido e demarcamos o certo e o errado. Mas, enfim, meu braço dói, o corpo sofre, mas não a mente, esta ejacula idéias. Deixo de fazer sexo e volto a fazer amor.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

A Mulher Ideal


Todos se perguntam pelo seu grande amor, sua cara-metade, sua “alma gêmea”, seu companheiro (ou companheira) ideal, ou ideais em alguns casos.
                   A tarefa mais árdua, no entanto, coube aos machos, pelo menos no nosso caso (sapiens sapiens), ao homem, a missão de caçar, laçar e até, deixar-se enredar. Às fêmeas, a ansiedade da espera, mas a certeza de serem sempre caçadas. Afinal, a maioria dos homens caçam por esporte e indefinidamente, simultaneamente e machistamente.
                   Nos perguntamos pois, onde a mulher ideal? Como encontrá-la? Como será que ela é? Tenho ainda tempo, ou ela já foi encontrada? Existe de fato isso de “mulher ideal” ou fará parte do imaginário popular como o Pererê? Seria fruto da sociedade consumista capitalista? Haveria a mão dos comunistas ou do PFL?
                   Qual cientista instigado pelo mistério e movido pela fome, pus-me a procurar o bicho. Os livros foram bastante discordes: Pele de anjo, cinturas renascentistas e modelos ligth e até diet não me despertaram o interesse, nem me deram certeza alguma.
                   Procurei então fazer uma pesquisa. Coisa mais atual. A primeira surpresa foi que a mesma pessoa me deu respostas diferentes, em dias diversos. Exceto na exigência unânime da bunda GRANDE, ninguém chegou a um acordo. E entre “loiras / morenas, fofas / enxutas, altas / baixas, ninfetas / maduras” não saí do dilema.
                   Busquei então estabelecer um contato mais ativo com o outrora sexo frágil, contudo, após cantadas baratas e comentários infelizes, engoli doze buquês de flores, catei fragmentos de 17 poesias e colei 24 caixas de chocolate, sem sucesso.
                   Descobri que o tempo era fundamental, para não se levar gato por lebre. E isso com conhecimento de causa, pois já despachei, no barato, uns vinte bons churrascos de gato. Mas como sou um perfeccionista, e me julgo espeto de aço inoxidável, segui adiante na busca da mulher perfeita...
                   Pensei, então, em reunir qualidades indispensáveis para o mítico ser. Retiradas de ex-namoradas, atrizes, cantoras e vendedoras de jóias de ouro autênticas (Quem consegue vender isso hoje em dia, faz até chover no nordeste...).
                   Fisicamente, comecei, ela deve ser loira. Ou morena! Porém, uma coisa ou outra, sem essa de indefinição. Ou ruiva... Mas, ruiva não tem por aqui. Estamos no Brasil. Contudo, se achar uma ruiva serve, mesmo que seja estrangeira.
                   Prossegui nos detalhes da anatomia: corpo atlético. Igual ao meu? Não, não, melhor que não seja igual ao meu, detesto mulher de pernas cabeludas...
                   Passei então aos detalhes do rosto. Cabelo grande (ou longo), ou curto, desde que coerente e harmônico. Boca carnuda e olhos expressivos. Mais importante do que a cor é a expressividade dos olhos! O nariz pode ser grande, mas não que impeça um beijo frontal palato-lingual superior de superfície (Isso é só para impressionar as leitoras solteiras).
                   Inteligente tem que ser! Não esse lance de Enciclopédia ambulante ou PHD em Informática, porém, criativa, sagaz, que pegue no ar. Assim como eu... Bem, mais humilde e lacônica, espero.
                   Sensível, humanitária, boa. Daremos preferência às que tiverem carro, dinheiro e senso-de-humor, nessa ordem!
                   Bom, os detalhes pouco importam, desde que, além disso – pensei em meu quarto – eu me sinta bem ao seu lado. E tem que ter bom-humor. Aí também é demais, vai ter que ser santa...
                   Esta mulher tem que me corrigir sem ofender, tem que ser sincera, absolutamente compreensiva, tem que ser doce e firme ao mesmo tempo, tem que cortar as minhas unhas do pé e ler Sartre.
                   Rasguei e comi os meus escritos, todavia, para minha surpresa, ao chegar na cozinha, tive uma visão. Envolta em brumas (era fumaça) lá estava ela, perfeita, lúcida, linda, aquela que era tudo que sempre quis, esquentando o meu jantar, vejam, o meu jantar! Ao perceber-me, ela virou sorrindo. Era mamãe.
                   O leitor não pode me entender, não é?! Ou pode...

