Páginas

sexta-feira, 30 de março de 2012

Nelsonrodriguiano

Amely tinha um nome francês, mas nascera no Distrito Federal, sendo brasiliense e brasileira, é claro. Tinha uma família comum: todos se amavam e se compreendiam em suas imperfeições. Seu pai, o seu Osório era militar e - como todo homem do exército - um liberal. Dona Hildete era a sua mãe. Professora universitária e casada há vinte anos era uma mulher realizada, como a maioria das suas colegas de clube.

                   No domingo, os Santiago passavam o dia no clube, praticando esporte, lendo e conversando. À noite, iam a algum teatro, assistir a qualquer representação ou a um cinema. O fato é que embora almoçassem e jantassem todos os dias juntos, reservavam os domingos para passar mais tempo juntos.

                   Amely contava dezoito anos e namorava já há três com o pintor Caio Pedro Prado, que embora não fosse muito conhecido no exterior, fazia muito sucesso em Brasília e até no sul do país. Ele viva da sua arte e só pintava quando realmente tinha inspiração. O que lhe era permitido, visto que a vendagem de seus quadros proporcionava ao jovem artista uma estabilidade financeira até comum.

                   A bela jovem, de nome exótico, desceu do carro, após estacionar o veículo próprio, a algumas quadras do escritório de advocacia onde estagiava. Como chegara cedo, uns vinte minutos antes do horário exigido, foi até a sua sala e começou a escrever umas poesias no que não foi – nem de soslaio – interrompida.

                   Na hora do almoço, teve que recusar um convite feito pelo seu patrão, Messias, que embora ficasse inebriado pela beleza da jovem, nunca lhe dirigira palavras deselegantes. Apesar da excusa, a jovem o convidou para compartilhar do almoço em sua casa. O solteirão aceitou e foram os dois no veículo dela, uma BMW, até a sua residência.

                   Já à mesa, foram surpreendidos pela visita de Caio, que ficou muito contente em rever Messias, com quem não conversava há meses. Messias havia sido colega de escola da irmã mais moça de Caio, inclusive a presenteara com um lindo anel de rubi, na festa de debutante da mesma.

                   Ao retornar para o trabalho, Amely esqueceu, por alguns intantes, a porta do carro aberta, enquanto retocava a maquiagem. Um opala que vinha em alta velocidade quase capotou para evitar o acidente e o conseqüente arranque da porta. Mas produziu, felizmente, um pouco de borracha queimada. O homem saiu do carro para ver se ela estava bem depois do susto, e a jovem pode reconhecer a figura do amigo Nélson Piquet.

                   Messias abriu-lhe a porta do elevador e subiram os dois, durante os vinte e cinco andares, conversando animadamente sobre um caso que ela havia pego.

                   Quando entraram no escritório, cerca de 20 minutos antes do fim do intervalo destinado ao almoço, se depararam com a sra. Margareth – secretária de Messias já há oito anos e do falecido pai dele, por uns vinte. Ela estava de regime e almoçou no próprio local de trabalho, algumas verduras e legumes cozidos, que mandou vir da lanchonete em frente. Ela dirigiu-se ao patrão, comunicando-lhe que Dona Débora – mãe do Messias – havia telefonado.

                   À noite, a jovem Amely dirigiu-se para a faculdade, após ir jantar em casa. Assistiu a uma empolgante aula de Direito Penal, ministrada pelo PHD, professor Lindomar Costa e Costa, que embora estivesse próximo da aposentadoria e aos 78 anos, conservava a jovialidade e o entusiasmo do princípio da carreira.

                   A segunda aula da noite foi dada pela professora Cláudia Feijó, que compensou os quinze minutos de atraso, no final da aula. O que causou euforia no alunado. A professora Feijó era versada em vários idiomas e havia feito mestrado em Viena. Nas horas vagas, tocava flauta doce.

                   Já em casa, Amely Santiago tomou um banho relachante e dirigiu-se para a cama. Minutos depois de adormecer, recebeu uma ligação do amigo Leonardo, que cursava Psicologia na mesma universidade que ela. Apesar de ser acordada, conservou o habitual bom-humor.

                   Após minutos de conversação, tornou ao leito, onde dormiu como um anjo.





