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sábado, 24 de setembro de 2011

Escolhas

A hora já se fazia avançada. No humilde apartamento, a jovem senhora permanecia desperta, com os olhos perdidos e úmidos, como se não contemplasse nenhum resquício de esperança. Ouvia-se, com muito esforço, o som  de um velho rádio, provavelmente da casa vizinha. Do apartamento ao lado provinham passos. Passos mansos, que não chegavam a perturbar a paz do momento. A jovem senhora permanecia desperta...
         Era bela, de uma beleza autêntica. Desta que o tempo não danifica. De uma beleza pura e singela que advinha de um espírito guerreiro. De mãe, de filha, de esposa, de irmã incansável. Havia se educado no Cristianismo e seguira de perto os preceitos do mestre. Só que a doença da filha veio a desequilibrar o ambiente doméstico, a retirar-lhe o sossego e a fazê-la infeliz.
         Quando tudo parecia perdido e Deus lhe afigurava como uma utopia, tornou a lutar. E apesar do abandono efetuado pelo companheiro, apesar da demissão do emprego, em virtude das faltas, apesar da distância da família e da imensa dor em ver a filha sofrendo, ela guerreou. Após meses de desequilíbrios, de embriaguez e desespero, ela - qual leoa no instante de perigo - pôs-se a lutar pela cria, por sua amada filha.
         Como sua igreja não se lhe mostrava como solução, buscou outras crenças. Paralelamente, começou a freqüentar um Centro Espírita e um terreiro de Umbanda. Mas a filhinha não se recuperou de pronto, e a confusa senhora retomou a freqüência à igreja. E nas semanas que se seguiram, esteve clamando por socorro nas três frentes de batalha.
         Dias atrás, Sophia - sua amada filha - recobrou o pleno vigor físico, recebendo alta médica. Estava, pois, curada. A alegria inundou a alma da jovem mãe, que colocou-se a procurar um novo emprego. Por intermédio de amigos da igreja, empregou-se na mesma semana. E tudo parecia perfeito. Entretanto, atroz dúvida lhe torturava o espírito, porque não poderia manter-se em três agrupamentos religiosos. Em qual deveria engajar-se? A quem devia a restauração da alegria de viver? A quem pertencera a solução de seus infortúnios, de suas adversidades?
         Uma companheira da antiga igreja lhe torcera o rosto, condenando sua conduta dúbia, e lhe aconselhou a fazer uma escolha, salientando que a amizade de ambas estaria apregoada à decisão. E a mãe, aflita, sabia do quanto lhe valera a amiga, durante os momentos de crise.
         Estabeleceu um diálogo com sua prima, que lhe albergara, e à filhinha, durante os momentos de sofreguidão. A prima, que sabia das visitas diversificadas da parenta, aconselhou-a a decidir-se pela religião que, segundo ela, seria responsável pela volta por cima, condição fundamental para a manutenção da paz e do equilíbrio conquistados.
         Ainda mais confusa e angustiada, dirigiu-se ao médico que tratara de Sophia, e que se lhe tornara amigo e conselheiro. Mas como este lhe havia conduzido à outra religião, considerou questão de bom senso manter-se fiel à única concepção religiosa que a deixara livre para decidir-se. Embora isso fosse uma forma de pressão.
         Há dois dias que se mantinha nessa vigília constante, escrava da tensão, da angústia e do desejo sincero de fazer a escolha acertada. E pôs-se a chorar copiosamente em seu quarto, tal qual criança amedrontada e confusa. Foi quando ouviu uma voz suave e melódica:
         - Filha, acalme-se.
         Ela reagiu de imediato e arregalou os verdes olhos à procura do interlocutor.
         - Não há necessidade deste desespero.
         Emudecida, ela vislumbrou algumas silhuetas humanas, que exalavam perfumes suaves e restauradores. A luz que emitiam cegava-na, dificultando a identificação das mesmas. Continuou em silêncio, mas uma outra voz, percebendo a sua perplexidade, lhe falou:
         - Quem lhe curou, e à sua filha, foi o Deus, criador da vida. É a ele que você deve agradecer.
         - Decerto, tu tiveste auxílio de amigos - postou-se um outro - mas os que assim podem chamar-se, te acompanharão aonde fores.