sábado, 16 de junho de 2012

FINALMENTE MEU PRIMEIRO LIVRO...


TRILOGIA DE TEATRO ESPÍRITA:

O livro consta de três peças de teatro. O primeiro texto dramatúrgico é "A Estrela Polaris", e nos conta a história de um bailarino russo que perde grandes oportunidades de evoluir. A segunda obra, "Celeste flor de luz", discute a arte em geral e seu papel no mundo. A trilogia se encerra com "O palco nosso de cada dia", tratando do cotidiano de artistas que vivem em uma colônia espiritual.



BIOGRAFIA DE SANDRO SARAIVA: 

Sandro Saraiva nasceu no Rio de Janeiro (RJ), mas mora em Natal (RN) há mais de vinte anos. Formado em História e pós-graduado em Teatro, é professor de escolas das redes pública e privada. Adepto do Espiritismo, Sandro integra o Grupo Espírita Irmãos Unidos (GEIU), o Grupo Persona de Teatro Espírita (GPTE) e faz parte da Associação Brasileira de Artistas Espíritas (ABRARTE), sendo o seu 1º Secretário. “Trilogia de Teatro Espírita” é o seu primeiro livro publicado.



OBS: O livro custa R$ 20,00 (+ valor do Frete). Toda a renda será revertida para o GRUPO PERSONA DE TEATRO ESPÍRITA.

OBS2: Os interessados em adquirir a publicação deverão entrar em contato pelo e-mail sandro_saraiva@hotmail.com

