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sábado, 17 de novembro de 2012

Certas Coisas Nunca Mudam (junho/1999)


            Passei quase dois anos sem escrever crônicas, contos e outros bichos. Imerso no trabalho, imerso na mediocridade de ser um ser normal. Não um artista mal humorado e quiçá genial mas há coisas que nunca mudam. Como a minha preocupação em empregar o verbo “haver”, a minha pobreza em ser o último dos cronistas sem computador que escrevem em caderno (sinto-me um monge copista da Idade Média), e as penitências por que temos que passar ao recorrer ao serviço público.
            Fui renovar a minha carteira de motorista e constatei três coisas. Em primeiro lugar, que o serviço se modernizou com os computadores, tornando-se mais ágil (só não mais porque as antas corruptíveis continuam as mesmas). Não são todos, mas os funcionários, em geral, continuam mal humorados e ineficientes! (Obs.: O mal humor eu entendo, mas a incompetência meu egocentrismo não me deixa ver e perdoar).
            A segunda constatação é que ter e guiar automóveis é coisa para rico. Os últimos dados alarmantes são: 5 aumentos de combustível em 6 meses contra um de salário (6% Ah!Ah!Ah!), em 3 anos e o desembolso de R$62,00 para renovar a habilitação, fora as duas fotos e aturar a médica “mangando” de mim por ter cometido um erro no teste de vista.
Pergunta: “Quais os sinais, do mais próximo ao mais longo?”
 - X, +, Z, =, 0, + e +
 - Faltou um +!!!
            Na verdade, o ódio maior dela foi que eu sem titubear falei todos os sinais enquanto que o vovô que me antecedeu levou 15 minutos para ser convencido a encostar os olhos no binóculo acoplado ao CPU.
            A terceira constatação, no entanto, é a de que “chatos sempre existiram, sempre existirão”. Sobretudo em filas eles se manifestam:
 - “Só tem um caixa atendendo?!”
 - “O Sr guarda o meu lugar que eu vou ali no automático...”
 - “Ta vendo quem mandou votar no homem! Ahá! Ahá! Ahá” explicação: até risada de chato que se presa é diferente.
            Eles se manifestam, por vezes, para animar as filas, mas geralmente por nos torturar ainda mais. Ta certo que uma vez, em que passei 3,5 horas na fila da Caixa conheci uma moça, uma bailarina muito distinta... como era mesmo o nome dela? Ah, sim, “Flávia Madonna”. Bom, mas isso não vem ao caso, voltamos à fila do Detran ou “às filas”, visto que foram 5 em 2h15min.
            No meio da multidão o chato se destaca. Não aquele chato circunstancial que está “chateado” (o próprio nome diz) porque o time perdeu ou porque a mulher preferiu o padeiro ou aquele que tomou umas cachaças à mais, mas o chato profissional, de carteirinha, sindicalizado com 13º.
            No Detran, o chato em questão se destacou pelo visual um tanto incomum. Seria confundido com um funcionário qualquer da instituição, só que como agora eles usam uniforme... O chato foi unânime. Calça de gente normal para disfarçar, sapato colorido, camisa ensacada sem folga (supõe-se que presa às meias por debaixo da calça), pasta, um desses tipos tem sempre uma pasta para abrir e fechar, e mexer e arrumar, ou no mínimo uma capanga e um chaveiro volumoso. Óculos tem que ter (e este tinha) podendo ser de grau ou escuro. E é claro um celular, de preferência com musiquinha para criança autista. É verdade, o celular com musiquinha idiota e utilizado no tratamento do autismo. Autista é aquela criança que acha o nosso mundo um saco, e por isso vive num só seu, e a música a faz despertar para a realidade e se comunicar. Geralmente, as primeiras palavras não são dóceis, como um: “Que merda é essa?” ou “Desliga ou eu te castro!”, o que é perfeitamente entendível diante do estímulo sonoro.
            Tornando novamente ao caso, o “mala” supra citado fez tudo o que lhe competia, paquerou com as atendentes, pediu a mesma informação várias vezes, solidarizou-se com a Sra que borrou o formulário e exigia outro, leu as frases geniais escritas nas paredes e vidros dos recintos, brincou com o nome do rapaz do café, comentou sozinho o programa de TV e recebeu um telefonema que atendeu como se estivesse em casa a sós.
            Quando o celular tocou, aliás, ele se divertia marcando o tempo do atendimento médico, o que anunciou com grande alarde. Após a ligação, sussurrou com sua voz fanha: “Durô trêr minuto” (não a ligação mas o atendimento em si). Mas, para o meu secreto deleite esta média foi quebrada no Sr de 9.5 à gasolina que me antecedeu.
            Felizmente, ele não puxou assunto comigo, primeiro porque eu – precavido – lia ou fingia que lia o Rubem Alves e depois porque minha cara não devia estar muito convidativa. Não que isso fosse empecilho para uma criatura “malíssima” como ele. Existe “malíssimo”? Depois pergunto ao Dudu ou ao Marins.
            O fato é que a criatura (não fiquem com dó não, quem não é criador é criatura) optou por não me dirigir a palavra. Mesmo quando o ancião foi liberado pela médica e eu distraído não me dirigi para a salinha, ele calou. A sua fuça eu só observei enquanto ele falava ao celular, mesmo assim discretamente, para evitar uma comunicação mesmo que visual. Tinha a pele branca, cabelos grisalhos, nariz proeminente e óculos com aros dourados, não que isto seja fórmula, mas o chato daquele dia era assim.
            Acho que essa crônica ficou meio chata, não sei se pelo motivo óbvio ou se por eu estar meio destreinado, afinal corrigir prova e escrever crônica são coisas bem distintas. Ou não? Nos dois casos lemos o que é produzido e demarcamos o certo e o errado. Mas, enfim, meu braço dói, o corpo sofre, mas não a mente, esta ejacula idéias. Deixo de fazer sexo e volto a fazer amor.