         - E se alguns há que não compreendem, você deve entendê-los e esperar por eles no degrau que galgou - tornou o primeiro a dirigir-lhe a palavra. Enquanto este falava, um outro lhe tocou a fronte, como que para aliviar o peso que lhe enrugava o rosto e realçava os cabelos brancos. Quando este se afastou, ela, ainda muda, pôde ouvir:
- Mas, para que ensines, faz-se necessário que aprendas. – e dizendo isso, se revelou e aos outros, nitidamente.
Na eternidade daquele instante, ela pode apreender-lhes a fisionomia serena e resoluta. Um deles era calvo, possuidor de uma barba nevácea e de um semblante austero. Com um sorriso discreto, percebia o impacto que as suas vestes monásticas causavam a – outrora aflita – senhora. Outro deles, mostrava-se em trajes brancos, à feição de um médico.  De cabelos loiros e pouca idade, lhe sorria com absoluta sinceridade, emanando uma luz violeta, que harmonizava o ambiente. A comitiva se completava com um terceiro, moreno, alto e robusto. Seus longos cabelos negros lhe caíam com perfeição sob a pele bronzeada, e suas vestes não lhe deixavam dúvida sobre a sua origem indígena.
Após assegurarem-se de que ela lhes conhecera todos os detalhes e de que o ambiente se tornara silencioso e harmônico, de fato, partiram. Deixando-a adormecida, porém desperta.

sábado, 17 de setembro de 2011

O Homem mais AFIM do Mundo

Não terei dificuldades para falar sobre o homem mais “AFIM” do mundo, pois quis o destino que ele fosse meu primo: Raul.
Quando do título, este assim se definia: alto, branco, cabelos castanhos, com o mesmo corte desde que foi morar em Feira de Santana, dedos longos, sem bunda (estranhava que as cuecas “M” ficassem apertadas em mim) e trejeitos singulares. Era manso, muito manso, beirando a abestalhação.
Sua primeira namorada firme foi a nariguda Kelly. Digo nariguda porque assim o era sem, contudo, ser feia. Namoraram quase dois anos e foi aí que começamos a vislumbrar os sintomas de sua ímpar doença.
Raul, o desbúndeo, não saía da casa da menina - que morava uns cinco ou seis quilômetros após a “curva do vento” e treze depois das “botas de judas”. Assim, ele conheceu em plenitude toda a eficiência do sistema rodoviário nacional...
E o impressionante era a transfiguração do meu primo quando falava com a respectiva. Imaginem o meu desgosto - eu, proveniente de  uma família de machos, foram um outro primo cabeleireiro e dois ou três pederastas - o meu desespero ao ver o insano rapaz encurvado sobre o aparelho telefônico, suado, de cuecas, gemendo:
- Amor?! Xou eu! Tudo bêêêin?... - com uma inflexão afeminada impossível de ser transcrita.
Doutra vez, após ficar as vinte últimas horas do domingo, na casa de Kelly, “Rao” (era assim que ela o chamava) tomou o ônibus de volta e após o cobrador requisitar o dinheiro ele cantarolou:
- Tá boum! - no mesmo tom duvidoso em que tinha conversado com a namorada.
O cobrador, mulato carregado, pai de três filhas, fingiu nada ouvir. Contudo, riu com a mulher até as três da madrugada, rememorando o acontecido.
Mas, como tudo passa, e “tudo sempre passará”, segundo alguns, “Rao” e Kelly terminaram o namoro. Segundo línguas maldosas, por um loiro motivo. Para mim, foi um golpe, ainda mais era amigo da nariguda em questão. Entretanto, confortou-me o fato de ela me ver menos vezes, e chamar-me - em menos ocasiões - de “Sandrículo”.
 Embora, anos depois, uma namorada aperfeiçoou o crime chamando-me “Sandriculinho”. Frescuras que nunca entendí...
Quis o destino - e sua convicção - que Raul, o desnadegado, permanecesse longo período no claustro. Até que a vida lhe trouxe Carla. Ambos entraram na universidade juntos e, durante um ano, foi os melhores amigos. Foi os melhores amigos? Sim, porque apenas Raul assim o era. A colega de curso era insanamente apaixonada pelo rapaz. Insanidade esta que - meses após - tomaria corpo e forma.