domingo, 29 de abril de 2012

Um Tal Ed Ortodoxia


Era uma família feliz, a família Ortodoxia. Um pai, uma mãe e os três meninos, cujos nomes nunca soube (e quiçá nunca saberei), e sobre os quais sempre conversamos como um todo homogêneo: “Ur minino”.
                   A matriarca, Tácia, recebera o nome Ortodoxia do marido, sendo menos ortodoxa. Possuía um bom-humor contagiante e curioso, visto que era funcionária pública da área se saúde. Suas risadas eram as mais constantes e quase tão intensas quanto as de Antônio – que fora multado pela associação de moradores do Conjunto Ponta Negra e tinha horários específicos para assistir a filmes de comédia. Mesmo assim, as casas que circundavam à de “Boy Antônio” ficavam constantemente “para alugar”.
                   Voltando à Tácia, ela era a cúmplice ideal para Ed, o contador de causos. Confirmando todos os seus “floreios literários”. Ed tinha uma fama tão grande de “ficcionista”, que quando ajeitava a gola da camisa para começar o discurso, vinha logo um gaiato a dizer: “Conta aquela em que você morre no final”, ou melhor, “desencarna”. Afinal, era quase sempre um meio espírita.
                   Mas, apesar do bom-humor, de ser jocosamente chamado “Papai Noel” (ninguém acredita), Ortodoxia se transfigurava quando chegava no Centro ou no local de trabalho. Era o próprio “Homem-ortodoxo”, fiel à causa e de seriedade imperturbável. Quando acabava a Reunião Espírita, organizava a roda para contar suas estórias e ouvir as imitações de Leônidas ou as piadas de “Boy Antônio”.
                   Ed era tão ortodoxo que se negou a comprar uma nova edição de “O Livro dos Espíritos”, da FEB (Federação Espírita Brasileira), só porque tinha um desenho de Allan Kardec na capa! Pobre vendedor, ouviu uma longa história sobre iconolatria. Outra peculiaridade era a verve oratória do jovem senhor em questão. Verdadeiro lapidador da língua mater, empreendia uma característica verborragia, de cunho científico-filosófico, de beleza e eficiência invejáveis. Na tribuna, era orador incansável, de fartos recursos doutrinários e lingüísticos.
                   Porém, com o intuito de torná-lo mais relaxado e menos ortodoxo, alguns de nós procuramos uma médica que trabalhava com Florais de Bach, capazes de minimizar impulsos indesejáveis e de tornar o ser mais equilibrado. E ele o desejava. Talvez, não soubesse, mas desejava mudar. Fizemos detalhado retrato do nosso Ed para a doutora e ela nos preparou uma fórmula, que passamos a introduzir na água fluidificada que o mesmo ingeria após o trabalho na Casa Espírita.
                   Como o resultado não aparecesse, mancumunamo-nos com Tácia e ela concordou em ministrar ao marido as doses recomendadas do elixir, quase como prescritas pela doutora.
                   Há três semanas, Ortodoxia não aparecia na Casa Espírita e Tácia não tocava no assunto. Até que em uma dada terça-feira, dia de sua palestra, Ed adentrou o recinto de forma sui generis. Não estivesse eu de frente para a porta, não acreditaria...
                   Em contraste com a sua gélida seriedade habitual, um sorriso tranqüilo era o cartão de visitas. Sandálias franciscanas, calça indiana, camisa branca, turbante, pulseira, anéis, cordões e até brincos. Soltou uma sacolinha, que trazia, no chão e benzeu-se, após fazer uma saudação budista e dizer palavras impronunciáveis, pelo menos neste hemisfério.
                   Ainda levemente concentrado, foi até o salão, onde proferiria a palestra. No caminho, cruzou com Tônia , a quem beijou a mão e com Palmeirão, a quem beijou os pés. Como Palmeirão estivesse desconcertado, alisando freneticamente a franja, Ed – outrora Ortodoxia – beijou-lhe a testa. A “grande árvore” riu sobre o bigode.
                   O palestrante acendeu incensos em cada um dos cantos do salão, defumou a sala de passes e presenteou a “mocinha da cabine” (Diálogo Fraterno) com um jogo de búzios. Pouco antes do início do colóquio, o “convertido” tirou o turbante em respeito ao público e colocou sob a fronte uma pedra lilás, o “olho de Xiva”. Tirou o baralho cigano da sacolinha e pôs sobre a mesa livros de Miramez, Pe. Kevedo e até Paulo Coelho. Acendeu uma verde vela.
                   Quando lhe foi concedida a palavra, levantou-se sorrindo, fez a saudação de Rá (sol) e iniciou a palestra.
                   Meses depois, tudo voltava ao normal. É que Tércia suspendera as gotinhas implacáveis, isso após Ed, o mago, ter raspado a cabeça “dur mininu” e ter montado um altar ecumênico no quarto do casal, inclusive com uma vaca indiana viva.

