Passei quase dois anos sem escrever
crônicas, contos e outros bichos. Imerso no trabalho, imerso na mediocridade de
ser um ser normal. Não um artista mal humorado e quiçá genial mas há coisas que
nunca mudam. Como a minha preocupação em empregar o verbo “haver”, a minha
pobreza em ser o último dos cronistas sem computador que escrevem em caderno
(sinto-me um monge copista da Idade Média), e as penitências por que temos que
passar ao recorrer ao serviço público.
Fui renovar a minha carteira de
motorista e constatei três coisas. Em primeiro lugar, que o serviço se
modernizou com os computadores, tornando-se mais ágil (só não mais porque as
antas corruptíveis continuam as mesmas). Não são todos, mas os funcionários, em
geral, continuam mal humorados e ineficientes! (Obs.: O mal humor eu entendo,
mas a incompetência meu egocentrismo não me deixa ver e perdoar).
A segunda constatação é que ter e
guiar automóveis é coisa para rico. Os últimos dados alarmantes são: 5 aumentos
de combustível em 6 meses contra um de salário (6% Ah!Ah!Ah!), em 3 anos e o
desembolso de R$62,00 para renovar a habilitação, fora as duas fotos e aturar a
médica “mangando” de mim por ter cometido um erro no teste de vista.
Pergunta: “Quais
os sinais, do mais próximo ao mais longo?”
- X, +, Z, =, 0, + e +
- Faltou um +!!!
Na verdade, o ódio maior dela foi
que eu sem titubear falei todos os sinais enquanto que o vovô que me antecedeu
levou 15 minutos para ser convencido a encostar os olhos no binóculo acoplado
ao CPU.
A terceira constatação, no entanto,
é a de que “chatos sempre existiram, sempre existirão”. Sobretudo em filas eles
se manifestam:
- “Só tem um caixa atendendo?!”
- “O Sr guarda o meu lugar que eu vou ali no
automático...”
- “Ta vendo quem mandou votar no homem! Ahá!
Ahá! Ahá” explicação: até risada de chato que se presa é diferente.
Eles se manifestam, por vezes, para
animar as filas, mas geralmente por nos torturar ainda mais. Ta certo que uma
vez, em que passei 3,5 horas na fila da Caixa conheci uma moça, uma bailarina
muito distinta... como era mesmo o nome dela? Ah, sim, “Flávia Madonna”. Bom,
mas isso não vem ao caso, voltamos à fila do Detran ou “às filas”, visto que
foram 5 em 2h15min.
No meio da multidão o chato se
destaca. Não aquele chato circunstancial que está “chateado” (o próprio nome
diz) porque o time perdeu ou porque a mulher preferiu o padeiro ou aquele que
tomou umas cachaças à mais, mas o chato profissional, de carteirinha,
sindicalizado com 13º.
No Detran, o chato em questão se
destacou pelo visual um tanto incomum. Seria confundido com um funcionário
qualquer da instituição, só que como agora eles usam uniforme... O chato foi
unânime. Calça de gente normal para disfarçar, sapato colorido, camisa ensacada
sem folga (supõe-se que presa às meias por debaixo da calça), pasta, um desses
tipos tem sempre uma pasta para abrir e fechar, e mexer e arrumar, ou no mínimo
uma capanga e um chaveiro volumoso. Óculos tem que ter (e este tinha) podendo
ser de grau ou escuro. E é claro um celular, de preferência com musiquinha para
criança autista. É verdade, o celular com musiquinha idiota e utilizado no
tratamento do autismo. Autista é aquela criança que acha o nosso mundo um saco,
e por isso vive num só seu, e a música a faz despertar para a realidade e se
comunicar. Geralmente, as primeiras palavras não são dóceis, como um: “Que
merda é essa?” ou “Desliga ou eu te castro!”, o que é perfeitamente entendível
diante do estímulo sonoro.
Tornando novamente ao caso, o “mala”
supra citado fez tudo o que lhe competia, paquerou com as atendentes, pediu a
mesma informação várias vezes, solidarizou-se com a Sra que borrou o formulário
e exigia outro, leu as frases geniais escritas nas paredes e vidros dos
recintos, brincou com o nome do rapaz do café, comentou sozinho o programa de
TV e recebeu um telefonema que atendeu como se estivesse em casa a sós.
Quando o celular tocou, aliás, ele
se divertia marcando o tempo do atendimento médico, o que anunciou com grande
alarde. Após a ligação, sussurrou com sua voz fanha: “Durô trêr minuto” (não a
ligação mas o atendimento em si). Mas, para o meu secreto deleite esta média
foi quebrada no Sr de 9.5 à gasolina que me antecedeu.
Felizmente, ele não puxou assunto
comigo, primeiro porque eu – precavido – lia ou fingia que lia o Rubem Alves e
depois porque minha cara não devia estar muito convidativa. Não que isso fosse
empecilho para uma criatura “malíssima” como ele. Existe “malíssimo”? Depois
pergunto ao Dudu ou ao Marins.
O fato é que a criatura (não fiquem
com dó não, quem não é criador é criatura) optou por não me dirigir a palavra.
Mesmo quando o ancião foi liberado pela médica e eu distraído não me dirigi
para a salinha, ele calou. A sua fuça eu só observei enquanto ele falava ao
celular, mesmo assim discretamente, para evitar uma comunicação mesmo que
visual. Tinha a pele branca, cabelos grisalhos, nariz proeminente e óculos com
aros dourados, não que isto seja fórmula, mas o chato daquele dia era assim.
Acho que essa crônica ficou meio
chata, não sei se pelo motivo óbvio ou se por eu estar meio destreinado, afinal
corrigir prova e escrever crônica são coisas bem distintas. Ou não? Nos dois
casos lemos o que é produzido e demarcamos o certo e o errado. Mas, enfim, meu
braço dói, o corpo sofre, mas não a mente, esta ejacula idéias. Deixo de fazer
sexo e volto a fazer amor.