Quando acordei, estava chovendo, mas agora o sol se
firma. Consulto o relógio e vejo que ainda faltam trinta minutos para o horário
combinado e, pelo menos, uma hora para o pessoal chegar.
Passo em frente ao shopping e as lembranças que me
borbulham à mente tornam a se fazer sentir.
Já faz dez anos desde a última vez que nos vimos.
Éramos em treze. Hoje, só tenho contato com o meu irmão. Mesmo assim, por
carta. Telefone só no natal.
Sei que alguns deles nem vão aparecer. Alguns até morreram.
Só um, que eu saiba. Tanta juventude !!!
Lembro-me como se fosse hoje, do brilho do meu olhar
ao mostrar-lhes a minha peça e dissertar sobre o meu projeto. Meu objetivo era
nos aproximar mais, contudo falhou.
Consulto o porta-luvas e coloco uma fita
aleatoriamente no rádio. Será que vou agüentar esse reencontro? Será que
haverá? Não há o que temer, “ninguém morre de ataque cardíaco aos 35 anos”,
disse-me o cardiologista. Bom para ele, assim fatura mais. Continuo chato e
resmungão! Será que nunca mudarei?
Vejo aquela placa e entro no conjunto. Lê-se: “Cidade
Satélite”. Ué, de onde saíram estes edifícios? Acho que conheço aquela
menina... não, não.
Ironicamente, o rádio toca “Mapas do Acaso”, a música
que ficou como uma espécie de hino para mim. “Estamos no mesmo barco”, diz o
Humberto. Eu abro um sorriso.
Não acredito que passei da rua! Como será que eles
estão? O último que eu vi foi o “negão”. Ele tava com o filhinho dele... porra,
tem uns três anos. A última vez que eu vi o João tem... uns... cinco? Não
acredito, cinco anos!
Tomo um susto ao ver uma quitanda no lugar onde
deveria estar a casa do Alexander. Ah, fizeram o segundo andar. Pergunto ao
fruteiro e ele indica a entrada. São três e quinze. faltam quinze, ainda.
A mulher do “morto-vivo” me manda sentar em uma das
três mesas postas no terraço. Por que me lembrei desse apelido agora?
A mulher sai prá buscar uma jarra de suco. Depois que
se converteu o Alexander parou de beber. Ouço barulho de carro, mas de onde
estou, nada posso ver.
Finalmente chega o Alexander com o Caliaari. O abraço
é apertado e as lágrimas contidas à força. Ficamos uns quarenta segundos
abraçados.
Alexander está com uma rala barba castanha, cabelo
muito bem aparado e roupas caras. Engordou um pouco.
Caliaari está com o cabelo grande, mais bem cuidado
que da última vez que o vi. Está velho. deve estar trabalhando demais, contudo,
conserva o sorriso.
Chegam mais dois: a Milena e a Elisabete. Com as
meninas por perto, o choro é impossível de ser contido.
Milena está mais magra, demais até. Usa um penteado
exótico. Elisabete, com o mesmo jeito de menina, foi, talvez, a única que não
envelheceu.
Vozes são ouvidas. Milena me mostra umas fotos dos
sobrinhos. Mas eu não as vejo, porque novos personagens chegam ao palco. desta
vez são o meu irmão e o Marcelo “negão”.
O “negão” também não mudou nada, exceto pelo bigode e
pela aliança. João traz um medalhão ao peito e um penteado de vanguarda. “Que
barbicha ridícula!”, eu digo.
Tantas lembranças! Alguém puxa um maço de fotos.
tantas alegrias...
Mais três chegam e eu sinto uma pontada no peito.
Wendell e Virgínia se separaram há uns dois anos, entretanto vêm como bons
amigos.
Depois que Wendell foi expor no exterior, nunca mais o
vi. A última vez foi há dez anos. Exatamente quando fizemos a última reunião.
Alguém pede um som, mas Alexander explica que a música
destrói a sanidade mental. Coisas da seita dele. João ri e Caliaari lhe dá uns
tapas nas costas.
Geórgia está loira e uns quilos mais magra. Não tanto
quanto a Milena, embora Geórgia tenha tirado um pouco do busto, que pena!!
Quase todos têm filhos. Quase todos estão separados.
Virgínia saca de uma máquina, porém, antes da foto,
alguém começa a contar uma história sobre morte. Meus olhos tornam a encher-se
de lágrimas e procuro esconder o rosto. Braços me abraçam e o calor me faz
ficar mais calmo. Nós a amávamos...
Olho para baixo e percebo que - apesar da reforma da
casa - o velho quarto da “Cia. teatral Expulsos do Paraíso” ainda está de pé.
Dou um grito, como que para fazer parar o tempo e tudo escurece.
Quando acordo, vejo todos aflitos ao meu redor. Por
alguns instantes volto no tempo e os vejo quase vinte anos mais novos. E é
nessa fração de segundo que lhes digo: “Aproveitem!”.