domingo, 15 de abril de 2012

Milagres da Fé


Clarke pensava sobre a sua infância em Soares – uma cidadela Argentina com cara de aldeia – e no serviço militar prestado na Patagônia e sorria, enquanto jogava Paciência no computador do seu escritório, em Natal.
                   Bella, sua pintosa esposa, que tinha uma pinta acima da margem direita do lábio superior, fazia juz ao seu nome, enquanto ouvia lamentos nada originais no telefone do mesmo escritório, conservando um sorriso.
                   A minha é uma turma diferente. Até porque eu não sou o que se pode chamar de “normal”. Estava pensando sobre isso enquanto fazia a digestão do almoço, em minha sala, mais tarde, iríamos a um congresso espírita.
                   Eu era jovem fisicamente, mas tinha um “quê” dos homens idosos. Não, eu não andava encurvado e nem possuía cabelos brancos, mas tinha o humor do típico homem senil e era carinhosamente chamado de “empombado” (do latim “pombus” que quer dizer “carranca”, “caratonha” e mais o “em”, desinência verbal). Esse era o vício mais badalado, mas não o único.
                   Marins, o “despenteio-vivo” houvera conhecido os primeiros fios brancos, mas tinha cara e riso de garoto. Obsecado pelos equipamentos eletrônicos e por biscoitinhos amanteigados era muito tranqüilo, principalmente no que se referia aos horários...
                   Leônidas, viciado em descongestionantes nasais desde o primeiro ciclo da puberdade era possuidor de inúmeras e inquestionáveis enfermidades, sendo a maior delas a síndrome de malhakovski, que o impelia à malhação, ao deboche, ao riso e às imitações mais complexas, com a mesma facilidade com que decorava bulas de remédio e prefácios de livros. Geralmente, precisava da inspiração de Marcos (doador de fluidos e obsedado), mas aos poucos, fora ganhando autonomia.
                   A rua me atravessava com todas as suas lojas, casas, caras e pessoas apressadas e eu me dirigia para o escritório do casal Clarke, enquanto devaneava sobre o eterno amor que me atormentava o peito. Por sinal, o quinto daquele mês e o octogésimo quarto daquele ano.
                   O grisalho Clarke comia um tareco, enquanto Bella marcava com suas canetas coloridas o nome dos devedores da firma. A fábrica de canetas adorava, pois nos últimos tempos, havia triplicado o número de canetas vendidas, das quais 35% eram para Bella. O argentino fazia comentários aparentemente despretensiosos sobre as vantagens do uso de Bic’s sem tampa, que nunca eram roubadas e, sobretudo, “Eram muito mais baratas” (Enchia a boca d’água).
                   Encontramo-nos os três e fomos para o Centro de Convenções no carro do casal, uma “caminhoneta” que há muito não via água. Eu, na parte de trás, tentava me apoiar no teto do carro, deixando – para minha surpresa – as mãos coladas no ecossistema que se formava na localidade. “Daqui há alguns anos, teremos petróleo”, pensei. O pai e o filho Marins chegaram 1h38min depois.
                   O Congresso transcorreu normalmente, com direito a atrasos de Marins e Leônidas, empombamentos meus e aos chicletes diet de Bella. Se os Marins chegaram horas atrasados, nos dias seguintes, a garota-sorriso Eva chegou dias depois, ficando por duas palestras inteiras! Uma marca quase olímpica para a mãe-esposa-empresária-professora e mulher. Há quem diga que, qual Eurípedes Barsanulfo, ela era capaz da onipresença. Fato nunca provado, embora a outra alternativa possível seria a de que a mesma tivesse uma irmã gêmea.
                   Tudo transcorria bem, até que fomos tomados de ansiedade quase juvenil (juvenil no meu caso e de Leônidas) ante a possibilidade de conseguir uma entrevista com o grande orador plurinacional Reinaldo Leite.
                   Bella certificou-se de que nenhum dos companheiros mais ortodoxos estavam a vê-la na fila, tomou coragem e inscreveu-se. “Será válida a conversa?”, perguntava-me. “Será lícita ou contrairei um débito cármico?”, torturava-se a bela. Pouco antes da sua vez, o atendimento foi interrompido até o dia seguinte. Suspiro aliviado da mulher, que nos dizia: “Foi um sinal”. Todavia, a voz trovejante de Reinaldo Leite fez-se ouvir, arrancando-a das meditações: “Falamos amanhã”, disse. Soou como um ultimato e o tranqüilizador sinal definitivo.
                   No derradeiro dia do evento, chegamos eu e os Clarke tão cedo que tivemos de acordar o vigia e o ajudar a acender as luzes. Pontualidade: patologia da modernidade.
                   Em meio às palestras, tornamos à fila para conversar com o estimado Reinaldo. Enquanto eu e Leônidas repetíamos velhas estórias do submundo espírita e galhofávamos, Bella era arrastada por Marins e Eva até Clarke, que a aguardava na fila, onde marcara lugar para a “espoça" (era assim que ele falava).
                   Finalmente, ela entrou e ficamos a esperar: eu e Leônidas fazendo os mesmos comentários irônico-edificantes, enquanto Mr. Clarke conversava em portunhol com uma paraguaia e sua filha. Segundos depois, ela (a “espoça") sai assustada, passa correndo e dirige-se ao bebedouro para recompor-se:
-         Preciso... de... água.
-         Mas o que ele disse de tão extraordinário – inquiriu o escravizado marido.
-         Sentei-me e fiquei muda a olhar para ele, até que ele disse: “Pode falar, irmã”. Permaneci em silêncio. Continuou “Bella, pode falar”. Eu não ouvi mais nada de tão espantada. Afinal, como ele ia saber o meu nome, veio de São Paulo! Isso é fantástico!!! Vem-me a intuição de que é fantástico.
-         Você não ouviu nada, além do seu nome?
-         Não. Ele falou horas, mas quando disse o meu nome, petrifiquei de surpresa e saí correndo.
-         Bella, se acalme. Ele só leu o seu crachá...
            Leônidas rolou no chão de tanto rir e eu, igualmente dementado, batia lhe nos ombros como que a repreendê-lo, sem, contudo, cessar o riso.

