Todos se perguntam pelo seu grande
amor, sua cara-metade, sua “alma gêmea”, seu companheiro (ou companheira)
ideal, ou ideais em alguns casos.
A
tarefa mais árdua, no entanto, coube aos machos, pelo menos no nosso caso
(sapiens sapiens), ao homem, a missão de caçar, laçar e até, deixar-se enredar.
Às fêmeas, a ansiedade da espera, mas a certeza de serem sempre caçadas.
Afinal, a maioria dos homens caçam por esporte e indefinidamente,
simultaneamente e machistamente.
Nos
perguntamos pois, onde a mulher ideal? Como
encontrá-la? Como
será que ela é? Tenho ainda tempo, ou ela já foi encontrada? Existe de fato
isso de “mulher ideal” ou fará parte do imaginário popular como o Pererê? Seria
fruto da sociedade consumista capitalista? Haveria a mão dos comunistas ou do
PFL?
Qual
cientista instigado pelo mistério e movido pela fome, pus-me a procurar o
bicho. Os livros foram bastante discordes: Pele de anjo, cinturas
renascentistas e modelos ligth e até diet não me despertaram o interesse, nem
me deram certeza alguma.
Procurei
então fazer uma pesquisa. Coisa mais atual. A primeira surpresa foi que a mesma
pessoa me deu respostas diferentes, em dias diversos. Exceto na exigência
unânime da bunda GRANDE, ninguém chegou a um acordo. E entre “loiras / morenas,
fofas / enxutas, altas / baixas, ninfetas / maduras” não saí do dilema.
Busquei
então estabelecer um contato mais ativo com o outrora sexo frágil, contudo,
após cantadas baratas e comentários infelizes, engoli doze buquês de flores,
catei fragmentos de 17 poesias e colei 24 caixas de chocolate, sem sucesso.
Descobri
que o tempo era fundamental, para não se levar gato por lebre. E isso com
conhecimento de causa, pois já despachei, no barato, uns vinte bons churrascos
de gato. Mas como sou um perfeccionista, e me julgo espeto de aço inoxidável,
segui adiante na busca da mulher perfeita...
Pensei,
então, em reunir qualidades indispensáveis para o mítico ser. Retiradas de
ex-namoradas, atrizes, cantoras e vendedoras de jóias de ouro autênticas (Quem
consegue vender isso hoje em dia, faz até chover no nordeste...).
Fisicamente,
comecei, ela deve ser loira. Ou morena! Porém, uma coisa ou outra, sem essa de
indefinição. Ou ruiva... Mas, ruiva não tem por aqui. Estamos no Brasil.
Contudo, se achar uma ruiva serve, mesmo que seja estrangeira.
Prossegui
nos detalhes da anatomia: corpo atlético. Igual ao meu? Não, não, melhor que
não seja igual ao meu, detesto mulher de pernas cabeludas...
Passei
então aos detalhes do rosto. Cabelo grande (ou longo), ou curto, desde que
coerente e harmônico. Boca carnuda e olhos expressivos. Mais importante do que
a cor é a expressividade dos olhos! O nariz pode ser grande, mas não que impeça
um beijo frontal palato-lingual superior de superfície (Isso é só para
impressionar as leitoras solteiras).
Inteligente
tem que ser! Não esse lance de Enciclopédia ambulante ou PHD em Informática,
porém, criativa, sagaz, que pegue no ar. Assim como eu... Bem, mais humilde e
lacônica, espero.
Sensível,
humanitária, boa. Daremos preferência às que tiverem carro, dinheiro e
senso-de-humor, nessa ordem!
Bom,
os detalhes pouco importam, desde que, além disso – pensei em meu quarto – eu
me sinta bem ao seu lado. E tem que ter bom-humor. Aí também é demais, vai ter
que ser santa...
Esta
mulher tem que me corrigir sem ofender, tem que ser sincera, absolutamente
compreensiva, tem que ser doce e firme ao mesmo tempo, tem que cortar as minhas
unhas do pé e ler Sartre.
Rasguei
e comi os meus escritos, todavia, para minha surpresa, ao chegar na cozinha,
tive uma visão. Envolta em brumas (era fumaça) lá estava ela, perfeita, lúcida,
linda, aquela que era tudo que sempre quis, esquentando o meu jantar, vejam, o
meu jantar! Ao perceber-me, ela virou sorrindo. Era mamãe.
O
leitor não pode me entender, não é?! Ou pode...