Carla era uma figura sui generis. Morena e simpática, cultivava cachinhos - propícios ao reggae - talvez, por isso, adorava tal gênero musical. E embora o talento para a dança de Raul a decepcionasse, contava com a complicidade deste. O “reggae” e a “Tribo de Jah” estavam tão intimamente ligados à - então - minha “prima”, que não podia concebê-la sem associar à música: “Babilônia em chamas / Chamas da destruição”. Infelizmente, eu só conseguira decorar este trecho.
Quando eles começaram o namoro, toda a força parasitária da paixão teve lugar, e há que se admitir que teriam tomado o lugar de Mary Émerson, um amigo nosso, que outrora fora duas pessoas apaixonadas.
Raul, o homem mais afim do mundo, estudava com Carla, de manhã e à tarde. À noite, ia ao shopping com ela, estudava com a mesma ou fazia outros programas de casais. No fim-de-semana, a simbiose era tão letal quanto a dos dias antecessores: iam da casa da mesma para um parque, e deste prá outro ... além dos passeios de namorados.
Eu, em minha pequenez, não entendia a singular patologia e mostrava a todos a minha indignação. O acusado rogava-me pragas, como quando ele tinha o rosto coberto por espinhas e eu mantinha a pele limpa, ostentando o título de “cara de bunda de neném”. Como eu o sacaneava, ele atacou-me com o pólen da vingança e - de súbito - sua pele voltou ao normal, restando-me a desfiguração. Ou, para ser menos trágico, a incômoda presença das espinhas e seus amigos cravos.
Raul, então, dizia que quando me apaixonasse seria infectado pela mesma virose que o molestava. Eu temia que, uma segunda vez, pagasse  pelas inocentes colocações. Mas seguia, convicto em minha cruzada pela sanidade.
Em dada ocasião, conversava com o despenteado Marins sobre o assunto.
- Marins, isso é um absurdo, uma doença!
- Não é bem assim. Ah, ah, ah... É só uma questão de afinidade.
- “Afinidade”? Então ele é o homem mais afim do mundo
E, embora eu não soubesse se “afim” se escrevia junto ou separado, dei ao meu esguio primo o título que intitula esta estória.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Mentiras de Amor

    É impressionante o momento em que vivemos! Onde as inverdades campeiam e acampam como os sem-terra! Mentiras sempre existiram, mas hoje elas reinam absolutamente. Eu, que assisti a memoráveis guerras e incontáveis revoluções (pela tv), ainda me espanto. Embora minta. Eu - que já fui um intelectual de esquerda e até defendi a luta armada (entre uma partida de video-game e outra), votei no Geraldo Forte, por exemplo.
         Na arte, na tv (onde se faz outro tipo de arte), nas escolas e universidades e no cenário político se mente à exaustão. Tanto quanto se come brigadeiros escondidos, na sua própria festa de aniversário, no momento em que se prepara a outra bandeja. Mas, segundo um grupo de estudiosos - dois filipinos, um checheno, um de Cratéus (Ceará) e uma paraibana mutcho macha - onde mais se refestelam as calúnias, infâmias, deslizes e inverdades é no campo do amor.
         Maridos mentem às esposas, que mentem aos amantes, que mentem aos filhos, que mentem às namoradas, que mentem aos maridos, que mentem às alunas,que mentem às outras alunas, e assim vai, infinitamente.
         Que Iracema não tinha os lábios de mel a gente já sabia, assim como que Olavo Bilac não palavreava com as estrelas, ou que as mulheres e as flores eram idênticas nos espinhos, entretanto, não esperávamos por isso.
         Um namorado - acostumado a ligar oito vezes por dia para a respectiva (fora as que ela liga) - passa dois dias sem telefonar para a mesma. Um saudável intervalo, inédito em doze anos. Quando ele liga para a referida:
         - Mô?
         - Hum...
         - Tá cum xaudadi?
         - Ra-ram.
         - Tá?
         - Tô.
         - Muita, muita, muita?
         - Tô. (Silêncio)
         “Que absurdo, que absurdo, que assinte! Alta traição ideológica...” pensa ele. Ela se pergunta: “Quem será o lutador mascarado?”
         - Tô sim.
         - Não parece.
         - Por quê? Por que não?
         - Eu passo (pausa) três (pausa) dias sem ligar. E você diz “tô” ! Assim não dá! Vou ligar para a Fernandinha. É isso aí, vou ligar pra Fefê. Telefonar para a Fefinha. Ela sim, tá com saudades de mim. E não tente me impedir!