sábado, 7 de abril de 2012

Verde d’ Esperança


     Acordei disposto a fazer algo diferente para fugir à rotina. Algo que abalasse as estruturas e derrubasse dois ou três presidentes. Na falta disso, algo que me desse algum alento. Talvez, pintar o cabelo de acaju ou me casar, em plena 2ª feira.
                   Abri o armário e me deparei com as mesmas roupas de sempre. Todavia, uma luz d’ esperança me resvalou nos olhos. Uma camisa das antigas, que há muito não usava. Tem uma música que diz: “Vestiu uma camisa de seda e saiu por aí...”. Não sei a cor da camisa citada na música, mas sei qual não é: verde. Se não, ao invés de “sair por aí”, o protagonista teria ficado em casa com o seu pandeiro. Tudo bem que o cara da música tinha um canivete, mas mesmo assim seria pouco provável que... que... deixa pra lá.
                   Enquanto vestia o verde artefato em questão, fui buscar no fundo  da memória a razão pela qual o havia deixado por tanto tempo no fundo do baú, quer dizer, do armário...
                   Durante alguns meses, morara com tio chamado Peixoto e saímos algumas vezes para lugares onde se devia ir mais alinhado, como batizados e festas de 15 anos, e eu repetira, por umas três vezes, o uso da, então, minha camisa nova, no auge da sua verdecência!!! Como luzia demais para a estreiteza do meu prestimoso tio, ele fez um acordo comigo: me compraria uma calça, duas meias e três cuecas, além de uma camisa nova, para que eu nunca mais usasse aquela “preciosidade” na sua presença. Mesmo sem entender muito o porquê, aceitei o acordo.
                   Agora, cinco anos depois, em mais uma segunda feira – que caía para mim, às vezes, nas 4ª e 6ª - estava prestes a descobrir ou aceitar o porquê do empenho em desnudar-me. Já no ônibus, notei um sorriso debochado do cobrador. Era impossível não percebê-lo porque o funcionário era corpusculento e movia o rosto ao encontro do ombro direito quando ria...
                   Um carro tentou me atropelar com o sinal vermelho, mas eu ainda não percebera a mensagem. Um rapaz de sexualidade polêmica bradou: “Quer dizer que você é sinal verde, que a gente pode avançar”. Eu sorri, tentando evitar um espasmo muscular dirigido à mão canhota (a mesma que carregava a pasta, estando, pois, ocupada).
                   Atravessando o pátio da fábrica, risos estridentes e perguntas cretinas do tipo: “Vai para a convenção do PMDB?” (Eles se utilizam da cor verde); “Está torcendo pela Nigéria?”; “Já é Natal?”; ou pior, “Já é carnaval?”; “Apaga a luz que tá ofuscando!”; “Cadê a pilha?”.
                   No elevador, sob a pressão psicológica do acessorista, decidi brincar com a situação para evitar maiores comentários. À secretária disse: “É que faltou luz onde eu moro e fiquei com medo de ser atropelado”. Ela riu. “Encontrei a solução”, pensei. Mas, como ria de tudo, eu estava longe de evitar gracejos.
                   Para o sujeito do almoxarifado, repeti o – aparentemente despretensioso – comentário. Só que ele completou: “Deve ter sido um blecaute dos grandes! Eu pensei que você trabalhasse na pista de pouso do aeroporto.” Movi o lábio superior e o nariz para cima, fazendo cara de nojo e voltei par a minha sala, mesmo sem conseguir grampos para o pré-histórico aparelho de grampear.