OBS: Essa crônica dedico aos meus amigos Ferreirinha e Martins, que muito contribuíram para o desenvolvimento da minha verve literária, chamando minha atenção para o fato de que eu só descrevia mazelas, fazendo críticas à torto e à direito. Eis uma crônica que mostra a realidade que vemos todo dia. Não é mesmo?!

sexta-feira, 16 de março de 2012

Sutiliano

O dia amanheceu e dona “Biquinha” levantou-se para preparar o café do seu único filho: Sutiliano. A senhora era viúva e vivia em prol do seu rebento. O apelido “biquinha” a acompanhava desde o tempo do falecido. Desde os bons tempos de Geúlio Vargas (“Aquilo é que era homem”). Há divergências sobre a origem da alcunha. Uns, mais afoitos, dizem que é porque a velhinha é curva, enferrujada e vive pingando como uma bica. Outros afirmam que é porque a sua casa se localiza “de fronte” ao campinho e os meninos, depois do futebol sempre iam lavar os pés na sua biquinha. Mas, o fato é que esta mulher de 1,58m se chamava Oswalda.
         Dona Oswalda tinha uma ascendência eslava. Era filha de um eslavo e de uma portuguesa que se criou no Brasil. Apesar dessa influência não-latina, era doce e meiga. Sobretudo, com as crianças. Sobretudo, com a sua criança, seu filho: Sutiliano Getúlio de Morais, que já contava 35 primaveras. Talvez, pelo nome criminoso que lhe fora ofertado, Sutiliano era bruto, grosseiro e mal-educado. Embora a sua maior educadora lhe inspirasse candura.
         Dona “Biquinha” foi até o quarto e tocou levemente o pé esquerdo de seu filho. E que pé! Era um quarenta e quatro bico fino, herdado do pai – estivador, de 1,98m. O filho tinha só 1,92. Estranhamente o menino despertou aparentando tranqüilidade e repetindo a assertiva do Cristo, inquiriu:
-         “Quem me tocou”?
-         Foi a mamãe. Tá na hora!
-         Pô, mãe.
-         Tá na hora, “Fioto”...
-         Não (pausa) me (pausa) chame (pausa) de (pausa) “Fioto”! (Pausa/pausa e grito) Entendeu!?
            A sua cunhada, irmã de sua noiva era reencarnacionista e tinha sérias suspeitas de que ele houvera sido um dos Hunos de Átila, que dormiam sobre os cavalos, assemelhando-os. Mas, acontece que ninguém tinha solução para o temperamento indigesto de Sutiliano. A mãe o acordara para o primeiro dia no novo emprego. Contudo, à noite, teve as suas esperanças frustradas.
-         Oi “Fioto”, já chegou?!
-         Não, mãe, ainda tô lá na esquina!
-         Como foi o primeiro dia?
-         Não tá vendo a minha cara?! O dia foi uma noite... noite de filme de terror...
              A mãe, percebendo o baixo-astral do filho, indagou:
-         Por que? O que foi que aconteceu?
-         Fui demitido.
-         “Demitido”? Por quê?
-         Ora, mãe. “Por que”? “Por que”? Porque sou um cavalo... Uma senhora foi comprar pregos lá na loja, e me deu uma nota de cinqüenta reais. Eu expliquei que não tinha troco, mas não adiantou! Ela queria porque queria troco, ou então, levar os pregos de graça... Tentei explicar, mas não deu. Aí, mandei a velha guardar os pregos... Na frente de um montão de gente.
                   A genitora lhe acariciava a cabeça, quando Estelinha – sua noiva, já há nove anos – entrou na sala. Ele continuou a narrativa:
-         No fim do expediente, o seu Osório me chamou num canto, na maior sutileza. Uma educação! E me deu cartão vermelho.
                   Estelinha lhe fez uns cafunés, enquanto a sogra da mesma ia esquentar a janta. O pior é que Sutiliano era um bom sujeito. Só que era um bronco, um quadrúpede, um jumento...
-         Também não exagera!!!
                   Tá bom, dona “Torneirinha”, digo, dona “Biquinha”. Mas, como ajudá-lo? Psicólogo já havia levado a três. Dois estavam no hospital e um internado no manicômio, com maia de perseguição. O psiquiatra consultado teve que fazer uma micro cirurgia para retirar a agulha e a seringa da testa.
                   Foi então, que um amigo do seu Loureiro, da locadora, lhe ofereceu um emprego que solucionou os problemas temperamentais do nosso infeliz protagonista. Ofereceram, também, um emprego para Estelinha e eles puderam enfim se casar e ter dois lindos potrinhos, digo, filhinhos.
                   A solução foi a seguinte: contrataram Sutiliano como administrador de um haras e à sua mulher como relações públicas. Ele cuidava dos clientes e ela dos donos dos clientes. Às vezes haviam alguns problemas, por exemplo na hora de ferrar os clientes. Porém, se algum lhe coiceava, Sutiliano lhe retribuía o gesto. No fundo, no fundo, se entendiam, pois eram iguais. E dona “Biquinha” ganhou um quarto na fazenda só para ela.
            Brrr.