         Ela não tentou, ela não mentiu, ela desligou. Talvez jogando fora o casamento mais esperado do ano, e que assim o era há vários anos consecutivos.
         No referido exemplo, o rapaz implorou para ouvir uma rechonchuda mentira. Ela não mentiu e eles brigaram. Falar a verdade, às vezes, quase sempre, sempre, significa arruinar o namoro /  noivado / casamento / relacionamento / rolo / parada / lance e afins.
         Agora, vamos supor que ele ligue para a tal de Fernanda:
         - Alô, a Fefin... A Fernanda está?
         A Fernanda finge ser a mãe e responde, disfarçando a voz.
         - A Fernandinha estou... Está no banho.
         - Tá bom, dona “Nandona”, eu ligo depois.
         Meia hora depois:
         - A Fernanda... É você?... Está em casa, saiu do banho?
         - (risos abafados) Oi, sou eu. Quem é?
         - Sou eu, o Charles.
         - Nem tinha reconhecido a sua voz...
         - E aí, como é, está com saudades?
         - Morrendo. Ai, que bom que você ligou! Eu estava para pirar.
         - É, mas tem nove anos que não nos falamos...
         - É que você me deixou muito boas lembranças. Como um urso de promoção, que uma mosca arrancou o olho.- Esta última frase ela só pensou, mas não disse.
         Neste caso, o nosso amigo ficou se sentindo o máximo dos máximos.
         Outra coisa comum é ligar depois de uma briga e esperar aquelas mentiras romantissíssimas.
         - Tudo bem, tudo bem, eu te perdôo.
         - Cê quer falar com quem?
         - Ah! Seu Orlando, a Claudinha está em casa? Eu poderia falar com ela ?
         Minutos depois:
         - Charles?
         - “Charles”? Claro. Quem você pensou que fosse?
         - Você, meu amor, eu sabia o tempo todo. (Mentira número 1)
         - Você tá com saudades?
         - Tô morrendo. Há horas que não durmo, não como nem vejo televisão. (Mentira número 2)
         - Olha, se você se arrependeu do que fez, (ter dito a verdade) eu te dou outra chance...
         - Oh, sim, sim. Por favor... (3ª mentira)
         Como ficou provado, as grandes mentiras fazem as enormes estórias de amor.  

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Um dia que não aconteceu

Chamo-me Dagoberto e era o encarregado de manter os alunos disciplinados no Colégio Santo Ignácio, em Mauritânia, capital da Alexandria.
Há sete anos que ocupava o cargo de Coordenador da Chefia de Disciplina Educacional, desde a fundação do referido estabelecimento de ensino.
O diretor pedagógico da nossa escola era o professor Tedesco Nilo - sendo meu superior imediato. O outro diretor, o financeiro, era o Haroldo. Para vocês terem idéia de como eu o amava, o filho do meu vizinho tem o mesmo nome do infeliz, quando ouvia os pais chamando o menino:
- Haroldinho! Haroldinho! Vem cá, menino!
Eu tinha calafrios. De certa vez, eu quase acertei a cabeça da criança com uma pá de lixo. Só não o fiz porque a pá estava enferrujada e eu temia provocar o tétano.
Antes de prosseguir, gostaria de recomendar a leitura desse texto nos locais de trabalho. E, em voz alta. Vocês já vão entender porque...
Era uma sexta-feira e eu tinha dentista. Um agradável tratamento de canal às 07 da manhã. Lá fui eu. Só que ele - o dentista - não apareceu. E depois de esperar 48 minutos, a secretária dele chegou e me comunicou que o mesmo tinha dado um jeito na coluna. Que bom!
Fui trabalhar, estacionei o carro, e mal desliguei o veículo, o “flanelão” veio para um papo amistoso. Assustei-me, porque lembrei que havia expulsado da escola o Campeão Estadual de Boxe Tailandês, na semana anterior. E que este me prometera uma visita. Mas não era ele, pelo menos ainda não. O “flanelão” batia com um pé-de-cabra na palma da mão esquerda. E que palma! Eu lhe dei uma nota de cinco.
- “Qué trocu?!”
- “Não. Que é issu.”
Quando entrei na minha sala, um aluno fumava... Com uma professora sentada em seu colo? Não. Entrara no banheiro masculino onde um aluno e a irmã da professora de química conversavam animadamente. Convidei-os à coordenação.