                   O telefone tocou, era o ofice-boy, que tinha me visto passar e perguntou: “Aderiu à onda ecológica?!” Eu desliguei e comi as duas empadinhas que reservara para o almoço. “Será que não há outro assunto?!”, ruminei.
                   Na parte da tarde, continuaram os trocadilhos infames e quando o nível do mal-humor já estava beirando a degeneração das células pancreáticas, busquei a rua, achando muito bom não encontrar o meu amigo Leônidas – um especialista em galhofas, malhações e descongestionantes nasais.
                   Mas, como nas novelas baseadas em megalópoles e onde todos se encontram no mesmo restaurante, ele me encontrou, acho que atraído pelo doentio instinto. Ao aceitar a carona, na garupa da sua  moto, fui forçado a engolir coisas do tipo: “Onde é o jogo?”; “Desculpe, mas não tenho um capacete rosa para combinar!”; “Não sabia que você tinha entrado para o Green Peace!”; “Cabem quantas pilhas?”; “Bota um colar com rodelas de limão, para combinar!”. Ele falava, ria uns dez minutos e repetia as mesmas piadas, como que a entoar mantras. Controlei-me para não aplicar-lhe uma chave inglesa (ou “gravata”).
                   E quando nada pior podia acontecer, aconteceu. Ia me dirigindo para a casa, já a pé e uma colega de escola, Renatinha, me abordou nas cercanias de minha morada. Ela visitava uma tia e em meio à conversa, disse: “Que camisa bonita, você tá um gato!”. Aí foi demais, dei-lhe uma raquetada e fui para a casa, onde, com a ajuda de um furador, confeccionei confetes de tecido.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Nelsonrodriguiano

Amely tinha um nome francês, mas nascera no Distrito Federal, sendo brasiliense e brasileira, é claro. Tinha uma família comum: todos se amavam e se compreendiam em suas imperfeições. Seu pai, o seu Osório era militar e - como todo homem do exército - um liberal. Dona Hildete era a sua mãe. Professora universitária e casada há vinte anos era uma mulher realizada, como a maioria das suas colegas de clube.

                   No domingo, os Santiago passavam o dia no clube, praticando esporte, lendo e conversando. À noite, iam a algum teatro, assistir a qualquer representação ou a um cinema. O fato é que embora almoçassem e jantassem todos os dias juntos, reservavam os domingos para passar mais tempo juntos.

                   Amely contava dezoito anos e namorava já há três com o pintor Caio Pedro Prado, que embora não fosse muito conhecido no exterior, fazia muito sucesso em Brasília e até no sul do país. Ele viva da sua arte e só pintava quando realmente tinha inspiração. O que lhe era permitido, visto que a vendagem de seus quadros proporcionava ao jovem artista uma estabilidade financeira até comum.

                   A bela jovem, de nome exótico, desceu do carro, após estacionar o veículo próprio, a algumas quadras do escritório de advocacia onde estagiava. Como chegara cedo, uns vinte minutos antes do horário exigido, foi até a sua sala e começou a escrever umas poesias no que não foi – nem de soslaio – interrompida.

                   Na hora do almoço, teve que recusar um convite feito pelo seu patrão, Messias, que embora ficasse inebriado pela beleza da jovem, nunca lhe dirigira palavras deselegantes. Apesar da excusa, a jovem o convidou para compartilhar do almoço em sua casa. O solteirão aceitou e foram os dois no veículo dela, uma BMW, até a sua residência.

                   Já à mesa, foram surpreendidos pela visita de Caio, que ficou muito contente em rever Messias, com quem não conversava há meses. Messias havia sido colega de escola da irmã mais moça de Caio, inclusive a presenteara com um lindo anel de rubi, na festa de debutante da mesma.

                   Ao retornar para o trabalho, Amely esqueceu, por alguns intantes, a porta do carro aberta, enquanto retocava a maquiagem. Um opala que vinha em alta velocidade quase capotou para evitar o acidente e o conseqüente arranque da porta. Mas produziu, felizmente, um pouco de borracha queimada. O homem saiu do carro para ver se ela estava bem depois do susto, e a jovem pode reconhecer a figura do amigo Nélson Piquet.

                   Messias abriu-lhe a porta do elevador e subiram os dois, durante os vinte e cinco andares, conversando animadamente sobre um caso que ela havia pego.

                   Quando entraram no escritório, cerca de 20 minutos antes do fim do intervalo destinado ao almoço, se depararam com a sra. Margareth – secretária de Messias já há oito anos e do falecido pai dele, por uns vinte. Ela estava de regime e almoçou no próprio local de trabalho, algumas verduras e legumes cozidos, que mandou vir da lanchonete em frente. Ela dirigiu-se ao patrão, comunicando-lhe que Dona Débora – mãe do Messias – havia telefonado.

                   À noite, a jovem Amely dirigiu-se para a faculdade, após ir jantar em casa. Assistiu a uma empolgante aula de Direito Penal, ministrada pelo PHD, professor Lindomar Costa e Costa, que embora estivesse próximo da aposentadoria e aos 78 anos, conservava a jovialidade e o entusiasmo do princípio da carreira.

                   A segunda aula da noite foi dada pela professora Cláudia Feijó, que compensou os quinze minutos de atraso, no final da aula. O que causou euforia no alunado. A professora Feijó era versada em vários idiomas e havia feito mestrado em Viena. Nas horas vagas, tocava flauta doce.

                   Já em casa, Amely Santiago tomou um banho relachante e dirigiu-se para a cama. Minutos depois de adormecer, recebeu uma ligação do amigo Leonardo, que cursava Psicologia na mesma universidade que ela. Apesar de ser acordada, conservou o habitual bom-humor.

                   Após minutos de conversação, tornou ao leito, onde dormiu como um anjo.





OBS: Essa crônica dedico aos meus amigos Ferreirinha e Martins, que muito contribuíram para o desenvolvimento da minha verve literária, chamando minha atenção para o fato de que eu só descrevia mazelas, fazendo críticas à torto e à direito. Eis uma crônica que mostra a realidade que vemos todo dia. Não é mesmo?!