Finalmente, após despachar os infratores, sentei na minha confortável cadeira reclinada, que rangia furiosamente. Procurei relaxar, mas fui visitado pela professora Odaléia, que me justificava a semana de faltas e me contava coisas sobre o Oswaldinho e sua bronquite asmática (doença causada pelo vírus “entendidos”, que esqueceram os preconceitos e curtiram toda a sua bronquitude e asmaticidade). Ela saiu sete minutos depois, e eu parecia ter levado sete marteladas.
Busquei no fundo da cabeça os meus ensinamentos yogues e tentei relaxar, no que fui frustrado, novamente, pelo servente, Ebigálio. Ele me trazia uma garrafa de chafé e reclamava que tinha limpado o colégio todo e que os alunos tinham sujado tudo jogando papel no chão, lambusado o carpete, arrotado, cuspido, gritado, atazanando as idéias do humilde ser. Eu - é claro - prometí tomar uma atitude. O que ele não sabia é que esta seria urinar nas suas plantas ou enfiar-lhe o espanador goela abaixo.
Tornei à meditação tântrica e quando entrava no Nirvana, Ivana, do segundo ano, me surgiu inteira. Eu, que ainda não chegara aos trinta, senti toda a empolgação possível. Ela se sentou e começou a falar, exalando toda a sua beleza e inteligência questionável.
Foi quando Haroldo adentrou o recinto e pôs-se a tagarelar, reclamar, bufar, espernear,, irritar, encher, emporcalhar, pentelhar, enfurecer, ironizar, ensandecer, até que eu vislumbrei o Nirvana. Uma luz se me apresentou a saída. E eu mostrei a saída ao cretino do Haroldo:
- Haroldo, não quero saber de suas mesquinharias. Estou farto de suas ironias! Se sou incompetente, me demita. Mas não me torre a paciência ou te arrebento, seu crápula! E conto prá todo mundo que você liga pro Disk Sexo, aqui do colégio - isso falei mais baixo, porque poderia salvar minha pele.
Tornei à Ivana. Ela queria ligar apara a mãe e eu disquei para lá. Dona Isabel atendeu e eu disse:
- Como vai, dona Isabel? ... Bem, obrigado... A sua filha está aqui e quer falar com a semhora... Sim .... Mas antes eu é que vou falar! Como é que a senhora tem uma filha linda dessas?! Ela é demais... Eu sei, eu sei que ela é noiva, mas eu quero que a senhora mande esse garoto ir se danar, que eu vou largar as minhas duas esposas e cinco filhos. Vou fugir com ela para Foz do Iguaçú e ser recepatador de moamba ...  Tchau, coroa, a senhora também bate um bolão.
E tasquei um beijão em Ivana que me olhava embabascada. Quando ela tornou a si, eu disse que me esperasse no carro. Afrouxei a gravata e fui em direção à oitava série.
Com licença, professora. Sabe porque os alunos bagunçam na sua aula? É porque ela é uma droga! É um saco! E a senhora, a senhora é um porre. Vá para casa e pode começar a fazer crochê. Tá todo mundo liberado! A aula acabou - gritei, colocando-me em frente a um dos alunos, dizendo - você não. Você vai para a minha sala.
Chegando lá assinei a expulsão da falsa vítima e me vinguei do aluno que me atormentava sutilmente há dois anos. Arremessei a gravata.
Já de saída, passei pelo gabinete do diretor pedagógico, comendo o seu peixe preferido e afogando o busto de Câmara Cascudo no seu aquário. Ah, e picotei a foto do seu caçula, gargalhando freneticamente.
Surpreendi uns alunos fumando debaixo da mangueira e, ao invés de bater na mesma tecla, lhes dei o meu estoque de maços de cigarros e minha coleção de isqueiros apreendidos. Exceto um, beijado pela Claudia Cardinale.
Dissera ao Professor Tedesco Nilo que, agora, eu era o “bonzinho” que ele insistia em ser, enquanto me exigia expulsões mensais. Mais isso foi antes ou depois de chamá-lo de pulha? Não me recordo.
No carro, Ivana me esperava confusa e apaixonada, saudando-me com uma fungada no cangote.
Sobre o título “Um dia que não aconteceu”, tenho a declarar que é sincero. Pois, se este dia acontecesse, não estaria contando esta estória. Ou estaria?