sexta-feira, 16 de março de 2012

Sutiliano

O dia amanheceu e dona “Biquinha” levantou-se para preparar o café do seu único filho: Sutiliano. A senhora era viúva e vivia em prol do seu rebento. O apelido “biquinha” a acompanhava desde o tempo do falecido. Desde os bons tempos de Geúlio Vargas (“Aquilo é que era homem”). Há divergências sobre a origem da alcunha. Uns, mais afoitos, dizem que é porque a velhinha é curva, enferrujada e vive pingando como uma bica. Outros afirmam que é porque a sua casa se localiza “de fronte” ao campinho e os meninos, depois do futebol sempre iam lavar os pés na sua biquinha. Mas, o fato é que esta mulher de 1,58m se chamava Oswalda.
         Dona Oswalda tinha uma ascendência eslava. Era filha de um eslavo e de uma portuguesa que se criou no Brasil. Apesar dessa influência não-latina, era doce e meiga. Sobretudo, com as crianças. Sobretudo, com a sua criança, seu filho: Sutiliano Getúlio de Morais, que já contava 35 primaveras. Talvez, pelo nome criminoso que lhe fora ofertado, Sutiliano era bruto, grosseiro e mal-educado. Embora a sua maior educadora lhe inspirasse candura.
         Dona “Biquinha” foi até o quarto e tocou levemente o pé esquerdo de seu filho. E que pé! Era um quarenta e quatro bico fino, herdado do pai – estivador, de 1,98m. O filho tinha só 1,92. Estranhamente o menino despertou aparentando tranqüilidade e repetindo a assertiva do Cristo, inquiriu:
-         “Quem me tocou”?
-         Foi a mamãe. Tá na hora!
-         Pô, mãe.
-         Tá na hora, “Fioto”...
-         Não (pausa) me (pausa) chame (pausa) de (pausa) “Fioto”! (Pausa/pausa e grito) Entendeu!?
            A sua cunhada, irmã de sua noiva era reencarnacionista e tinha sérias suspeitas de que ele houvera sido um dos Hunos de Átila, que dormiam sobre os cavalos, assemelhando-os. Mas, acontece que ninguém tinha solução para o temperamento indigesto de Sutiliano. A mãe o acordara para o primeiro dia no novo emprego. Contudo, à noite, teve as suas esperanças frustradas.
-         Oi “Fioto”, já chegou?!
-         Não, mãe, ainda tô lá na esquina!
-         Como foi o primeiro dia?
-         Não tá vendo a minha cara?! O dia foi uma noite... noite de filme de terror...
              A mãe, percebendo o baixo-astral do filho, indagou:
-         Por que? O que foi que aconteceu?
-         Fui demitido.
-         “Demitido”? Por quê?
-         Ora, mãe. “Por que”? “Por que”? Porque sou um cavalo... Uma senhora foi comprar pregos lá na loja, e me deu uma nota de cinqüenta reais. Eu expliquei que não tinha troco, mas não adiantou! Ela queria porque queria troco, ou então, levar os pregos de graça... Tentei explicar, mas não deu. Aí, mandei a velha guardar os pregos... Na frente de um montão de gente.
                   A genitora lhe acariciava a cabeça, quando Estelinha – sua noiva, já há nove anos – entrou na sala. Ele continuou a narrativa:
-         No fim do expediente, o seu Osório me chamou num canto, na maior sutileza. Uma educação! E me deu cartão vermelho.
                   Estelinha lhe fez uns cafunés, enquanto a sogra da mesma ia esquentar a janta. O pior é que Sutiliano era um bom sujeito. Só que era um bronco, um quadrúpede, um jumento...
-         Também não exagera!!!
                   Tá bom, dona “Torneirinha”, digo, dona “Biquinha”. Mas, como ajudá-lo? Psicólogo já havia levado a três. Dois estavam no hospital e um internado no manicômio, com maia de perseguição. O psiquiatra consultado teve que fazer uma micro cirurgia para retirar a agulha e a seringa da testa.
                   Foi então, que um amigo do seu Loureiro, da locadora, lhe ofereceu um emprego que solucionou os problemas temperamentais do nosso infeliz protagonista. Ofereceram, também, um emprego para Estelinha e eles puderam enfim se casar e ter dois lindos potrinhos, digo, filhinhos.
                   A solução foi a seguinte: contrataram Sutiliano como administrador de um haras e à sua mulher como relações públicas. Ele cuidava dos clientes e ela dos donos dos clientes. Às vezes haviam alguns problemas, por exemplo na hora de ferrar os clientes. Porém, se algum lhe coiceava, Sutiliano lhe retribuía o gesto. No fundo, no fundo, se entendiam, pois eram iguais. E dona “Biquinha” ganhou um quarto na fazenda só para ela.
            Brrr.